quarta-feira, 15 de setembro de 2021

MEMÓRIAS DA CIDADE DE MACAPÁ: AMAPÁ – 78 ANOS MERCADO CENTRAL – 68 ANOS

Crônica de Humberto Moreira

Como não poderia deixar de ser fui ao Bar du Pedro tomar uma cervejinha em comemoração ao aniversário da Cidade que me viu nascer. Vi por lá uma ótima movimentação de pessoas, principalmente de jovens. A juventude precisa se inteirar da história deste lugar para poder ter orgulho do que ele representa para todos nós.

O Mercado Central é um local icônico da cidade. Antes da proliferação dos supermercados, quando só havia um açougue em cada bairro, era no Mercado que a cidade se encontrava para adquirir o alimento diário. Hoje quem tem condições faz estoque, mas naquela época as compras eram feitas todo santo dia. Na companhia de minha avó ou do meu pai (aos fins de semana) lá ia eu carregando uma sacola de pano onde eram colocados os gêneros comprados nos talhos daquele prédio. A cidade era menor e as pessoas quase sempre se encontravam durante as compras. Por causa do costume diário dava para saber os nomes de açougueiros famosos como: Joselito, Zeca Filomeno, Navegante entre outros, que trabalhavam na venda da carne verde que vinha do matadouro municipal em Fazendinha. Os Japoneses que traziam a verdura para a comercialização também eram bastante conhecidos. Os Fukuoka, Fujishima, Kawakami plantavam uma variedade muito grande de legumes. É correto dizer que nossa população cabocla nunca foi muito de comer hortaliças, mas durante muito tempo as famílias japonesas tentaram mudar essa tradição. Infelizmente não conseguiram e os que permaneceram aqui buscaram outros meios de vida.

Nascido no bairro do Trem eu tinha uma relação bem próxima com o Mercado porque minha avó morou por muitos anos na curva que liga a Feliciano Coelho com a Tiradentes. Janary Nunes deu a ela a casa que servira, antes do advento do frigorífico, de local para salgar a carne que sobrava do abate diário. O imóvel foi residência da família por muitos anos e continua sendo patrimônio de parentes. De lá para a Doca da Fortaleza era um pulo. Para um garoto de oito anos era muito fácil descer pela Pedro Baião até a esquina da Casa Califórnia, na São José. Por ali também funcionava a escola do professor Alzir Maia, uma das poucas escolas particulares da cidade. De lá era só seguir em frente e entrar no Mercado. Pela parte da tarde era chegada a hora da víscera. A partir das 03hs da tarde o caminhão do matadouro chegava trazendo coração, fígado, rim e bucho devidamente limpos para serem vendidos à população. A procura era grande pois os preços eram acessíveis às famílias de menor poder aquisitivo. Minha mãe me escalava uma vez por semana para ir ao mercado para comprar fígado ou coração e outros miúdos. Logo após às 13hs eu corria para a fila que se formava na lateral do prédio. Interessante que se marcava a vaga com uma pedra dentro do paneiro e ninguém mudava. Enquanto o caminhão não chegava dava para ir até a prainha por detrás da Fortaleza, para um banho refrescante. No Mercado também havia os fiscais da Delegacia de Economia Popular que estavam de olho nos preços praticados pelos talhos e açougues. Gente como Capa Branca e Praxedes ficavam de olho. Além do Bar Du Pedro, tradicional reduto da Boemia macapaense até hoje, havia também no mercado a Farmácia do Seu Bruno, a Barbearia e uma lojinha de venda de produtos de Umbanda que liberava no ar um cheio de defumação, que ficava queimando sob o balcão. No lado de dentro funcionava o Café do Seu Alberto, onde algumas vezes, já adulto, tomei o café da manhã na companhia do Bebeto Nandes. A gente havia emendado junto com Mário Lucien ou Rudnei Monteiro depois de tocar um baile com os Milionários e descíamos para o Mercado. O pai do Bebeto nos recebia sempre muito bem. Na administração esteve por muitos anos o Seu Marituba. Raimundo Pessoa Borges ficava num deck elevado, de onde observava tudo que acontecia. Ex-jogador do Amapá Clube, Marituba foi também durante anos juiz de futebol da antiga Federação Amapaense de Desportos. Depois dele veio o Laxinha, figura conhecida no bairro por sua ligação com o Trem Desportivo Clube.

E foram tempos maravilhosos em que a cidade era, sem dúvida, mais aconchegante. Nunca perdi minha ligação com o Mercado Central e seus personagens. Olhando agora de dentro do Bar du Pedro as lembranças desfilam na minha saudade. Para fechar vou citar aqui alguns nomes inesquecíveis que são a própria história do bairro:

Belarmino Paraense de Barros, José Malcher, Walter Banhos, Zeca Banhos, Chico Salles, Zé Crioulo, Celso Mariano, Miguel Pinheiro Borges, Durval Mello, Romeu Harb, Abdalla e Stephan Houat, Aziz Gamachi, Nely de Matos, Eurico Vilhena, Franquinho, Zê Valente, Walber Damasceno, Nonato Leal, Seu João do Brunswick, Inspetor Eli Ramalho, Seu Abalen, Seu Anaice, Professor Onualdes Feijão, Vadoca, Turíbio Guimarães, Professor Ricardone, Elza Franco, Dona Doninha... e muitos, muitos outros como o português da saboaria, cujo nome se perdeu nas brumas da minha memória.

Fonte: Facebook (reprodução)

sábado, 11 de setembro de 2021

MEMÓRIA DO RÁDIO AMAPAENSE: JACY DUARTE TAMBÉM PASSOU PELA DIFUSORA

 ICÔNICA PERSONAGEM DO RÁDIO

Por José Machado

Jacy Duarte (Arquivo pessoal)

JACY DUARTE, está entre os inúmeros personagens que contribuíram com seu talento e profissionalismo para a historiografia da Difusora de Macapá, 

Iniciou sua carreira profissional em radionovelas em Belém/Pa. São mais de sessenta anos ininterruptos de microfone e, representa talvez a mais longa e permanente carreira do rádio no Norte do país.

O fenômeno das radionovelas dívididas em capítulos, tinha como principal público-alvo o feminino, e havia total fascínio que a fantasiada ficção proporcionava.

As jovens e senhoras, se postavam junto ao receptor em dias alternados à espera da novela que teve grande popularidade e imensa aceitação, atraindo cada vez mais ouvintes. Vendia ilusões e esperanças em arrebatados dramalhões. 

Seguidos das radionovelas, surgiram os seriados que ressignificavam experiências emocionais, no melhor estilo folhetinesco que passavam a se mesclar ao imaginário dos ouvintes, já fidelizados a este novo veículo de difusão da indústria cultural.

Eram o carro-chefe das programações radiofônicas e, as emissoras iniciaram um processo de adaptação que o tempo exigia. Se no início os seriados e novelas eram importados, suas produções passaram a ser locais, gerando um novo nicho de mercado para escritores e jornalistas e aspirantes a carreira de rádio atores e atrizes.

À época, a carência de recursos humanos qualificados, obrigava as emissoras a selecionarem dentre seu próprio quadro de locutores, candidatos a essa modalidade profissional. 

Pauxy Gentil Nunes, então governador do Território Federal do Amapá e, colega de faculdade de Edir Proença (Rádio Clube do Pará), ao fazer uma visita ao amigo, manifestou a intenção de criar o cast de rádio atores (atrizes) da Difusora de Macapá.

Autorizado pelo governador, Mário Quirino, diretor da RDM á época, manteve gestões junto a direção da Rádio Clube, que liberou dois funcionários.

Foi assim, que em meados de 1955, indicados por Proença, os jovens (em idade) mas veteranos radialistas Jacy Duarte e Lindolfo Pastana, migraram para Macapá.

Jacy, à época integrante da Força Aérea Brasileira, pediu transferência para um destacamento avançado da FAB em Macapá, a fim de conciliar ambas as atividades.

Foi um período de intenso trabalho, mas bastante produtivo, inclusive na montagem da grade de programação da emissora, que funcionava no estilo “vitrolão” (música, prefixo) e poucas propagandas. Montaram um elenco com estreantes, que surpreenderam pela versatilidade e exponencial artístico.

Concluída suas missões, Lindolfo Pastana permanece mais alguns anos em Macapá e, Jacy Duarte, retorna a Rádio Clube do Pará PRC-5 e, cria “o Regatão vem aí”, sua marca registrada, que o tornou conhecido em toda a Amazônia e ficou na história da radiofonia paraense.

Inspirado no mascate que viajava pelos rios da Amazônia, comercializando gêneros de primeira necessidade com os ribeirinhos, na base do “escambo” (troca de produtos regionais, agrícolas e extrativistas), JACY, viu sua audiência subir vertiginosamente.

Teve grande aceitação pelo estilo irreverente, coloquial e regionalista de se comunicar, e o repertório sertanejo, entremeado com pequenas esquetes que ficaram consagradas no rádio.

Personagens memoráveis como o velho caboclo, de origem nordestina (muito esperto), o padre, o sacristão, tudo isso intervalado pela leitura das cartas dos ouvintes dos mais longínquos lugares da Amazônia e do exterior, como Noruega e Suíça, ouvido através dos clubes de rádio escuta. 

Tipos folclóricos que ficaram na memória dos ouvintes, tudo   feito de improviso. Um dos programas mais duradouros da emissora e líder absoluto de audiência no horário.

Há 65 anos no ar, “O Regatão vem Aí”, acompanhou a evolução tecnológica e adaptou-se a modernidade do rádio e da mídia digital.

Totalmente “repaginado” em seu conteúdo, as   viagens agora são limitadas pelo sinal da Rádio FM Cultura, e duram o tempo de uma hora.

Jacy, colocou o seu talento e conhecimentos que experienciou ao longo de sua carreira, à compreensão da cultura popular e da alma do povo amazônida através do rádio. 

Um ser humano especial, durante contatos que mantivemos, confirmou o perfil que haviam traçado sobre ele. Um indivíduo educado, atencioso e modesto.

Quando lhe, pedi que falasse sobre sua atuação na Difusora de Macapá, tamanha foi sua surpresa de como soubera dessa fase de sua carreira e, que poucos tomaram conhecimento e que ele julgava perdida no tempo.

Falei do meu propósito de homenageá-lo nesta data, quando do aniversário da RDM. Chegou a enfatizar, que pelo curto período, e o trabalho desenvolvido, não se achava merecedor de homenagens.

Não habituado com modéstia, fiquei surpreso, haja vista que poucos seres humanos estão à prova da vaidade de uma atenção interessada.

Preservar a memória da emissora, torna possível a compreensão dos períodos anteriores, da identidade e da cultura, além do trabalho que envolveram os seus colaboradores.

É importante pontuar que a consolidação, prestígio e conceito conquistados pela RDM perante seus milhares de ouvintes, foi graças ao cast transato, vanguarda de nossas alegrias e orgulho.

Essas figuras icônicas, abriram à várias gerações o campo de expressão artística local, um circuito voltado para o mercado nacional.

Não foram apenas o grande público e os artistas que ganharam, sobretudo, foi notável seu papel na formação de profissionais.

JACY DUARTE, é graduado em Direito e Administração de empresas. Aos 83 anos de idade bem vividos, esbanjando saúde, divide seu tempo entre a produção e apresentação de seu programa, e a Direção da agência de publicidade da família.

E, nas vagas horas, se dedica a Literatura. Publicou “Banco de Praça” que presenteou o articulista com um exemplar (foto) abaixo.

JACY DUARTE, é daqueles indivíduos, que sua   identidade biográfica confrontada com a travessia do tempo, ultrapassou os limites biológicos da finitude e da existência.

Ao ensejo dos 75 anos da Rádio Difusora de Macapá completados hoje, prestamos esta justa e mais que merecida homenagem, a uma icônica e eclética personagem, ainda atuante no rádio paraense e, talvez no Norte do Brasil.

JACY DUARTE, figura entre aqueles que com talento e profissionalismo, ajudaram a escrever a história, deram sentido e feição à pioneira da radiofonia amapaense. Seu contributo foi imensurável para a trajetória de sucesso da RDM, cuja história se confunde com a do Amapá.

sexta-feira, 10 de setembro de 2021

MEMÓRIAS DO RÁDIO AMAPAENSE – RADIALISTA DINA FIGUEIRA

 MUITO ALÉM DE UMA BONITA VOZ.

Texto: José Machado

O acaso fez o ingresso no Rádio, de OSVALDINA FIGUEIRA BARROS, conhecida artisticamente como “Dina Figueira”, levada pelo radialista Edvar Mota.

Meados dos anos 60, quando ao ser atendido por aquela jovem vendedora, com um timbre de voz característico em níveis harmônicos e padrão sônico atrativo, o veterano locutor de apurada audibilidade, teve a certeza de que estava à frente de uma grande promessa como locutora.

Convite aceito e aprovada no teste Osvaldina, integrou a equipe da ZYD-11 Rádio Equatorial, recém-inaugurada, hegemonicamente masculina. Se revezava ao microfone, com grandes profissionais da nova emissora, que foram alinhavando sua carreira.  -

Com a intervenção Federal, parte dos recursos humanos e do acervo técnico foram absorvidos e incorporados à Rádio Difusora de Macapá.

Algum tempo depois, sentindo que Macapá estava pequena para os seus sonhos Dina, buscou outras plagas, onde pudesse expandir seu talento.


Apostou na afirmação de sua carreira profissional, que lhe oportunizou transitar por outros meios de comunicação. E, em 16 de abril de 1967, foi contratada pela PRC-5 Rádio Clube do Pará.

Sua melíflua voz, passava uma sensação de tranquilidade e, ganhou destaque na radiodifusão paraense, uma grande comunicadora, um misto de dicção perfeita (alternâncias rítmicas das ênfases, clareza e expressividade).

Sabia usar a entonação certa que o texto exigia: forte, suave ou emocional-tendências estilísticas de uma boa locução que ampliaram as oportunidades e, passou a gravar comerciais para rádio e TV.

Começou a ser cobiçada por outras emissoras e, foi assim, que migrou para a RBA-Rede Brasil Amazônia, atuando na Rádio e Televisão daquele Grupo de Comunicação.

Em junho de 1974, Dina contraiu matrimônio e deixou o rádio paraense, fixando residência em São Paulo. Naquele mesmo ano, tentou ingresso nas Rádios: MULHER e AMÉRICA, optando pela segunda, que lhe oferecia maiores vantagens salariais e em termos de mobilidade – próxima de seu apartamento.

Com o tempo, a impossibilidade de conciliar maternidade e trabalho, Dina optou então por um afastamento, temporário, que se tornou definitivo, frustrando suas perspectivas profissionais. Sua trajetória, apesar de intensa, foi encerrada prematuramente.

Apesar da dificuldade de protagonismo Dina, foi uma figura proeminente que conseguiu, se destacou e marcou época. Abriu caminho para que outras mulheres viessem ingressar em um mercado predominantemente masculino, sob grande intimidação social.

Àquelas que ousavam pensar em trabalhar como locutoras, temiam as críticas maledicentes. Embora não houvesse nenhum caso explicitamente declarado, sempre havia uma insinuação de uma vida íntima mundana.

Histórias como da Dina, eram casos rotineiros em um País, que tinha forte “localismo” - apego a um conservadorismo demagogo de costumes sociais e culturais, opondo-se a qualquer tipo de movimentos progressistas.

E, quanto menor a cidade, maior os tabus e preconceitos, baseados em justificativas e padrões sociais construídos sob a ótica, de uma suposta   superioridade masculina.

Sua decisão, causou em sua família num primeiro momento, reprovação que o tempo, se incumbiu de provar que a preocupação era infundada.

Assim como Edna Luz, que ingressara um pouco antes na Difusora - Dina, experimentou o conflito do exercício da profissão, da crítica, às facetas do preconceito associados a esse meio de comunicação.

Encarou com denodo, todo tipo de tolhimento que as mulheres enfrentaram para alcançar seus sonhos e, de romper com os padrões estigmatizantes.

Entre recuos e avanços, Dina foi escrevendo a história de uma batalhadora, que se livra de todas as amarras opressoras sozinha e, se faz como uma mulher vitoriosa.

Fez carreira, história e dividiu as fainas diárias com seus colegas homens, sem sofrer nenhum tipo de hostilização ou constrangimentos.

Dina, viveu historicamente um período difícil profissionalmente e, precisou de ousadia para adentrar espaços de exclusão feminina.

Osvaldina Figueira, está entre as maiores revelações do rádio no Norte do Brasil. Profissional eclética, destacou-se como (DJ), apresentadora de jornais falados e informativos

Transitou e residiu em várias capitais, acompanhando o esposo que era bancário. Após esses exílios voluntários, retornou à Belém onde fixou residência e, atualmente goza de merecida aposentadoria.

A mesma personalidade forte, extrovertida que demonstrava diante do microfone ao vivo, também era vista por amigos e familiares.

O afeto e o carinho com que tratava os colegas e ouvintes, a exaltação do amor pela vida, não por acaso, explicava a paixão que ela sentia pela profissão.

OSVALDINA FIGUEIRA BARROS (Dina), uma moça simples, humilde que lutou contra as adversidades da vida, que se reinventou buscando conhecimento, à conquista de seu espaço e, se fez importante para muitos.

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Nota do Editor:

Muito oportuna e gratificante homenagem que o veterano companheiro José Machado faz à Osvaldina Figueira Barros, uma colega radialista que tive o privilégio de conhecer desde os primeiros dias nessa envolvente profissão.

Lembro, claramente, de Dina Figueira como locutora e discotecária, na antiga ZYD-11 – Rádio Equatorial de Macapá-(AM), a segunda emissora de amplitude modulada, que existiu na capital amapaense, no início dos anos 60.

Após o fechamento da emissora, que era clandestina, reencontrei essa brilhante profissional na Rádio Difusora de Macapá., desempenhando as mesmas funções na discoteca e ao microfone.

Com este meu testemunho, venho corroborar de forma contundente e irrefutável, a importante contribuição de Dina Figueira, ao Rádio amapaense, magnificamente homenageada por nosso confrade, neste belo texto, que, com prazer, trazemos aos leitores do blog Porta-Retrato. (João Lázaro)

Fotos: Reprodução (arquivo pesoal)

quarta-feira, 25 de agosto de 2021

MONUMENTO A CABRALZINHO - O HERÓI DO AMAPÁ

Registro fotográfico de dezembro de 1976 perpetua para a história, quando a loja Maçônica Acácia do Norte doou a estátua de Cabralzinho para o povo do município de Amapá.

Cabralzinho foi maçon.

Esse monumento encontra-se erguido no local onde ocorreu o encontro entre Cabralzinho e o capitão Lunier - em dia 15 de maio de 1895 - na cidade de Amapá-AP, distante 312 quilômetros da capital, Macapá

Foto publicada por João Ataíde, reproduzida do Facebook.


domingo, 1 de agosto de 2021

MEMÓRIA ESTUDANTIL DO AMAPÁ: JORNAL "O BALUFA".

 JORNAL "O BALUFA".

Por Nilson Montoril.
Partiu do ginasiano Carlos Oliveira Nery, a ideia da criação de um jornalzinho independente no Colégio Amapaense. Fui o primeiro a ser informado de tal pretensão, haja vista que integrávamos a 4ª série ginasial B e éramos bons amigos. Isso aconteceu no dia 10 de setembro de 1962, após uma aula de Português, ministrada pelo Professor Raimundo Pantoja Lobo, o popular Aporema.
Ao comentar a respeito do primeiro jornal a circular no Brasil, “A Gazeta”, do Rio de Janeiro, no ano de 1808, o ilustre mestre também se lembrou do Jornal “O Castelo”, periódico que circulou sob a coordenação do Grêmio Literário e Cívico Rui Barbosa. Entusiasmado com o assunto, o Carlos Nery decidiu concretizar sua idéia. Rapidamente formou um grupo constituído por ele, Nilson Montoril de Araújo, Pantaleão Gonçalves de Oliveira, Aldony da Fonseca Araújo, José Maria “Gato”,João Eudes Freitas,Raul Soares e Lucas Vale. Em 1962, o Colégio Amapaense era dirigido pelo Engenheiro e Professor de Matemática Manuel Nogueira, que se propôs a nós apoiar, desde que, divulgássemos coisas deveras importantes. A mesma atitude adotou o Professor Murilo Ferreira, que o substituiu em 1963. A cordialidade dos Professores Nogueira e Murilo nos deu ânimo redobrado e nos levou à presença do Professor Antônio Munhoz Lopez, Diretor da Divisão de Educação, nomeado pelo Governador Terêncio Furtado de Mendonça Porto, a 19 de agosto de 1963. Na época, a Divisão de Educação funcionava em um anexo do Grupo Escolar Barão do Rio Branco, atrás da Biblioteca e Arquivo Público. Fomos bem recebidos e aproveitamos para reivindicar a doação de papel, tinta e stêncil para mimeógrafo. Firmamos a importante parceria convidando o Professor Munhoz para nos honrar com artigos sobre literatura e cinema. O Carlos Nery era um craque em pedir. Tinha uma conversa capaz de derrubar avião. Dentre os nossos mais frequentes colaboradores, despontava o Carlos Nilson da Costa, que era aluno do Curso Científico, reconhecidamente “bom de caneta”. Em dado momento, lembramos que o jornal ainda não tinha nome.
Como o nosso grupo era muito ativo e levava tudo na brincadeira, além de ter a pecha de anarquista, decidimos usar o apelido do Aldony da Fonseca Araújo: “Balufa”. Ele era bem gordinho e alguém lhe sapecou o adjetivo “Balofo”, que significa muito volumoso em relação ao peso. Acontece que nosso amigo Aldony não se importava com a alcunha ou se ela estava correta. Todos o chamavam de Balufa. A brincadeira virou coisa séria e não faltaram colaboradores. O jornal falava de literatura, cinema, história, educação, esportes, poesia, crônicas, entrevistas, aniversários, humor e algumas fofocas.
Em julho de 1963, a equipe do jornal integrou a embaixada do Grêmio do Colégio Amapaense, que realizou uma visita a Serra do Navio, a convite da Gerência da Indústria e Comércio de Minérios S.A. O exemplar do jornal não era vendido. Dava um trabalho danado deixá-lo no ponto de ser rodado no mimeógrafo. O conteúdo tinha que ser datilografado no stêncil, corrigido e impresso. Nossos parceiros nessa empreitada eram o Ernani Marinho e a Iria Lúcia. O jornal nunca criticou gestores públicos e se manteve alheio às questões políticas. Mesmo assim, sua impressão foi interrompida após a intervenção militar de 31 de março de 1964. O mesmo fato ocasionou o fechamento da sede do Grêmio Literário e Cívico Rui Barbosa, a destituição de sua diretoria e a clandestinidade da associação. Dentre os fundadores do jornal “O Balufa”, apenas o Pantaleão Oliveira, o Nilson Montoril de Araújo e o Raul Soares vivem em Macapá. O João Eudes, que até pouco tempo residia no Estado de São Paulo, parti para a eternidade.Os demais já faleceram. O Carlos Nery, em 1965, mudou-se para Belém, onde cursou medicina. O Lucas Vale foi residir em Brasília, onde forças de repressão o teriam eliminado, por considerá-lo comunista. O José Maria “Gato” retornou a Manaus. O Aldony Araújo, Balufa para os amigos, que simplificaram sua alcunha para Babá, andou por Belém, mas depois retornou a Macapá e aqui morreu.
Antes do surgimento do Jornal “O Balufa”, outro periódico denominado “O Castelo”, obteve enorme aceitação nos meios educacionais do Amapá. Circulou pela primeira vez no dia 5 de novembro de 1951, como órgão de publicidade do Grêmio Literário e Cívico Rui Barbosa, criado por um grupo de alunos do Ginásio Amapaense, para progredir nas atividades literárias e jornalísticas. O Ginásio Amapaense funcionava no Grupo Escolar Barão do Rio Branco. A 1ª edição do jornal “O Castelo” colocava em destaque a memória de Rui Barbosa e continha crônicas, poesias e notícias diversas. O jornal tinha 12 páginas e boa ilustração, principalmente a de um castelo em azul e vermelho, ainda hoje símbolo do “Colosso Cinzento”. Vários alunos que o idealizaram e nele publicaram obras literárias, pararam de fazê-lo após a conclusão de curso ginasial. Porém, o jornalismo amapaense ganhou importante participes.
A foto acima, data de julho de 1963, batida junto a Estrada de Ferro do Amapá, em Serra do Navio, momentos antes do nosso regresso a Macapá, numa segunda feira. No sentido horário identificamos os integrantes da embaixada do Colégio Amapaense. Em pé: José Maria Franco, Janete Góes, Esmeralda, Nestlerino Valente, João Nascimento(Bulão), Ernani Marinho, Aldony Araújo(Balufa), João Eudes(Cabeludo), Edilson Brito, Lucas Vale, Raul Soares, Nilson Montoril, Mércia Souza, Arthur Rafael, Dário(Presidente do Grêmio), Asdrubal Andrade, Paulo Armando Andrade, Pedro Assis. Agachadas: Consuelo, Rosa Gillet, Iracema Mendes, Léa Assis, Ronely Souza, Eloisa Gazel, Elcy Lacerda, Leide Picanço, Lauriza Jucá e Vera Pinon. Sentado ao lado do trilho: Dadir Ferreira. Por trás do João Nascimento vemos o Relações Públicas da ICOMI.
Fotos: Arquivos do blog

segunda-feira, 28 de junho de 2021

MEMÓRIAS DE MACAPÁ: GAROTOS, QUE COMO EU, AMAVAM OS “BEATLES”...

NOSSA LIVERPOOL ERA ALI

Cléo Farias de Araújo (*)

Final dos anos 60 para começo dos 70. Depois de mais um embate futebolístico contra o leãozinho do Palhinha, irmão do Leorivaldo Furtado, no campo onde depois construíram o CCA e a Pediatria, eu e uns amigos íamos para a casa do Prof. Mário Quirino, na esquina da Rua Leopoldo Machado com a Avenida Machado de Assis, por detrás do CCA, tomar água gelada. Afinal, passávamos boa parte das tardes macapaenses jogando futebol. Lógico que, após tanta correria, buscássemos o precioso líquido em algum lugar, já que nossas casas guardavam certa distância do campo.

Aquelas visitas tornaram-se hábito, o que resultou num amistoso entrosamento, a ponto de aprendermos os nomes das pessoas que ali residiam. Assim sendo, quando acabavam as peladas, já chegávamos na casa da esquina, chamando o Serjão, pra pedir água. As costumeiras visitas, aliadas à curiosidade infanto-juvenil, ensejaram escutarmos, em certa tarde, umas músicas em inglês, que pensamos estarem sendo tocadas na Difusora. Mas o Márcio (o mais novo dos irmãos) veio dos fundos da garagem com umas capas de discos, que logo identificamos como dos Beatles. Naquela tarde, o papo se estendeu um pouco mais e pudemos ouvir outras canções, com a reunião se encerrando à noite. Essa descoberta nos levou a fazer três coisas naquela casa: beber água gelada, bater papo e ouvir Beatles, na garagem. Isto aumentou nosso interesse por música.

Alguns de nós já engatinhávamos alguns acordes. Mas tínhamos dificuldade em “tirar” as músicas, ouvindo apenas rádio. Discos eram muito caros e o que ganhávamos, vendendo picolé, pastel ou cobre/alumínio, dava malmente pra irmos ao cinema. Contudo, “os irmãos quirino”, como na época, o Frank Asley chamava pro Delrio, Serjão e Márcio, eram muito legais. Eles possuíam os discos e não se importavam em repetir interminavelmente as músicas, até “aprendermos” a pronúncia (copiando-a, ao nosso modo) e alguns solos mais simples.

Aquela garagem ficou pequena e passamos a nos reunir no muro que guarnecia a casa. Em nosso clube, compareciam assiduamente, além dos três beatlemaníacos que lá residiam: Eu, Antônio Maia, Francisco de Assis, que ali foi batizado de Frank Asley, Vital Júnior, Chico Semana, Euclides Farias, Osmoar, ou "Boto de Santo André"(um paulista que veio morar em Macapá, na casa de seu cunhado Sabá “apressadinho”, funcionário do BB), Álvaro Gomes, Manoel Cordeiro, Aldomário, Aloisio Cantuária, Aurélio Cantuária,  Dilson Ferreira, Quibiga, Pixata, Robertão e tantos outros semiroqueiros. Em um tempo de Macapá sem entraves às pessoas de bem, nossos pais sabiam onde a gente estava e confiavam nesse “bate ponto” diário.

Ante a agregadora fama que se espalhou pela cidade: Ali, tocávamos: Beatles, Creedence, Johnny Rivers, Blue Ridge Rangers, Elvis Presley e alguns outros sucessos do momento. Lá, era a esquina musical que estava em moda. Durante o tempo em que os Quirinos moraram naquele ponto, nenhuma outra confluência de ruas era mais famosa e/ou visitada, que a que concentrava naquela casa.

O girar do tempo levou alguns a se dedicarem bem mais, abrindo, entre nós, certa competição. Isso alavancou o sonho daquela turma, pois todos queriam ser “os quatro de Liverpool”, talvez na esperança de um dia poderem tocar aquelas músicas, no mínimo, como cópia borrada dos “Fab Four”.

Alguns fizeram da música, a sua profissão e nela trabalham até hoje, com alegria. Outros, viraram médicos, advogados, artistas plásticos, escritores, policiais, engenheiros, professores, etc. Todos serviram e servem à nação, positivamente, ao seu modo.

Não precisamos pixar o muro daquela esquina, pra que soubessem que ali, a casa dos Professores Mário Quirino e Deuzuíte Façanha, era lugar de aulas campais. Ali, com a matriarca daquele clã, aprendi a utilidade da vírgula e como emprega-la corretamente, na frase. Naquele local, tivemos aulas de educação, paciência, tradução inglês/português, honestidade, humildade, bom humor e dedicação aos estudos.

Boa parte do nosso alicerce moral se construiu naquele local. Todos os frequentadores sabiam: nossa liverpool...era ali!

(*) advogado, escritor e músico amapaense

Fonte: Facebook – junho de 2017

domingo, 27 de junho de 2021

MEMÓRIA DA CIDADE: A CASA MATERNAL DE MACAPÁ

                                                                         Foto: Google   

Para poder desenvolver a contento suas atividades, com foco na Campanha de Redenção da Criança e Assistência às Gestantes e Parturientes, a Legião Brasileira de Assistência, através do governo do Território Federal do Amapá, aplicou uma verba pública que lhe foi assegurada pelo governo federal, para erguer, na cidade de Macapá, os Postos de Puericultura Iracema Carvão  Nunes,(Centro) e Hildemar Pimentel Maia (Trem).  Por ressentir-se de um local apropriado para abrigar crianças carentes de tratamento, advindas do interior, a LBA reivindicou ao governo federal, a construção de um imóvel erguido próximo a Rádio Difusora de Macapá, que funcionaria como casa maternal. O pedido foi atendido, mas o propósito do uso adequado não ocorreu. O prédio acabou sendo utilizado como Palácio do Governo, a partir de marco de 1961, quando o governador Joaquim Francisco de Moura Cavalcante (2/3/1961 a 2/9/1961), constatou a precariedade das instalações do velho Senado da Câmara, edificado em  taipa de mão, ao lado direito da Igreja São José. Na desejada Casa Maternal atuaram seis governadores

   1 – Joaquim Francisco de Moura Cavalcante (agrônomo), substituído em decorrência da renúncia do Presidente da República, Jânio da Silva Quadros.

  2 – Mário Medeiros Barbosa, (médico), que geriu o Amapá entre 2/9 a 12/10/1961.

  3 – Raul Montero Valdez, (advogado) de 12/10/1961 a 26/11/1962.

  4 – Terêncio Furtado de Mendonça Porto, (coronel do Exército de 26/11/1962 a 7/5/1964.

  5 - Luiz Mendes da Silva, (general do Exército), de 7/5/1964 a 10/4/1967.

  6 – Ivanhoé Gonçalves Martins, (general do Exército), em cuja gestão, a partir do dia 10/4/1967, foi iniciada e concluída a construção do primeiro Palácio do Setentrião, imediatamente ocupado.

        Ainda em 1967, o imóvel, originalmente destinado ao atendimento de crianças, gestantes e parturientes, também abrigou o gabinete do Prefeito Municipal de Macapá, Porto Carrero.

       Em 1973, no referido prédio, técnicos da Divisão Escolar e Cultural elaboraram o Primeiro Plano Quadrienal da Educação do Território Federal do Amapá.

        Atualmente, está instalado no imóvel, o Centro de Estudo Supletivo Professor Paulo Melo, sucedâneo do Centro de Estudo Supletivo Emilio Médici. A nova designação vigora a partir de 14/4/2009, por força de lei estadual.

    Macapá, 21 de junho de 2021.

       Nilson Montoril de Araújo

Fonte: Facebook

MEMÓRIAS DA CIDADE DE MACAPÁ: AMAPÁ – 78 ANOS MERCADO CENTRAL – 68 ANOS

Crônica de Humberto Moreira Como não poderia deixar de ser fui ao Bar du Pedro tomar uma cervejinha em comemoração ao aniversário da Cidad...