terça-feira, 31 de maio de 2011

ESPECIAL: BAR CABOCLO, BAR PACAEMBU E AS FESTAS DO PAJÉ.

              
               Por Nilson Montoril(*)

              A criação do Território Federal do Amapá, cuja área jurisdicional correspondia à Capitania do Cabo do Norte, deu aos moradores da região onde hoje existe o Estado do Amapá, um novo alento. A cidade de Macapá, que até janeiro de 1944, tinha apenas 2.042 habitantes, viu esse contingente se elevar para 2.512, em fins do mesmo ano e alcançar 4.192 almas em janeiro de 1948. Muita gente migrou para Macapá em busca de emprego, principalmente operários necessários às obras públicas. As famílias que possuíam casa com vários quartos passaram a aceitar hóspedes e fornecer alimentação. Proliferaram as pensões, os bares, os botecos e as biroscas. Trabalhadores com ocupações diversas também desembarcaram em Macapá. O crescimento populacional motivou os produtores das ilhas do Pará a trazerem frutas, carne de caça, peixe, açaí e farinha para suprir a carência desses produtos na cidade. Embarcações freteiras saiam de Belém, abarrotadas de mercadorias destinadas ao comércio de Macapá que se expandia. Na área pantanosa onde foram rasgadas as avenidas Joaquim Francisco de Mendonça Júnior e Coaracy Gentil Monteiro Nunes, nas esquinas delas com a Rua São José, despontaram dois bares bem freqüentados pela turma da boemia, mulheres da vida fácil e pelas que não eram declaradamente prostitutas, mas alugavam suas perseguidas. Para melhor compreensão da topografia do espaço acima referido, substitua as vias públicas por rudimentares pontes de madeira que o povo chamava estivas(veja na foto abaixo).
(Fotos: Reprodução de Arquivo)
As mundanas às vezes eram rotuladas como raparigas, predominando, porém o termo puta. As duas palavras ainda hoje são usadas em Portugal, mas não têm sentido pejorativo. O primeiro reduto de mulheres prostitutas de Macapá correspondia às casas de madeira construídas na lateral da ponte que passava ao lado do Bar Caboclo. As inquilinas dessas moradias eram cadastradas na Unidade Mista de Saúde de Macapá, tinham direito a carteira de beneficiárias, eram submetidas a inspeções periódicas e tratadas quando contraiam doenças sexualmente transmissíveis. Assim, os boêmios solteiros da cidade e os casados puladores de cerca, recorriam aos préstimos das “primas” relativamente tranquilos. As mundanas mais conhecidas eram: Maria Vadoca, Maria Batelão, Balança-os-Cachos, Peia-Onça e Loura. Elas e outras menos atrativas frequentavam tanto o Bar Caboclo como o Bar Pacaembu. Entretanto, somente o Pacaembu tinha festas dançantes. Nenhum dos dois mantinha quartos destinados a encontros amorosos. Os pederastas, popularmente identificados pelo povo como “falsos à pátria”, não se atreviam sequer a passar na frente dos referidos estabelecimentos comerciais. O Bar Caboclo não era tão espaçoso como o Bar Pacaembu. Comportava uma mesa de bilhar e poucas mesas. As paredes continham pinturas regionais feitas por um jovem talentoso que hoje é artista plástico renomado: Herivelto Maciel. Vendia bebidas diversas, sorvetes e outros produtos. Enveredando por aquele espaço, serpenteando até alcançar o chamado torrão da terra, atrás do Hospital Geral, passava o Igarapé-do-Igapó ou Bacaba, identificado simploriamente como Igarapé da Fortaleza. Dificilmente ocorriam desentendimentos sérios entre frequentadores dos citados bares. De um modo geral aconteciam arengas, que a turma do deixa disso cuidava de abafar. Nunca ouvi falar que algum valentão ou porre tenha sido jogado dentro d’água. Entre as mundanas, havia uma que não falava daí seu apelido ser “Muda”. Certa noite apareceu na zona do prostíbulo um canoeiro natural da Vigia, que havia passado dois meses no Oceano Atlântico, na costa do Amapá, pescando gurijuba. O caboclo estava atormentado pelo desejo da carne e não perdeu tempo em contratar os serviços da Muda. O cabra gostava de fufurufuncar no escuto e foi logo apagando a lâmpada. Quando a ferramenta do “pelhudo” entrou em funcionamento ouviu-se o grito apavorante da Muda: mamãe! Socorrida por suas companheiras, a Muda esconjurou o canoeiro e prometeu ser mais cautelosa na escolha dos fregueses. Dizem que algum tempo depois o dito caboclo reapareceu na casa das “primas” e arrastou as asas para o lato da Mariazinha, uma nova inquilina. Quando ele fez o convite a Mariazinha lhe disse: “fazer indecência contigo? Nunca, mais antes a dor de um parto”. 
                No lado esquerdo da ponte que se estendia pelo trecho da atual Avenida Padre Júlio Maria de Lombarde demorava a casa de um cidadão conhecido como Pajé. Sua residência ocupava o espaço onde foi construído o Arara Center. Nos finais de semana a sala da casa do Pajé virava pista de dança e a entrada era paga. O promotor dos embalos valorizava os ritmos merengue, bolero, brega e assegurava que o ambiente era estritamente familiar. Ele dizia que na sua festa dançava o feio, o bonito, o pobre e o rico, não sendo permitida a desfeita. Se alguém se queixasse que tinha sido rejeitado por alguma dama ou cavalheiro, o Pajé mandava o ou a deselegante “pra riba da ponte”, já que não havia rua no local. Uma vez ele pegou o microfone e disse: “As mulhé tão se queixando que tem macho maleducado se fazendo de gostoso na minha festa. Quero dizer que aqui eu não atolero esculhão de dama”.
(*) Historiador, professor e radialista amapaense, via e-mail.

segunda-feira, 30 de maio de 2011

Especial: O "popular" Bar Caboclo

"O Bar Caboclo nunca serviu como pista de dança e muito menos chegou a ser hospedaria de prostitutas."
O Bar Caboclo foi um ambiente comercial que se tornou conhecido na Macapá de outrora (década de 60), com suas histórias e boemias, que serviram de inspiração para a montagem de consagrada peça de um dos grupos de teatro do Amapá.
Seus frequentadores eram caboclos vindos das ilhas do Pará, nas embarcações que aportavam na Doca da Fortaleza, trabalhadores da ICOMI e da Usina Coaracy Nunes, no Paredão. Nessa época os estilos musicais eram o bolero, o samba e o merengue, por influências das Antilhas e da Guiana Francesa. Haviam também as figuras femininas que marcavam ponto no local.
Você vai conhecer agora, a reprodução (com as devidas adaptações e atualizações) de uma matéria publicada em 1995, pelo jornal Folha do Amapá. O texto é assinado por Cláudio Mendes:
A VERDADEIRA HISTÓRIA DO BAR CABOCLO
Bastou apenas a decisão de um comerciante para que uma história de mais de quatro décadas chegasse ao fim e deixasse estampada a tristeza no rosto de seus protagonistas.
(Foto: Reprodução de jornal/Arquivo Rogério Castelo)
O popular Bar do Chico, localizado na esquina da rua São José com a avenida Mendonça Júnior, foi demolido em 1995, para dar lugar à uma edificação moderna (foto mais abaixo).
Com isso, o que restava da memória viva do velho Bar Caboclo deixa de existir e a esquina da boemia passa a ser a esquina da saudade.
Local de mulheres extrovertidas e homens valentes, o Bar do Chico era o único sobrado de madeira no centro comercial da cidade que vinha resistindo ao progresso. O ambiente era movimentado de domingo a domingo e no período de pagamento a freguesia aumentava. Todos sabiam que naquele velho sobrado a profissão mais antiga do mundo ainda podia ser exercitada à moda antiga.
Como nos velhos tempos em que se usava o palavreado “cabelo, barba e bigode” para deixar subtendido que as prostitutas topavam tudo com o freguês. Resumindo, o Bar do Chico era, de fato, resquício do Bar Caboclo, cuja história ninguém conta melhor que seu próprio fundador, Abrão Serrão de castro. Na época, aos 73 anos de idade (Jornal de 1995), ele relatou o quanto foram importantes para ele aqueles anos boêmios.
O INÍCIO DA HISTÓRIA
No final dos anos 40, um homem vindo da cidade de Mazagão Velho resolveu montar um negócio. Comprou a área onde funciona atualmente a sede do Sindicato dos Bancários e lá montou uma venda, construída em madeira. Um ponto comercial simples, porém, bem equipado. Lá tinha confecções, picolé, sorvete, produtos alimentícios, suco, refrigerante, aguardente e um nome sugestivo: Bar caboclo. Abrão havia despertado a atenção do povo de uma simples cidade onde quase não havia entretenimento e tudo era novidade.
(Foto: Reprodução/Arquivo)
O bar ficava em área alagada, onde pontes de madeira serviam como passarela para o vai-e-vem dos dias e das noites.
O novo ponto comercial da cidade foi visto como uma mina de ouro por mulheres que sobreviviam da prostituição. Não havia local melhor na cidade para se conseguir fregueses. Ali próximo atracavam todas as embarcações que chegavam à Macapá trazendo caboclos ribeirinhos e também marinheiros estrangeiros que ao desembarcarem faziam logo procuração pelo bar.
De acordo com Abrão, o Bar Caboclo nunca serviu como pista de dança e muito menos chegou a ser hospedaria de prostitutas. Segundo ele, o que não faltavam eram quartos naquelas imediações para que elas desenvolvessem suas atividades.
“Eram apenas minhas freguesas. Me davam certo problema porque afastavam outro tipo de freguesia. Mas não poderia proibí-las de entrar no bar, mesmo porque elas também me davam lucro”, contava pensativo.
O proprietário do bar tinha lucro com as prostitutas porque quando um freguês se engraçava com alguma delas não tinha pena de esbanjar dinheiro. Abrão cita um costume das frequentadoras de seu bar: “Adoravam pedir para os caboclos pagarem cerveja para elas e me diziam no ouvido para eu esquecer a bebida e entregá-las o dinheiro mais tarde. Nunca gostei disso”.
Quando os marinheiros não tinham dinheiro para pagar o serviço de bar e o serviço das mulheres, sempre deixavam joias para cobrir a dívida. Abrão exibiu, durante a entrevista, um anel que recebeu de um gringo. Quanto aos caboclos, esses, quando não tinham dinheiro para cobrir suas despesas, o dono do bar até que aceitava um pagamento posterior. Mas com as prostitutas não tinha acordo. A pancada comia no centro e a Guarda Territorial entrava em ação.
O bar enfrentava outros problemas. Macapá era abastecida de energia das 22h até às 6 da manhã. Por determinação da Guarda Territorial o ponto poderia funcionar apenas até a meia-noite. “Era a época em que tínhamos como Governador Evanhoé Gonçalves Martins e havia um delegado de polícia chamado Ismar Leão que não dava mole. Ninguém ficava fora de casa depois da meia-noite”, enfatizava Abrão.
UM NOVO BAR
O ponto comercial de Abrão deu certo e em três anos ele inaugurou um outro bar, todo em alvenaria, muito mais equipado e pintado em cor rosa.
(Foto: Reprodução/Arquivo)
Prédio do extinto Bar Caboclo que localizava-se da esquina da Rua São José com a Av. Mendonça Jr. (a mesma do canal). No local - ampliado e adaptado - funciona hoje um mini-box explorado por um dos filhos do proprietário, pois o prédio é patrimônio da família.
No seu interior tinha uma gravura, de um casal de índios, feita pelo pintor Herivelto. Era um prédio, segundo Abrão, bastante chamativo. Haviam poucos como aquele na cidade. O empreendimento mudou de cara e de local, mas o nome permaneceu o mesmo.
Agora o bar caboclo passava a funcionar onde está localizada atualmente (2011) um Mini Box. A freguesia aumentava mais ainda. Em menos de uma hora de funcionamento o comerciante conseguia vender quase quatro grades de cerveja. O bar já era frequentado até por pessoas consideradas da “alta”, mas alguns homens não admitiam que suas mulheres pisassem no local. Há um antigo comentário de que um radialista da Rádio Difusora de Macapá chegou a ir buscar sua esposa aos tapas na porta do bar. Ali também era considerado o ponto da fofoca. Depois de alguns copos de cerveja, os homens costumavam fazer comentários sobre os casos de adultérios da cidade. Outro assunto de mesa de bar era virgindade. Todos pareciam saber quais as garotas que eram e as que não eram virgens.
(Foto: Reprodução de jornal/Arquivo Rogério Castelo)
Nas fotos (acima e abaixo à esquerda), na cerimônia de discerramento da fita, o casal Jacy Barata Jucá e sua esposa Dona Alice de Araújo Jucá.
(Foto: Reprodução de jornal/Arquivo Rogério Castelo)
Com o passar dos anos foram aparecendo outros estabelecimentos comerciais na cidade como as boates Merengue e Suerda. Como tudo o que aparecia em Macapá era novidade, essas casas chegaram a roubar a freguesia do Bar Caboclo. A Suerda funcionava como prostíbulo e suas prostitutas tinham fama de ser bonitas. Muitas vinham de outros estados para disputar o mercado com as amapaenses do Bar Caboclo. Mas essa concorrência não foi fato para prejudicar o sucesso do ponto comercial de Abrão. As frequentadoras do bar caboclo não inflacionavam o preço de seus serviços e recuperavam seus fregueses.
Seria um erro falar sobre o ponto comercial de Abrão sem citar que o bar era uma espécie de reduto dos literatos e jornalistas da época. Muitos deles não iam para o bar com intenção de pegar uma prostituta e levar para um quarto. A movimentação de ir para a cama com alguma prostituta, as brigas, o comportamento de quem olhava o movimento de fora, a fofoca, enfim os intelectuais sabiam que estavam frequentando um ambiente que ia entrar para a história do Amapá.
O poeta Isnard Lima declarou, em um artigo que escreveu para um jornal de Macapá, que foi no Bar caboclo que foi acometido de sífilis pela primeira vez.
O FIM DO BAR
Abrão diz que com o aparecimento do Plano Cruzado ficou sem condições de trabalhar devido à crise financeira.
“A crise me pegou de jeito e tive que fechar o negócio”, lamentava. O velho Bar Caboclo foi alugado então ao comerciante Edivar Juarez que lá montou a loja Discão Sucesso. Foram anos de trabalho insuficientes para dar a Abrão a vida de homem rico. A história do bar Caboclo hoje é enredo de peça teatral. O que não é de agrado daquele que foi proprietário do bar. “Ninguém veio me procurar para saber da história. Tudo foi desvirtuado e é compreendido como fato verídico. Isso não poderia ter acontecido”, enfatizava.
Na época da entrevista (1995) Abrão residia na avenida Iracema Carvão Nunes, em frente a caixa Econômica. Dividia uma casa simples com uma filha de criação e a esposa, Mirian Fonseca de Castro, que trabalhou também no bar, ao lado do marido, e na época (95) vivia em uma cadeira de rodas compartilhando com Abrão as memórias dos velhos tempos.
Com o fechamento do bar caboclo, as prostitutas passaram a frequentar o Bar do Chico que dificilmente era chamado pelo nome. As pessoas sempre se referiam ao ponto como se ali fosse o bar caboclo. O sobrado foi demolido para a construção de uma loja comercial. As prostitutas nada puderam fazer para evitar o fechamento. Mas prepararam uma feijoada para dar adeus a uma história onde foram as personagens principais. (Pesquisa de Rogério Castelo - blogueiro do Amapá)
Fonte: Matéria extraída do blog Amapá, minha amadaterra!!!, postada em 27 de maio de 2011, por Rogério Castelo, devidamente editada, adaptada e atualizada para ser reproduzida no blog Porta-Retrato.

sábado, 28 de maio de 2011

ESPECIAL: Duca Serra

DUCA SERRA, O APOLOGISTA DA EDUCAÇÃO!

Por João Silva (jornalista)

Não se pode falar de Macapá sem falar em Duca Serra. Nasceu em 20 de março de 1912, no Formigueiro (Largo dos Inocentes), onde residiam seus pais, João Câncio e Tereza da Conceição.
(Foto: Reprodução/arquivo da família/R.Peixe)
(Foto: Reprodução/arquivo da família/R.Peixe)
(Foto: contribuição do amigo e jornalista João Silva)
Texto, enviado via e-mail, especialmente adaptado para o blog, publicado originalmente, pelo autor, no jornal Diário do Amapá, em outubro de 2008.

sexta-feira, 27 de maio de 2011

Dr. Raul Montero Valdez: o braço direito de Janary Nunes

(Foto: Reprodução de livro)
O Pioneiro Raul Montero Valdez nasceu na cidade de Belém, Estado do Pará, no dia 30 de março de 1920. Filho de Emílio Monte Lopes e Carmem Valdez Coelho. Estudou o curso primário no período de 1916 a 1921, o curso ginasial no colégio Paes de Carvalho de 1922 a 1928. Ingressou na Faculdade Livre de Direito do Pará, concluindo o curso de bacharel em Ciências Jurídicas e Sociais, no período de 1927 a 1931. Fez o curso de Preparação dos Oficiais da Reserva da 8ª Região Militar de 1937 a 1940. Iniciou sua vida profissional na função de assessor jurídico-fiscal de empresas; agente fiscal de tributos federais do Ministério da Fazenda; jornalista profissional (licenciado); chefe de Administração Fiscal do Departamento do Tesouro dos Estados Unidos da América, sob responsabilidade do ―Internal Revenue Service – Ronegri Tax Assitance Program in Cooperation With the Agency for International, Developmente. Nomeado funcionário público do Estado do Pará, nos cargos de delegado de Polícia, oficial de gabinete e chefe de polícia; agente Fiscal de tributos federais, concursado em 1939 exercendo esse cargo nos estados do Maranhão, Pará, Minas Gerais, São Paulo e Guanabara; fiscal do selo nas operações bancárias – 1939. Foi para o Território Federal do Amapá a convite do Governador Janary Gentil Nunes, tendo exercido nomeado membro da Comissão de Planejamento da Superintendência da Valorização Econômica da Amazônia; membro do Conselho Consultivo do Banco da Amazônia; assessor do Gabinete Civil e Militar da Presidência da República – 1961; Governador do Território do Amapá no período de 10 de setembro de 1961 a 3 de dezembro de 1962; inspetor fiscal do imposto de consumo – 1962; delegado regional de rendas internas da 2ª Região (Pará, Amazonas, Acre e os territórios federais de Rondônia e Roraima) durante o curso da Escola Superior de Guerra – 1968; adido ao Gabinete do diretor do departamento de rendas internas; chefe da Seção de Fiscalização da 3ª Inspetoria Fiscal da Secretaria da Receita Federal do Ministério da Fazenda, 1970. Raul Montero Valdez era casado com a médica Abelina Rocha Montero Valdez. Recebeu as condecorações do Mérito Civil da Espanha, no grau de Comendador e medalha e diploma do município de Belém (350 anos de fundação) por serviços prestados a Capital do Pará. Dedicado a cultura fundou o Jornal do Amapá em 1944 e a Revista do Amapá em 1948. Ingressou como membro da OAB do Pará em 1933, filiou-se ao Sindicato de Jornalistas Profissionais do Pará em 1935; sócio do Clube Naval, do Aero Clube de Macapá da Assembleia Paraense, do Clube do Remo e do touring Clube do Brasil. Exerceu o cargo de Assessor do Major Jarbas Passarinho, do Dr. Ricardo Borges, do Comandante Guilherme Studart, do professor Otavio Mendonça, do Dr. Sócrates Bonfim, do Dr. Jaime Vasconcelos e do professor Arthur Cezar Ferreira Reis. Foi auditor jurídico fiscal das empresas: Saul Bennesby – Guajará Mirim; RONDOBOR, Ind. Com. Rondonia de Borracha S/A; Rondonauto Com. de Veículos Ltda., Porto Velho-RO; Sabenacre Com. de Veículo Ltda – Rio Branco-AC. O Dr. Valdez foi o braço direito do Governador do Território Janary Nunes, especialmente nos primeiros passos da organização administrativa e política do Amapá, vindo a falecer no dia 15 de setembro de 1977, em Belém, Estado do Pará.
Fonte: Texto de Coaracy Barbosa - extraído do Livro Personagens Ilustres do Amapá Vol. III - edição (PDF) não impressa - via APES).

SE VOCÊ TEM FOTOS ANTIGAS E QUER CONTRIBUIR COM O PORTA-RETRATO, ENTRE EM CONTATO CONOSCO PELO E-MAIL: jolasil@gmail.com OU PELOS FONES TIM(12) 8152-3757 OU CLARO (12) 9220-5236.

quinta-feira, 26 de maio de 2011

ESPECIAL: JOÃO LÁZARO - 63 anos de vida - 59 vividos no Amapá e 47 na Comunicação

DAS ONDAS DO RÁDIO À REDE MUNDIAL: JOÃO LÁZARO EM FINA SINTONIA COM O SEU TEMPO

Texto: Paulo Tarso Barros (*)

João Lázaro chegou ao Amapá pelas mãos da eminente professora Esther da Silva Virgolino, sua prima e mãe de criação no ano de 1950, com 2 anos – numa época em que Janary Nunes e sua equipe se desdobravam para criar a infraestrutura do futuro Estado.
Paraense, João Lázaro da Conceição e Silva, nasceu  em Belém, no dia 26 de maio de 1948, sendo seus pais João Clímaco José da Silva e Maria Raimunda da Conceição. Estudou no Alexandre Vaz Tavares (primário) que na época tinha como diretora outra pioneira, a professora Maria Carmelita do Carmo. Posteriormente, passou pela Escola Normal, depois denominado de IETAInstituto de Educação do Território do Amapá para fazer o antigo curso ginasial. Também estudou no Colégio Amapaense e concluiu o segundo grau em Administração na Escola Comercial Gabriel de Almeida Café. É licenciado em Letras pela Universidade Federal do Pará e pós-graduado pela Universidade Salgado de Oliveira, do Rio de Janeiro.
A trajetória de João Lázaro possibilitou-lhe vivenciar experiências que contribuíram bastante na sua formação. Desde criança foi atraído para a Comunicação, sendo um ouvinte assíduo da programação da emissora estatal (RDM) nos anos 60 – tanto que passou a observar da janela a atuação dos artistas que se revezavam nas rádio-novelas e peças de teatro da época, tudo feito ao vivo. E foi em 1962, ao ingressar no movimento escoteiro, no grupo Veiga Cabral, do Laguinho sob a liderança do Chefe Clodoaldo Nascimento, que João Lázaro teve sua iniciação através do serviço de auto-falante - PRH 3 -  do Centro Educacional do Laguinho, o que o credenciou a apresentar o programa radiofônico  A Voz Estudantil (1963), da Escola Normal, sob a responsabilidade do Grêmio Literário e Cívico Barão do Rio Branco, que era transmitido pela Rádio Equatorial de Macapá (ZYD-11), já extinta. A partir dessa experiência, sua vocação o levou a uma profícua carreira de comunicador que deixou seu nome inscrito nos anais da comunicação do Estado do Amapá, sempre se destacando pela seriedade, profissionalismo e criatividade com que exerceu seu ofício.
Em 14 de março de 1964 ele foi convidado por um dos veteranos da Rádio Difusora de Macapá para fazer um teste na emissora, onde permaneceu até julho de 1968. Em agosto de 1968 foi trabalhar na emissora católica, a Educadora São José, onde permaneceu até julho de 1970, quando ele inicia uma nova experiência profissional, ingressando na ICOMI - Indústria e Comérgio de Minérios S/A, na qual trabalhou durante sete anos e desempenhou diversas atividades na empresa de Augusto Antunes. Mesmo  empregado na Icomi, João jamais deixou de fazer aquilo que sempre o fascinou: os programas de rádio, aos finais de semana, tanto na Rádio Educadora como na Rádio Difusora de Macapá, para onde retornou em maio de 1972. Em outubro de 1977 teve que se desligar da Icomi para assumir a Direção Artística e Administrativa da Difusora, que seria incorporada à Radiobrás e passaria a ser denominada de Rádio Nacional de Macapá, onde João Lázaro exerceria a função de programador e seu primeiro gerente.
Em março de 1979 o já experiente e reconhecido locutor ingressou na Prefeitura de Macapá, onde permaneceu durante 30 anos, até aposentar-se em 2009, nela exercendo relevantes funções administrativas, chefias de seções, divisões e gabinete do Prefeito, além de comandar o Departamento de Comunicação – pois é um dos sócio-fundadores do Sindicato dos Jornalistas Profissionais do Amapá e membro da Associação Amapaense de Imprensa. Por seu desempenho notável na vida social e cultural, João Lázaro integrou muitas comissões organizadoras do Carnaval de rua de Macapá bem como das comissões responsáveis pela gravação dos primeiros discos de sambas-de-enredo; atuou na organização do Arraial de São José e N. S. de Nazaré; apresentou durante muitos anos o concurso Rainha das Rainhas do carnaval Amapaense do Trem Desportivo Clube, entidade da qual é sócio-proprietário e já foi diretor social. Atuou como cerimonialista na sessão solene da Assembleia Legislativa do Amapá, em 28/12/1991, quando foi promulgada a primeira Constituição do recém-criado Estado do Amapá – além de ter participado também de cerimônias de visitas oficiais de ministros e do Presidente da Répública.
Em 1988, o pioneiro diário do Amapá, o Jornal do Dia, concedeu-lhe o Diploma de Destaque, reconhecendo a importância do seu trabalho na radiofonia,...
...e em 2000 a Câmara Municipal de Macapá outorgou-lhe o título de Cidadão de Macapá. Também foi condecorado pelo Independente com o título de Honra ao Mérito pela sua valiosa colaboração ao clube santanense.
Católico praticante, foi coroinha (do tempo da missa em Latim), escoteiro e constituiu sua família no dia 30 de março de 1973, casando-se com a jovem Marina Melo e Silva na Igreja de N. S. da Conceição, no bairro do Trem, e desse relacionamento nasceram os filhos: Márcio José (falecido), Marcos Jean, Carlos Fabrício, Cássio Murilo, Luiz Ricardo e Alana Cristina.
Professora Marina (foto), que é Pedagoga, também desfruta de sua merecida aposentadoria ao lado de João, após longos anos de serviços prestados à Educação do Amapá.
Atualmente, João Lázaro reside com sua família e os netos na cidade de São José dos Campos, interior de São Paulo. É de lá que ele edita e publica diariamente os seus dois blogues:
Fina Sintoniahttp://fina-sintonia2.blogspot.com – espaço no qual ele publica “Notícias, Informações, Dicas, Curiosidades, Raridades, Ciência e Tecnologia, Bizarrices, Imagens, Música, Literatura, Arte, Atualidade e outros assuntos interessantes”.
Porta-Retrato Macapá/Amapá de outrora - http://porta-retrato-ap.blogspot.com – Nesse blogue, ele explica: “São postadas aqui fotos históricas que retratam a história e a memória do ex-Território Federal do Amapá e de seu povo".
Ao completar 63 anos, aposentado mas exercendo uma atividade que tem tudo a ver com a sua verdadeira vocação de comunicador, João Lázaro se utiliza da moderna tecnologia para dar continuidade àquele antigo anseio de menino espiando pela janela os artistas da RDM, em suas performances artísticas pelos velhos microfones, transmitindo para o Território do Amapá informações, notícias, mensagens, músicas e lazer. Agora, diante do navegador universal da internet, das multimídias poderosas e interativas, ele continua, mesmo do sudeste do país, a fazer parte da nossa Macapá - desta feita de modo virtual, com suas palavras (textos) e fotos, mas em tempo real. O Porta-Retrato é um passeio no tempo e no espaço, uma visita aos museus da memória e da recordação, pelas ruas, casas e paisagens da Macapá antiga, que vai se distanciando e deixando muitas saudades. Hoje, é com alegria e emoção que resgatamos velhas e às vezes já deterioradas fotos dos pioneiros, das primeiras famílias, dos funcionários e dirigentes – e João Lázaro procura contar a história de cada fotografia, trazendo à memória de muitos as lembranças de um tempo que não para, que mergulha no universo de infinitas imagens. E antes que se percam, sejam olvidadas e destruídas, as antigas fotografias se revitalizam, cumprem aquele papel de registro momentâneo, porém histórico e sentimental.
Parabéns, João Lázaro da Conceição e Silva, que Deus sempre te ilumine, abençoe e te conceda inspiração e determinação para continuar com esse trabalho, que podemos considerar jornalístico, memorialístico e, sobretudo, sentimental para todos que amam verdadeiramente o Amapá, servem ao Amapá – e não apenas esperam ser servidos pelo povo.
(*) Escritor e professor; presidente da APES - Associação Amapaense de Escritores.
Fotos: Reproduções de Arquivo

quarta-feira, 25 de maio de 2011

Dr. Sylla de Oliveira Salgado: um dos Pioneiros da Odontologia no Amapá

(Foto: Reprodução de livro)
Dr. Sylla de Oliveira Salgado nasceu em Belém, Estado do Pará, no dia 9 de julho de 1914, filho do dentista Carmelino Henrique Salgado, formado pela Faculdade de Odontologia do Rio de Janeiro e professor da Faculdade de Odontologia do Pará e da jovem Hortênsia de Oliveira Salgado, de naturalidade portuguesa. O nascimento do Sylla ocorreu no início da Grande Guerra quando as populações do norte viviam sobressaltadas com as notícias de torpedeamento de navios brasileiros e a escassez de alimentos. O professor conseguiu dominar todo os impecilhos, vencer as dificuldades e educar os filhos: Mário (médico), Lúcia, Sara, Sylla e Ruth. O pai queria que o Sylla fosse médico, mas, depois de cursar a Faculdade de Medicina por 3 anos, transferiu-se para a Faculdade de Odontologia, seguindo os passos do pai e amigo professor. Ao  ser  diplomado  em  1932 passou a prestar serviços de dentista nos postos de Saúde de Belém e Mosqueiro. No ano de 1933 aceitou convite e foi trabalhar no Estado do Acre onde conheceu a jovem acreana Maria Magalhães Costa com quem se casou no dia 7 de maio de 1936. Exerceu a profissão de dentista cumprindo um programa de saúde bucal nos bairros e periferia da Capital. Com o nascimento da primeira filha Lúcia, decidiu retornar para Belém, voltando a prestar serviços nos Postos de Belém, Capanema, Mosqueiro e localidades vizinhas da Capital. O seu espírito aventureiro e o interesse de trabalhar no interior fez com que aceitasse a proposta do Governador do recém-criado Território Federal do Amapá, para exercer o cargo de dentista da Divisão de Saúde, chegando à Macapá em 1948. Depois de montar sua casa, começou a grande odisseia do jovem Sylla, quando foi designado para percorrer todas as localidades do Território em companhia dos dentistas Armando Andrade e Luiz Queiroz Brasiliense para executarem o programa de saúde bucal, realizando extrações e ensinando os alunos escovar os dentes. Foram 90 dias de viagens pelo oceano, pelos rios e pelos difíceis caminhos do Lourenço, Cunani e conhecendo os municípios de Oiapoque, Amapá e Mazagão, sempre perseguido pelas muriçocas e pela malária que não perdoavam ninguém. O trabalho foi feito, ninguém podia falhar ou esmorecer. Aquela equipe representava a saga dos pioneiros e dos homens fortes. Sylla foi para Oiapoque em 1950, passou três meses em companhia do médico Dr. Amílcar Pereira. Em 1952 foi nomeado chefe do Posto de Saúde de Mazagão e foi nesse município que deixou as marcas do seu trabalho, da sua dedicação durante mais de dez anos. Foi Dr.Sylla que desenvolveu a comunidade; que criou o Mazagão Atlético Clube e foi seu presidente. Nomeado chefe do Setor da LBA de Mazagão; juiz de futebol; juiz de paz; programador de todos os eventos, formando em torno de si uma plêiade de amigos, destacando-se o Deputado Coaracy Nunes e o promotor público Hildemar Maia, grandes líderes políticos. Fez centenas de amigos em Mazagão e em Macapá. O Hospital Geral de Macapá era como se fosse sua casa. Estava sempre no gabinete. Os filhos de Sylla de Oliveira Salgado: Lucia, Sylla, Mairsylla, Sylamar, Belmar, Mary, Mario, Symar, Janary, Camilo, Belchior, Augusto e Hortênsia assistiram a todas as lutas. Ouviram-no esbravejar com sua foz possante, os ralhos e afagos do homem que lagrimava com os abraços apertados da esposa que amava e que nunca fraquejou. Esse é o retrato de um dos homens sérios que conheci, de um lutador com ele, o Cleveland Cavalcante, o Pires da Costa o Brasiliense e o Guilherme "Querido" jogávamos a nossa canastra nas noites do bairro Alto. Ele foi um grande homem e é um dos personagens importante do Amapá.
Fonte: Texto de Coaracy Barbosa - extraído do Livro Personagens Ilustres do Amapá Vol. III - edição (PDF) não impressa - via APES).

terça-feira, 24 de maio de 2011

Ubiracy de Azevedo Picanço: O Tio Bira

(Foto: Reprodução de Arquivo)
O pioneiro Ubiracy de Azevedo Picanço(Tio Bira), nasceu na localidade de Abacate, distrito de Pedreira, município de Macapá, no dia 26 de outubro de 1928. Filho de João de Azevedo Picanço e D. Francisca Claudina Picanço. Fez parte da primeira turma que concluiu o curso ginasial no ano de 1950 junto com José Ramos Conceição, Ieda Alcântara, Ivone Oliveira, Nair Bemergui, José Ribamar Cavalcante, Antônio Nelson Abraão, Alceu Paulo Ramos, Raimundo Barata, Mário Quirino da Silva, Kleber Santiago e Hamilton Silva, os quais fundaram o Grêmio Cívico e Literário Rui Barbosa. Desportista, fazia parte das equipes de basquete, voleibol e futebol do Esporte Clube Macapá, um dos seus fundadores. Participou da primeira diretoria da Federação de Futebol do Amapá. Foi eleito Vereador de Macapá em 1970; exerceu o cargo de agente distrital de Santana; foi professor de Educação Física. Casou-se com a professora Maria Cavalcante e faleceu a 18 de setembro de 1998. Pertenceu à geração dos idealistas que construíram o Amapá.
(Fonte: Livro Personagens Ilustres do Amapá Vol. III, de Coaracy Barbosa - edição (PDF) não impressa - via APES)

sábado, 21 de maio de 2011

ESPECIAL: Expedito Cunha Ferro, um cidadão de muitos méritos

Chefe 91 - um grande pioneiro da implantação do Território Federal do Amapá.
Por Nilson Montoril (*)
(Foto: Reprodução de livro) 
A exemplo de muitos dos seus contemporâneos, Expedito Cunha Ferro não foi apenas um simples servidor público. Franzino e de estatura mediana, enveredou pelos caminhos do escotismo, do esporte e das artes cênicas, contribuindo para a formação moral e intelectual de centenas de garotos e adolescentes. Expedito Cunha Ferro, nascido em Belém no dia 9 de março de 1927, mudou-se para Macapá em 1945, para trabalhar, jogar futebol e difundir o escotismo. Fez parte do primeiro grupo de escoteiros da Tropa Veiga Cabral, que era dirigida pelo Tenente Glicério de Souza Marques. A queda pela doutrina de Baden-Powell começou a ganhar seu interesse ainda em Belém, nos redutos da Federação Educacional Infanto-Juvenil (FEIJ), cujo fundador e coordenador foi o então tenente do Exército Brasileiro Gonçalo Lagos Castelo Branco Leão, o Chefe Castelo. No futebol, Expedito Ferro optou pela posição de goleiro, cuja denominação, à época, era “guarda-metas” ou “guarda-valas”. Dos tempos da caserna, herdou como apelido o seu número de guerra, noventa e um. Sua cabeça, em relação ao corpo, era considerada miúda, fato que lhe valeu a alcunha de “cabeça-de-macaco”, coisa que ele detestava. Possuidor de bom conhecimento de ordem unida ingressou no quadro de servidores do Território do Amapá como instrutor de educação física. Bom disciplinador tinha sempre às mãos um apito. Quando “91” ingressou na Tropa de Escoteiros Veiga Cabral, fundada dia 12 de setembro de 1945, o chefe Glicério de Souza Marques tinha como auxiliares os pioneiros Clodoaldo Carvalho do Nascimento e José Raimundo Barata, ambos egressos de Belém. Os três são apontados como elementos de proa na história da FEIJ, por onde também passou o Chefe Cláudio Carvalho do Nascimento. Em Belém, Expedido Cunha Ferro foi membro da Federação Paraense de Escotismo. A 23 de abril 1953, Expedito Cunha Ferro, Humberto Álvaro Dias Santos e o Padre Vitório Galliani fundaram a Tropa de Escoteiros Católicos São Jorge. Foi nesta organização que ingressei como lobinho. Os padres italianos, chegados à Macapá em 1948, haviam implantado o Oratório Recreativo São Luiz, na Paróquia de São José. O terreno que eles herdaram dos missionários da Congregação da Sagrada Família foi ampliado, permitindo a construção de um barracão de madeira e de uma quadra esportiva para a prática de basquete, voleibol e futebol-de-salão. Na área de recreação, mais conhecida como quintal dos padres, havia uma pequena casa de madeira, coberta de palha de ubuçu, onde o Chefe “91” residia. Nosso saudoso amigo era um celibatário convicto. Ainda em 23 de junho de 1953, graças à criatividade do Expedito Ferro, os escoteiros apresentaram o “Cordão do Papagaio”, que ele tão bem conhecia desde o tempo em que participou das atividades da Federação Educacional Infanto-Juvenil (FEIJ), em Belém. Também foi da sua iniciativa a encenação do Boi-BumbáPai-da-Malhada”, bastante divertido. Vários outros cordões juninos mereceram destaque com o passar do tempo, todos concebidos pelos chefes Humberto Santos e Expedito Cunha Ferro. Como professor de educação física, 91 foi imbatível na Escola Industrial de Macapá. Por ocasião dos desfiles estudantis e das olimpíadas, a turma que ele treinava fazia sucesso. Além do futebol, Expedito Ferro também praticou o basquete e o vôlei. Quando deixou de jogá-los, assumiu a função de árbitro. O drama de arbitrar jogos do Juventus trouxe alguns contratempos ao Expedito. Entretanto, sua parcialidade merece encômios e ninguém, em sã consciência, pode acusá-lo de ter, voluntariamente, prejudicado ou favorecido o “Moleque Travesso” ou qualquer outro clube local. Torcia pelo Botafogo de Futebol e Regatas, daí a sua preferência pelo Amapá Clube. Dentre os times de futebol de Belém, o Clube do Remo tinha cadeira cativa no coração do fanático Expedito. Do tipo brincalhão, o 91 só ficava possesso quando alguém o chamava de “cabeça-de-macaco”. Guardadas as devidas reservas, o cocuruto do Expedito Ferro era mesmo parecido, notadamente com o Caiarara, o mais esperto dos símios amazônicos. Para animar as manhãs de domingos, quando eram realizados os jogos do campeonato oratoriano, o 91 fazia uso de amplificador, alto-falante e microfones para narrar as partidas. Criou a PRC Juvenil - a voz oratoriana, por onde o Estácio Vidal Picanço e eu iniciamos como narradores esportivos. Na década de 1940, ninguém conseguia sobrepujar Raimundo Nonato Lima, o velho chibé na  arbitragem futebolística. A partir dos meados de 1950, o árbitro mais requisitado, por ser mais técnico, foi o 91. Quando o sujeito apelava para o jogo violento, ouvia, em tom de reprimenda: “joga direito seu cavalo de arraial, senão eu te expulso de campo”. Em 1945, a escalação do Amapá Clube mais freqüente era: 91; Cabral e Branco. Palito, Raimundinho e Álvaro Arara; Assis, Chumbo, Penha, Puga e Walter Nery. Ele também atuou ao lado de outros companheiros nos anos seguintes, entre os quais destacamos: Alvibar, Pina, Higino, Nilo, Pena, Newton, Passarinho, Pintor, Genésio, Moringueira, Mafra, Marituba, Zé Maria Leão, Zé Maria Chaves, Campos, Joãozinho, Adãozinho e Boró. Quem não formava na onzena principal, integrava o Uirapurú, o time secundário do alvinegro amapaense. Detalhe para o Penha, que jogava de óculos. De todos eles, apenas o Walter Nery permanece em Macapá. O Raimundinho Araújo, o Pina e o Assis (Severo) residem em Belém. Os demais estão em outro plano. O Expedito Cunha Ferro partiu. O dia três de agosto de 2004 marcou a sua cortada. Há três dias, em decorrência da morte de uma sobrinha que ele adorava e que o assistia, caiu em profunda depressão. No decorrer deste período não quis se alimentar, permanecendo trancado no quarto. Morava só na Base Aérea de Belem. Quando decidiram arrombar a porta, ele estava enfartado. Já não era o homem de corpo franzino, engordara e somava 77 anos de idade. Com ele, foram para a eternidade: o 91, o cabeça-de-macaco, o bobo da corte, o folclorista, o chefe escoteiro, o instrutor de educação física, o desportista e o amigo. Enquanto esteve no mundo dos vivos, 91 sempre honrou a saudação escoteira: “Sempre Alerta, Para Servir na Forma do Melhor Possível”. Anrrê, Expedito Cunha Ferro, que agora contempla outro arrebol. Tinha razão o Padre Lino Simonelli ao afirmar que "a vida é curta como a folha do mastruz".
(*) Historiador, professor e radialista amapaense, via e-mail.
(Artigo publicado, originalmente, no Jornal Diário do Amapá, edição de 6/8/2004, atualizado e adaptado especialmente para o blog Porta-Retrato)       

quinta-feira, 19 de maio de 2011

ESPECIAL: JANARY NUNES E SEUS PRIMEIROS DIRETORES

Por Nilson Montoril (*)
Nomeado governador do Território Federal do Amapá a 27 de dezembro de 1943, com posse no Ministério da Justiça dia 29, o jovem Capitão Janary Gentil Nunes não perdeu tempo para montar sua equipe de assessores em nível de primeiro escalão. Ele sabia que a missão confiada pelo Presidente da República, Getúlio Dorneles Vargas, seria árdua e desgastante, razão pela qual precisaria de pessoas disciplinadas, éticas e experientes. A então República dos Estados Unidos do Brasil estava sob regime ditatorial iniciado em 1930 e os territórios federais tinham sido criados para marcar a presença do governo nas áreas de segurança nacional. Janary Nunes já havia servido no contingente do Exército sediado no Oiapoque, era natural da cidade de Alenquer, no Estado do Pará, e no decorrer da II Guerra Mundial comandou a Companhia Independente de Metralhadoras Antiaéreas de Val-de-Cans, em Belém. A capital do Território do Amapá, nos termos do decreto-lei nº 5.812, de 13 de setembro de 1943, que o criou, deveria ser a cidade de Amapá, palco da reação de bravos brasileiros contra a invasão dos franceses a 15 de maio de 1895. Mas, a cidade de Amapá só podia ser alcançada por via marítima e aérea, tendo como complicador o fato de estar em curso a II Guerra Mundial e parte de seu território abrigar uma base aérea construída pelos americanos. Janary Nunes requereu ao Presidente Vargas a mudança da sede para Macapá, sendo atendido no dia 31 de maio de 1944. Mesmo sem existir um ato administrativo declarando Macapá como capital da nova unidade administrativa, o Capitão-governador instalou o governo do Território do Amapá na então decadente “estância das bacabas”. No dia 25 de janeiro de 1944, viajando no avião “Veiga Cabral”, do Aéro-Clube Júlio César, de Belém, Janary Nunes e seus convidados foram recepcionados em Macapá pelo Secretário-Contador da Prefeitura, Tenente Jacy Barata Jucá. Ele  exercia temporariamente o cargo de prefeito devido à licença médica tirada pelo Major Eliezer Moisés Levy. Do campo de pouso da Panair do Brasil até o prédio da “Intendência Municipal”, os passageiros e tripulantes do avião foram transportados na carroça do senhor Pedro Lino do Carmo, sobejamente conhecido na cidade como Pedro Bolívar. A solenidade de instalação do governo contou com a presença do senhor Guilherme Lameira Bittencourt, que representou o governo do Estado do Pará. Até que outro lugar condigno fosse preparado para abrigar o gabinete do governador, Janary Nunes e seus primeiros assessores dividiram os espaços da Prefeitura de Macapá com a equipe de Jacy Jucá. A estrutura imediata de governo compreendeu uma Secretaria e sete Departamentos: Secretário Geral, advogado fazendário Raul Montero Valdez; Diretor do Departamento de Segurança Pública e Guarda Territorial, advogado e jornalista Paulo Eleutério Cavalcante de Albuquerque; Diretor de Saúde Pública, médico Pedro Lago da Costa Borges; Diretor de Educação e Cultura, advogado e professor Otávio Machado Mendonça; Diretor de Produção e Pesquisa, Arthur de Miranda Bastos; Diretor de Viação e Obras Públicas, engenheiro Hildegardo Nunes; Diretor de Administração, contabilista Paulo Moacyr de Carvalho; Diretor de Terras, Geografia e Estatística, agrônomo Oscar Leite Brasil. Posteriormente, os departamentos foram transformados em divisões e as atividades de geografia e estatísticas ficaram como competências da Divisão de Administração. Também foi criada a Superintendência dos Serviços Industriais e nomeado para comandá-la o senhor Elói Monteiro Nunes, tio de Janary Nunes.
Na fotografia que ilustra este artigo figuram alguns dos assessores mais diretos do governador: da esquerda para a direita, em pé, de branco, Otávio Machado de Mendonça; Arthur de Miranda Bastos; Pedro Lago da Costa Barros; Tenente Teixeira (Ajudante de Ordem) e Elói Monteiro Nunes. Sentados, no mesmo sentido, Raul Montero Valdez, Janary Gentil Nunes e Paulo Moacyr de Carvalho.
Foto tirada no Gabinete Governamental, prédio do atual Museu Histórico Joaquim Caetano da Silva.
(*) Historiador, professor e radialista amapaense, via e-mail.