As cidades guardam histórias que muitas vezes passam
despercebidas no corre-corre do presente. Mas, quando olhamos com atenção para
as ruas, os prédios, os pontos de encontro e até para os silêncios das
esquinas, encontramos fragmentos de uma memória viva — que ainda pulsa, mesmo
quando esquecida.
Na publicação de hoje do Porta-Retrato-Macapá, convidamos você a
revisitar um episódio marcante da nossa memória urbana. Um fato histórico real,
vivido por quem fez parte do cotidiano da cidade e que ajuda a entender quem
somos, como evoluímos e o que ainda carregamos das experiências coletivas que
moldaram Macapá.
Preservar a memória não é apenas olhar para trás: é iluminar o
caminho que seguimos adiante.
Macapá, 1951: O cruzamento que virou caso de polícia
No início da década de 1950, Macapá vivia um período
de transição urbana e social.
Hoje Mendonça Furtado com Rua Tiradentes, atrás da igreja matriz.
O desenvolvimento começava a tomar forma com a
abertura de avenidas mais largas, como a Mendonça Furtado, ao passo que
ruas antigas, como a Travessa Coronel José Serafim, ainda guardavam o
traçado estreito da cidade colonial. Nesse contexto de adaptação entre o antigo
e o moderno, registrou-se um dos primeiros acidentes automobilísticos oficiais
no centro da cidade.
imagem gerada por ia
O fato ocorreu na manhã do dia 7 de outubro de 1951. Domingo.
Envolveu um caminhão da casa comercial Leão do Norte, conduzido por Moisés
Zagury, e a caçamba nº 60 da Garagem Territorial, dirigida por Sebastião Silva. O acidente aconteceu próximo à
igreja matriz de São José, em um cruzamento central da cidade.
Segundo o relato de Moisés Zagury, ele trafegava pela Avenida
Mendonça Furtado a uma velocidade de aproximadamente 25km/h quando foi
surpreendido pela caçamba que, segundo ele, entrou na contramão pela Travessa
Coronel José Serafim, sem sinais sonoros ou uso de freios. O passageiro do
caminhão, Casimiro Dias, confirmou que não se ouviu nenhuma buzina e que
o uso dos freios pela caçamba poderia ter evitado o impacto.
Sebastião Silva, por sua vez, alegou estar
trafegando a apenas 10km/h e ter buzinado diversas vezes antes de realizar a
curva. Seu passageiro, Raimundo Rodrigues, confirmou a versão,
acrescentando que a buzina foi usada inclusive para espantar um cachorro que
estava na via.
A perícia constatou falhas técnicas em ambos os veículos: a
buzina do caminhão apresentava defeito e os freios da caçamba estavam
comprometidos. O laudo concluiu pela imprudência de ambos os condutores. O
delegado ressaltou que, à época, não havia sinalização de mão única nas vias
envolvidas, o que exigia redobrada atenção dos motoristas.
O inquérito policial foi arquivado após parecer do promotor
interino, que reconheceu a ausência de dolo na conduta dos envolvidos. Cada
motorista arcou com seus prejuízos, e o caso foi encerrado.
Este episódio histórico revela não apenas os desafios da
condução no trânsito em uma cidade em transformação, mas também o registro vivo
de um tempo em que Macapá começava a caminhar para a modernidade.
Hoje, essa história é mais do que um boletim de ocorrência
antigo. É um retrato da cidade em transformação — entre o passado pacato e o
futuro urbano.
Nota do Editor: Pesquisa e texto original de Michel Duarte
Ferraz, museólogo do Tribunal de Justiça do Amapá (TJAP), especialmente
adaptados ao blog Porta-Retrato-Macapá, com a devida anuência do autor.
Fonte: Arquivo Geral do TJAP