PORTA-RETRATO - Macapá/Amapá - QUINZE ANOS (desde 2010)
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No coração do Largo dos Inocentes, um dos bairros mais
antigos e pulsantes de Macapá, viveu uma senhora que transformou o suor do
trabalho diário em fios de dignidade e comunidade: Militina Epifânia da Silva, carinhosamente conhecida como Dona Milica.
Pioneira daquela região, Dona Milica
dedicou sua vida à profissão de lavadeira e passadeira, exercendo-a com uma
dedicação que ia além do ofício – era um ato de serviço amoroso à vizinhança.
Filha de Mãe Luzia, a respeitada parteira que trazia novas
vidas ao mundo com mãos firmes e coração generoso, Dona Milica herdou o
espírito de cuidado inabalável. Enquanto sua mãe acolhia partos e aliviava
dores, Dona Milica lavava e passava roupas com o mesmo zelo, tornando-se
referência de trabalho honesto e força feminina em tempos desafiadores. Sua
casa era ponto de encontro, onde o vapor das roupas engomadas se misturava ao
aroma de café e histórias compartilhadas.
Mas Dona Milica não era só mãos calejadas pelo labor; era
alma leve e contagiante. Nas festas do Marabaixo, ela dançava com uma alegria
que iluminava as noites amapaenses, girando saias e espalhando sorrisos que
ecoavam a vitalidade cultural do Amapá. Sua fé, igualmente vibrante, a levava
ao Apostolado da Oração na Igreja Matriz de São José, onde orava pela
comunidade e reforçava os laços espirituais que uniam o povo.
A trajetória de Dona Milica simboliza as senhoras anônimas
que ergueram Macapá com paciência e resiliência: lavadeiras, parteiras,
dançarinas e fiéis que, sem holofotes, teceram o tecido vivo da comunidade
macapaense. Hoje, em 2025, sua neta Josele Silva resgata essa memória,
convidando-nos a honrar as raízes do Largo dos Inocentes. Dona Milica nos
lembra que a verdadeira história de um povo está nas mãos que servem, nos pés
que dançam e nos corações que rezam.
Fontes
Totem informativo na Praça do Largo dos Inocentes -
Formigueiro
(Projeto de revitalização da Prefeitura de Macapá, 2025)
Depoimento memorial: Josele Silva, neta de Dona Milica – 2025.
Tereza da
Conceição Serra e Silva (1860–1940) atravessou, em silêncio e devoção, décadas
decisivas da história de Macapá.
Matriarca da tradicional família Serra e
Silva, foi esposa de João Câncio e mãe de Emanuel Serra e Silva e de José Serra
e Silva – este último viria a ser nomeado prefeito de Macapá, o que reforça a
presença pública da família na vida política e social da cidade.
Moradora
da Passagem Rio Branco, nº 18, Dona Tereza circulava entre o espaço doméstico e
a vida religiosa com igual intensidade. Integrante da Congregação do Sagrado
Coração de Jesus, fundada pelo Padre Júlio Maria Lombarde, encontrava na fé
católica o eixo de sua atuação comunitária. Em uma Macapá ainda pequena, com
forte espírito de vizinhança e poucas referências religiosas formais, sua
presença ajudava a fortalecer práticas de devoção e solidariedade.
O gesto
que marcaria de forma definitiva seu nome na memória da cidade aconteceu em
1934. Naquele ano, ao doar à Igreja Católica e à Intendência Municipal a imagem
de Nossa Senhora de Nazaré – então a única existente em Macapá – Dona Tereza
permitiu a realização da primeira procissão do Círio de Nazaré no município. A
partir dessa oferta simples e profunda, Macapá passa a inscrever-se no roteiro
amazônico de devoção mariana, conectando-se à tradição iniciada em Belém ainda
no século XVIII.
Mais do
que um ato isolado, a doação da imagem revela um traço de sua personalidade:
religiosidade firme, generosidade discreta e consciência do valor simbólico
daquele gesto para a comunidade. A procissão, que nasceria modesta,
tornar-se-ia ao longo das décadas uma das celebrações mais significativas da fé
popular macapaense.
Tereza da
Conceição Serra e Silva faleceu em 1940, mas sua trajetória permanece como
referência de fé vivida no cotidiano, de comprometimento com a cidade e de
pioneirismo feminino em um tempo em que os registros oficiais privilegiavam
quase sempre as figuras masculinas. Ao lembrar Dona Tereza, o blog “Porta
Retrato” resgata não apenas a história de uma família tradicional, mas também a
memória de uma mulher cuja devoção ajudou a moldar a identidade religiosa de
Macapá.
Fontes: –
Totem informativo instalado na Praça do Largo dos Inocentes - Formigueiro,
projeto de revitalização da Prefeitura Municipal de Macapá, 2025.
Maria
Germina de Mendonça Almeida é a décima primeira homenageada do projeto memorialista do Largo dos
Inocentes, e sua trajetória sintetiza a força silenciosa de tantas mulheres
que ajudaram a erguer o bairro com trabalho, resistência e memória.
Nascida em
1942, filha de Ana Rosa de Mendonça, ela cresceu no Formigueiro,
onde passou grande parte da infância e juventude, em um tempo em que a vida
cotidiana era marcada pela simplicidade, mas também por grandes desafios.
Ainda
menina, por volta dos 12 anos, Maria assumiu responsabilidades que hoje
seriam impensáveis para uma criança. Coube a ela colaborar nas tarefas
domésticas e, sobretudo, no abastecimento de água da casa. Diariamente,
carregava pesadas latas retiradas dos poços do Mato e de São José,
percorrendo caminhos de terra em uma rotina exaustiva, que exigia força física,
disciplina e coragem. Era uma atividade dura e dolorida, como ela mesma
costumava recordar, mas absolutamente essencial para garantir que nada faltasse
à família.
O núcleo
familiar de Maria se estruturou em torno da figura de sua mãe, Ana
Rosa, e de Hipólito da Silva Gaia, com quem Ana se casou e com quem
teve três filhos: Antônio, Vivaldina e Benedito. Nesse ambiente,
Maria aprendeu o valor da solidariedade, da partilha e do cuidado coletivo,
valores que a acompanharam por toda a vida e que ajudaram a moldar o espírito
comunitário do Formigueiro. A casa, simples, era também um ponto de
encontro, onde histórias, notícias e lembranças circulavam de boca em boca,
alimentando a memória social do lugar.
Com o passar
dos anos, Maria transformou suas vivências em narrativa, tornando-se uma
verdadeira guardiã da memória viva do bairro. Suas lembranças sobre o trabalho
de buscar água, as dificuldades do cotidiano, as vizinhanças, festas e mudanças
no Largo dos Inocentes resgatam um tempo em que a sobrevivência dependia
diretamente do esforço coletivo e da presença ativa das mulheres na organização
da vida doméstica e comunitária. Ao narrar o passado, ela não só preservava a
própria história, como ajudava a manter viva a identidade do Formigueiro e
de seus moradores.
Homenagear Maria
Germina de Mendonça Almeida no Largo dos Inocentes é reconhecer o
protagonismo das mulheres anônimas que, com braços cansados e passos firmes,
asseguraram dignidade às suas famílias e deixaram marcas profundas na história
da cidade. Seu nome, agora inscrito entre as personalidades lembradas no espaço
público, transforma em patrimônio simbólico uma experiência de vida que combina
luta, trabalho duro e afeto. Para o blog Porta-Retrato, registrar essa
biografia é, ao mesmo tempo, ato jornalístico, gesto histórico e exercício de
memória, garantindo que a história de Maria continue inspirando as novas
gerações.
Fontes: –
Totem informativo instalado na Praça do Largo dos Inocentes - Formigueiro,
projeto de revitalização da Prefeitura Municipal de Macapá, 2025.
Continuando
nossa série de homenagens aos pioneiros do Largo dos Inocentes, vamos
conhecer hoje a história de Aurino Borges de Oliveira (1917-1976), nosso
décimo e notável homenageado. Sua trajetória não apenas enriqueceu o comércio
local, mas se insere em uma linhagem de serviço público que marcou a história
de Macapá.
Nascido em
28 de março de 1917, em Macapá, que na época pertencia ao estado do Pará,
Aurino Borges de Oliveira destacou-se em dois campos cruciais para o desenvolvimento da
capital: a administração pública e o empreendedorismo.
O
Administrador Comprometido do Coração da Cidade
Aurino
Borges de Oliveira
dedicou vários anos de sua vida à gestão do Mercado Central de Macapá,
atuando como um de seus administradores. Este cargo exigia dedicação e
comprometimento excepcionais, pois o Mercado Central sempre foi o
principal ponto de abastecimento e o grande motor comercial de Macapá. A
gestão eficiente deste espaço por Aurino contribuiu diretamente para o
ordenamento e o cotidiano da cidade.
Ao lado de
sua esposa, Maria José da Silva Barbosa, ele construiu uma grande
família, sendo pai de doze filhos, demonstrando a mesma dedicação e compromisso
na vida pessoal quanto na pública.
Padaria
São José: O Aroma do Pioneirismo
Além do
serviço público, Aurino Borges de Oliveira revelou-se um empreendedor
visionário. Foi ele o proprietário da tradicional Padaria São José (conhecida,
na época, como Padaria do Sandó, irmão dele) uma das primeiras padarias
a se estabelecer no centro de Macapá. Em uma época em que a cidade
estava em franca expansão e consolidação, a Padaria São José não apenas
supria a demanda por pães e quitutes, mas se transformou em um símbolo de
progresso e tradição, sendo um estabelecimento que, nas palavras da época,
"marcou época na história da cidade".
A
Linhagem do Serviço Público: Filho do Intendente
A
importância de Aurino Borges de Oliveira reflete também a de sua
ascendência. Aurino era filho do lendário Intendente Ernestino Borges.
Antes que o
cargo de Prefeito fosse instituído, o município de Macapá era
liderado pelo Intendente, a maior autoridade do Executivo local. Ernestino
Borges ocupou essa posição de comando entre 1921 e 1922, em um período
fundamental para a definição do futuro urbanístico e administrativo de Macapá.
O Intendente
Ernestino Borges é uma figura tão central na história da capital que seu
nome foi imortalizado em uma das vias mais importantes e extensas da cidade: a Avenida
Ernestino Borges.
Ao honrar a
memória de Aurino Borges de Oliveira, celebramos o legado de uma família
que contribuiu de forma indelével para Macapá, desde a administração
política e o traçado urbano (com o Intendente Ernestino Borges) até o
desenvolvimento comercial e a memória afetiva de seu centro (com Aurino
Borges de Oliveira e sua Padaria São José).
O Largo
dos Inocentes é, sem dúvida, um palco onde a história dos Borges de
Oliveira floresceu e continua viva em nossa memória.
Fontes: – Totem informativo instalado na Praça do Largo dos Inocentes - Formigueiro, projeto de revitalização da Prefeitura Municipal de Macapá, 2025.
No coração
pulsante do Largo dos Inocentes - Formigueiro, em Macapá, ergue-se agora a nona
homenagem a uma figura que personifica o pioneirismo amapaense: José Rosa
Tavares.
Homem de caligrafia impecável, cujas letras traçadas à mão carregavam
a precisão de um artista e a confiança de um servidor público, Tavares foi o
artífice manual das folhas de pagamento da Prefeitura de Macapá, quando o Amapá
ainda era Território Federal. Em tempos em que máquinas ainda eram sonho
distante, sua pena era o elo entre o suor do trabalhador e o dever da
administração.
Convocado
pelo prefeito Heitor de Azevedo Picanço, José Rosa não foi escolhido ao acaso.
Sua honestidade inabalável, o capricho em cada traço e o zelo incansável pela
tarefa pública o elevaram a essa responsabilidade nobre. Reservado em sua
essência, mas de coração aberto aos amigos, ele transformava as noites no
calçadão em frente à sua casa — na icônica esquina da rua Mendonça Furtado com
Tiradentes — em rodas de prosa genuína. Ali, sob o céu estrelado do Amapá, os
temas fluíam como o rio próximo: a roça fecunda, a caça desafiadora e a pesca
generosa, tecendo laços que uniam a comunidade em simplicidade e cumplicidade.
Casado com
Maria do Carmo Tavares, a inesquecível Dona Mariquinha — mulher de generosidade
sem medidas e acolhida farta —, José Rosa construiu uma família exemplar. Dos
12 filhos criados com afeto e princípios sólidos, brotou um legado que
transcende gerações: o serviço à comunidade, a modéstia como virtude e o afeto
como herança eterna. No Largo dos Inocentes, sua memória agora se eterniza,
convidando-nos a refletir sobre os pioneiros que, com mãos calejadas e
espíritos retos, forjaram os alicerces de Macapá.
Fontes: – Totem informativo instalado na Praça do Largo dos Inocentes - Formigueiro, projeto de revitalização da Prefeitura Municipal de Macapá, 2025.
Fonte memorial: João do Carmo Tavares, bancário e filho de José Rosa Tavares – depoimento em 2025.
Nascido
em 9 de janeiro de 1868, Benedicto Antônio Tavares recebeu o nome em homenagem
a São Benedito, santo de forte devoção popular na Amazônia. O sobrenome
Tavares, herdado do pai, acompanharia uma trajetória marcada pelo respeito
público, pela ligação com a elite local e por uma atuação comunitária que ecoa
até hoje na memória de Macapá.
Casado
com Quitéria Rosa Tavares, Benedicto construiu um núcleo familiar que seria, ao
mesmo tempo, tradicional e profundamente ligado às raízes da cidade. Do
casamento, vieram os filhos Maria Rosa Tavares de Almeida e José Rosa Tavares.
Também foi pai de Norberto Tavares, ampliando uma linhagem que se entrelaça com
a história social da capital amapaense.
Reconhecido
como uma das figuras de destaque na Macapá do final do século XIX e primeiras
décadas do XX, Benedicto integrou a elite local não apenas por sua posição
social, mas pelo papel que desempenhou no serviço público. Exerceu as funções
de oficial de justiça e intendente municipal, cargos que exigiam
responsabilidade, senso de justiça e articulação com a vida política e
administrativa da época.
Entretanto,
sua contribuição mais marcante talvez tenha vindo do ambiente doméstico. Em sua
própria residência, Benedicto abria as portas para exercer uma vocação que o
aproximava diretamente da comunidade: alfabetizar crianças, jovens e adultos,
ensinando leitura, escrita e, especialmente, “a fazer conta”, expressão tão
comum no vocabulário cotidiano de então. Era um mestre informal, cuja casa se
transformava em espaço de aprendizagem para aqueles que tinham pouco ou nenhum
acesso à educação regular.
Esse
gesto simples e contínuo — ensinar — conferiu a Benedicto um lugar especial na
memória coletiva. Ele representava não apenas o homem público, mas o educador
comunitário, figura que ajudava a moldar futuros e a disseminar conhecimento em
uma Macapá ainda em formação, com poucos recursos escolares e forte dependência
da iniciativa de cidadãos comprometidos com o bem comum.
Benedicto
Antônio Tavares faleceu em 25 de setembro de 1941, deixando um legado de
serviço, respeito e educação transmitida de forma generosa. Sua história
permanece viva como parte do patrimônio humano que construiu a Macapá do
passado e alimenta a identidade da cidade atual.
Fontes: – Totem informativo instalado na Praça do Largo dos
Inocentes - Formigueiro, projeto de revitalização da Prefeitura Municipal de
Macapá, 2025.
Fonte memorial: Bisneta – Maria das Dores do Rosário Almeida – 2025
Entre as
figuras que moldaram a identidade afetiva e cultural do Largo dos Inocentes,
no tradicional Formigueiro, nenhuma presença é tão lembrada quanto a de
Tia Ursinha. Nascida em 25 de abril de 1915, Ursula Evangelista da Costa
Cecilio tornou-se, ao longo do século XX, uma referência de fé,
solidariedade e pertencimento comunitário, marcas que a fizeram permanecer viva
na memória social de Macapá.
Pioneira
daquela região emblemática da capital, Tia Ursinha não apenas
testemunhou as transformações do bairro, mas participou ativamente de suas
tradições. Devota e assídua nas celebrações religiosas, era figura certa nas
festas, novenas e rituais que uniam os moradores e reforçavam o sentimento de
vizinhança. Seu comportamento acolhedor e seu senso de compromisso com o outro
fizeram dela um ponto de apoio para famílias inteiras que encontravam, em sua
casa e em sua presença, um gesto de escuta e solidariedade.
Mais que uma
moradora ilustre, Tia Ursinha tornou-se um símbolo de resistência
cultural, preservando costumes e modos de viver que ajudaram a tecer a história
do Largo dos Inocentes. Sua trajetória se confunde com a própria memória
do território: a fé que professava, o cuidado com a comunidade e a dedicação à
família refletem valores que permaneceram, mesmo após sua partida, em 1º de
julho de 2005.
Hoje,
recordar Tia Ursinha é reconhecer a força das mulheres que sustentaram a
vida social de Macapá, transmitindo saberes, valores e tradições às
novas gerações. Sua lembrança permanece como um farol afetivo para todos que
conheceram sua doçura e sua firmeza.
Fontes: –
Totem informativo instalado na Praça do Largo dos Inocentes - Formigueiro,
projeto de revitalização da Prefeitura Municipal de Macapá, 2025.
Hoje abrimos
espaço para contar a história de Mãe Cota, cuja força, ternura e ancestralidade
deixaram raízes profundas no coração do Formigueiro.
Maria Rosa
Tavares de Almeida veio ao mundo em 20 de setembro de 1896, filha de Benedicto
Antônio Tavares e Quitéria Rosa Tavares. Nascida em um tempo de grandes
desafios, Maria Rosa cresceu entre saberes tradicionais, rezas antigas e a
força cotidiana das mulheres negras que moldaram a cultura amapaense. Ainda
jovem, descobriu um dom natural para cuidar, ensinar e acolher — virtudes que
guiariam toda a sua existência.
Conhecida
carinhosamente como Mãe Cota, ela dedicou parte de sua vida à educação. Atuou
como professora municipal da 1ª série na comunidade do Curiáu, entre 1938 e
1939, plantando as primeiras sementes de conhecimento que muitos moradores da
região levariam para além da infância. Como educadora, era lembrada pelo rigor
amável, pela paciência e pelo respeito à formação humana.
Mas Mãe Cota
não cabia em um único ofício. Era mulher de muitos talentos, dona de uma
habilidade rara nas artes tradicionais que marcam o cotidiano amazônico.
Trabalhou como rendeira, lavadeira, cozinheira e amassadeira de açaí —
profissões que exigem força, técnica e dedicação. Queimou panelas para
alimentar famílias, tingiu fios que viraram arte, lavou histórias que o tempo
insistia em guardar. Tornou-se também tacacazeira, levando às ruas sabores que
hoje são parte inseparável da memória afetiva de Macapá.
Dotada do
dom da cura e do aconselhamento, Mãe Cota foi ainda rezadeira, benzedeira e
figura de extrema confiança na comunidade. Em sua casa, muitos encontravam
alívio espiritual, palavra firme, escuta atenciosa e esperança. Nas festas do
Divino Espírito Santo e da Santíssima Trindade, entoava cantorias de marabaixo,
mantendo viva uma das mais importantes expressões culturais do Amapá. Seu
canto, dizem, alcançava os que estavam longe — e confortava os que estavam
perto.
Profundamente
religiosa, integrou o Apostolado da Oração da Igreja Matriz de São José, onde
sua presença constante e silenciosa se tornou um símbolo de fé e devoção.
Mãe Cota
partiu em 24 de novembro de 1986, aos 90 anos. Viveu quase um século costurando
laços de fé, trabalho, sabedoria e amor ao próximo. Deixou um legado que
ultrapassa as fronteiras da família e se estende pela cultura e pela história
do Amapá. Hoje, é lembrada como exemplo de dignidade, força feminina e
ancestralidade — uma daquelas pessoas cuja vida se transforma, por si só, em
patrimônio imaterial.
Ao
celebrarmos a memória de Mãe Cota, celebramos também a resistência e a beleza
das mulheres que moldaram, com suas próprias mãos, os alicerces culturais de Macapá.
Sua história
permanece viva, como as vozes do marabaixo que ecoam pelas ruas, como o cheiro
de tucupi que anuncia afeto, como o conselho sábio que nunca se perde.
Mãe Cota
vive — na memória, no legado e no coração do Amapá.
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Fontes: –
Totem informativo instalado na Praça do Largo dos Inocentes - Formigueiro,
projeto de revitalização da Prefeitura Municipal de Macapá, 2025.
Hoje vamos
recordar a trajetória do senhor José Duarte de Azevedo, conhecido como Zé Mariano — figura ilustre e indispensável à
memória afetiva amapaense. Homem simples, íntegro e profundamente enraizado no
bairro Formigueiro, Zé Mariano viveu intensamente o cotidiano do antigo
Território Federal do Amapá. Sua história, sustentada pelo trabalho incansável,
pela fé e pelo amor à família, merece ser retomada e celebrada como parte
fundamental do nosso memorial coletivo.
Zé Mariano (1902–1986)
Nascido em
Macapá em 1902, José Duarte de Azevedo, o Zé Mariano, cresceu em uma época em
que a cidade dava seus primeiros passos rumo à urbanização. Filho de Mariano
Duarte de Azevedo e Tereza de Azevedo Picanço, integrou-se desde cedo à
realidade dos pioneiros do Formigueiro, área onde muitas famílias tradicionais
ajudaram a moldar a identidade local.
Sua vida
profissional ganhou novos rumos a partir de um convite decisivo: o então
governador Janary Nunes, figura central na consolidação do Território Federal
do Amapá, chamou Zé Mariano para integrar a equipe responsável por importantes
obras públicas. Ele participou diretamente da construção do Hospital Geral de
Macapá e do Macapá Hotel, dois marcos estruturais que transformaram o cenário
urbano da capital na década de 1940.
A dedicação,
a seriedade e o senso de responsabilidade com que executava suas funções
renderam-lhe a confiança do Governo. Por isso, Zé Mariano assumiu mais tarde o
cargo de porteiro do Palácio do Governo, acumulando também inúmeras tarefas
externas. Era, como muitos lembram com carinho, o “verdadeiro faz-tudo”, sempre
presente, sempre pronto, sempre discreto.
No campo
familiar, Zé Mariano construiu uma história tão sólida quanto sua vida pública.
Casou-se com Tereza de Azevedo Costa, com quem teve oito filhos. Da união
nasceu uma linhagem que seguiria contribuindo com a cidade — entre eles,
Raimundo Azevedo Costa, que fez história ao se tornar o primeiro prefeito
eleito de Macapá, em 1985.
Católico
dedicado, Zé Mariano era presença constante nas missas da Igreja Matriz de São
José. Carregava consigo um entusiasmo especial pelas festas de arraial, período
que marcava encontros, reencontros e a celebração da cultura local. Nessas
ocasiões, recebia com alegria parentes e amigos vindos do interior, reforçando
os laços afetivos que sempre prezou.
Faleceu em
1986, deixando um legado de simplicidade, trabalho e dignidade. Sua trajetória,
embora marcada pela discrição, permanece viva na memória dos descendentes,
amigos e moradores que reconhecem em Zé Mariano um dos alicerces humanos que
ajudaram a construir Macapá.
Fontes: – Totem informativo instalado na Praça do Largo dos Inocentes - Formigueiro, projeto de revitalização da Prefeitura Municipal de Macapá, 2025.
Fonte memorial: João do Carmo Tavares (filho)
– Registro fotográfico de @paulotarsobarros.
Texto integrante do acervo histórico do blog Porta-Retrato – Macapá.
Hoje vamos
falar de Mestre Chico, figura essencial na história do Formigueiro e do
desenvolvimento urbano de Macapá. Carpinteiro habilidoso, vizinho de outros
mestres artesãos, e colaborador de obras que hoje fazem parte do imaginário
amapaense, ele representa a força silenciosa dos trabalhadores que edificaram a
cidade muito antes de seus espaços ganharem nomes oficiais ou destaque nos
mapas.
Francisco
Castro Inajosa (1911 – 1995)
Francisco
Castro Inajosa, carinhosamente conhecido como Mestre Chico, nasceu em 14 de
agosto de 1911. Ao longo de sua vida, deixou marcas profundas na história de
Macapá por meio de seu talento como carpinteiro e de sua dedicação ao trabalho
comunitário. Faleceu em 8 de agosto de 1995, mas seu legado permanece vivo nas
estruturas que ajudou a construir e nas memórias daqueles que conviveram com
ele.
Radicado
na área onde funcionou o antigo Fórum de Macapá, Mestre Chico tinha como
vizinho o respeitado “Mestre Julio”. Quando o então governador Janary Gentil
Nunes requisitou o terreno para a construção do Fórum, foi o próprio Mestre
Chico quem sugeriu um novo local de moradia. Assim, mudou-se para a Rua José
Serafim, esquina com a General Gurjão — região então conhecida como
“Formigueiro”, hoje denominada Rua Tiradentes.
A
trajetória de Mestre Chico se entrelaça com a história urbana e cultural do
Amapá. Seu talento contribuiu para importantes obras da cidade, entre elas a
construção do Trapiche Eliezer Levy, um dos cartões-postais de Macapá, e da
Igreja de Mazagão Velho. Foi durante esse período que conheceu sua esposa,
Ercilia Duarte Inajosa, a Dona Ciroca, nascida em 28 de janeiro de 1921 e
falecida em 20 de outubro de 2013, companheira fiel em sua caminhada.
Além
disso, Mestre Chico atuou na reforma da Igreja Matriz de São José de Macapá e
participou de diversas obras públicas, servindo como mão de obra especializada
do antigo setor de Bens de Imóveis da Secretaria de Obras. Ao longo de sua vida
profissional, trabalhou ao lado de dois outros grandes artesãos da época:
Mestre Antônio e Mestre Benedito, fortalecendo um ciclo de mestres que ajudou a
erguer parte significativa do patrimônio amapaense.
Mais do
que um carpinteiro, Mestre Chico foi um homem de visão, simplicidade e profundo
senso de comunidade. Sua história é a história de uma Macapá que cresceu pelas
mãos de trabalhadores anônimos, mas fundamentais — homens que moldaram madeira
e também identidades.
O legado
de Mestre Chico permanece nos edifícios que ajudou a levantar e, sobretudo, na
lembrança de sua contribuição para a construção social e cultural do Amapá.
Fontes: – Totem informativo instalado na Praça do Largo dos Inocentes - Formigueiro, projeto de revitalização da Prefeitura Municipal de Macapá, 2025.
Depoimento de Mestre Neto – Benedito João Silva
– Registro fotográfico de @paulotarsobarros.
Texto integrante do acervo histórico do blog Porta-Retrato – Macapá.
Hoje nossa terceira
homenageada do Largo dos Inocentes, é Dona Cacilda da Cruz Pimentel.
Mulher de
fibra, fé e ternura, Dona Cacilda pertenceu a uma geração que não apenas viveu
o Formigueiro, mas o inventou com o suor, a coragem e a solidariedade do
cotidiano. Com sua presença marcante, ajudou a formar as primeiras famílias que
deram origem ao centro da cidade, costurando laços de vizinhança e esperança em
tempos de poucos recursos, mas de abundante humanidade.
No compasso
dos dias simples, Dona Cacilda fez de sua casa um abrigo e um ponto de
encontro. Ali se acolhiam os que precisavam de conforto, ali se partilhavam
rezas, saberes, alimentos e alegrias. Era o lar onde se teciam as relações de
respeito e união que, ainda hoje, ecoam entre descendentes e vizinhos.
Sua
generosidade tornou-se referência para muitos nas horas difíceis, e sua
memória, um símbolo de solidariedade. Seu exemplo transcendeu o tempo — não
apenas como lembrança familiar, mas como herança viva na cultura popular, nas
festas, nas orações e nas tradições que seguem pulsando no Largo dos Inocentes - Formigueiro.
Relembrar Dona
Cacilda é celebrar a força das mulheres que, com gestos simples e fé profunda,
ergueram os alicerces invisíveis da cidade. É reconhecer que a história também
se escreve com afeto e que a memória, quando preservada, continua a iluminar
o presente.
Fontes: – Totem informativo instalado na Praça do Largo dos Inocentes - Formigueiro, projeto de revitalização da Prefeitura Municipal de Macapá, 2025.
Depoimento do ex-Prefeito João Henrique Pimentel
– Registro fotográfico de @paulotarsobarros.
Texto integrante do acervo histórico do blog Porta-Retrato – Macapá.
Hoje
recordamos Raimunda Tavares da Silva, a segunda mulher pioneira do Largo
dos Inocentes homenageada aqui no blog Porta-Retrato.
Foto: Arquivo da Família
Dona
Raimunda Tavares da Silva, carinhosamente conhecida como Tia Mundica, nasceu em Macapá no
dia 25 de setembro de 1915 e faleceu em 14 de novembro de 1996, aos 81 anos.
Filha de Cláudia Coimbra, casou-se com Benedito Costa da Silva (Biló) e foi
morar na localidade de Coração. Lá, teve quatro filhos: Maria Neuzarina e João Gualberto
(ambos já falecidos), além de Cezarina Perez, José Raimundo (Billy Pan) e Maria
dos Anjos Tavares da Silva Miguel.
Há vidas que
passam de forma silenciosa, mas deixam marcas profundas, como cheiro de comida
boa que invade a rua e nunca mais sai da memória. Dona Raimunda, Tia
Mundica para os mais próximos, foi assim: presença simples, coração
generoso e mãos que transformavam afeto em alimento.
Na Macapá
das décadas de 1940 e 1950, quando professoras recém-chegadas desembarcavam no
Amapá para servir no governo do Cel. Janary Nunes, a casa de Tia Mundica se
tornava abrigo. Ali não era só panela no fogo. Era porta aberta, sorriso que
descansava o coração e aquele jeito de fazer qualquer pessoa sentir que
pertencia. Um gesto simples, mas grande como o rio Amazonas, mostrando o
espírito hospitaleiro do amapaense. No prato, mingau de milho quentinho, tacacá
que abraçava a alma, açaí batido com carinho. E, por cima de tudo isso, a
sensação de lar, costurada com afeto, para quem estava longe de casa e ainda
procurando seu lugar.
Seu talento
culinário virou referência. Seu cuidado, lembrança viva. Sua mesa, lugar de
encontro e afeto. Na simplicidade da vida comunitária, ela criou raízes que
ainda florescem nas lembranças de quem provou sua comida e, mais ainda, sua
gentileza.
Celebrar Tia
Mundica é lembrar que a história de uma cidade também se escreve com tempero,
carinho e portas abertas. E que existem pessoas que, mesmo sem grandes títulos,
se tornam patrimônio afetivo de um povo.
Fontes: – Totem informativo instalado na Praça do Largo dos Inocentes - Formigueiro, projeto de revitalização da Prefeitura Municipal de Macapá, 2025.
Depoimento da filha, Maria dos Anjos (2025)
– Registro fotográfico de @paulotarsobarros.
Texto integrante do acervo histórico do blog Porta-Retrato – Macapá.
A memória de
Fernando Canto e o dia em que o hino oficial quase se perdeu.
Em 1982, o
Amapá vivia um daqueles instantes em que a história parece prender a respiração
antes de um salto. O Território Federal sonhava tornar-se Estado, e o espírito
coletivo era de construção e pertencimento.
Para
fortalecer esse movimento, o secretário de Planejamento, Antero Lopes,
instituiu uma comissão encarregada de coordenar a campanha e escolher os
símbolos do futuro Estado: bandeira, brasão e hino. À mesa, nomes que uniam
técnica, arte e sensibilidade: o jornalista Paulo Oliveira, o publicitário
Carlos Viana, o arquiteto Chikahito Fugishima e o poeta e artista multimídia
Fernando Canto.
As
inscrições para bandeira e brasão chegaram em grande número. Para o hino,
porém, o silêncio governou. Nenhuma proposta. O tempo apertava, e aquele vazio
ameaçava transformar um momento histórico em uma pausa desafinada.
Foto montagem
Foi nessa
brecha que Fernando Canto apareceu, olhos brilhando como quem acabara de
encontrar um rio escondido na mata. Ele carregava consigo a Canção do Amapá,
com letra de Joaquim Gomes Diniz e música do maestro Oscar Santos. Naquele
instante, o Amapá ganhou a voz que buscava.
O maestro
que ensinou a ouvir
Oscar
Santos, lembrado com carinho por várias gerações, era mais que maestro. Era
jardineiro de talentos. Chegou ao Amapá ainda nos anos 1950, trazido pela
secretária de Educação Aracy Miranda de Mont’Alverne, e fez da então Escola
Industrial de Macapá uma casa de música pulsante.
Rigoroso no
ensino, exigia leitura de partitura e treino de ouvido. Criava disciplina e
liberdade, como quem constrói asas e raízes ao mesmo tempo. De seus
ensinamentos nasceram músicos como Joaquim França, Nonato Leal, Sebastião
Mont’Alverne, Aimorézinho e tantos outros que moldaram a alma sonora do Estado.
Compôs mais
de 560 peças. Algumas eram homenagens, como o Dobrado Epifânio Martins, feito
para o diretor do colégio, e o Dobrado Os Bonequinhos, inspirado nos uniformes
azuis dos alunos, que pareciam pequenas figuras de porcelana andando pelo
pátio.
O poeta que
semeou versos para o futuro
A letra do
hino era de Joaquim Gomes Diniz, amazonense de Coari, nascido em 1893. Diniz
chegou ao Amapá em 1929 e deixou marcas profundas como juiz, advogado e poeta.
Elegante e culto, era visto por muitos como um verdadeiro gentleman de chapéu,
cachimbo e alma literária. Morreu em 1949, mas sua poesia permaneceu, dormindo
como semente à espera do tempo certo para florescer. Esse tempo seria quarenta
anos depois.
A fita
cassete e o desafio final
Nas vésperas
da decisão, uma fita cassete surgiu como candidata ao hino, apoiada pela
primeira-dama do território, Mariinha Barcellos. A obra era frágil, e o refrão
exaltava um “comandante”, clara referência ao governador.
Era preciso
agir com delicadeza e estratégia. Em vez de apresentar a Canção do Amapá também
em fita, a equipe liderada por Fernando Canto produziu um documentário, editado
em Belém, já que Macapá ainda não tinha ilha de edição. O único videocassete da
cidade, emprestado do empresário Bira, da Sevel, foi o passaporte tecnológico
dessa missão.
No Palácio
do Governo, o contraste falou mais alto. Após ouvir a fita concorrente, o
governador Aníbal Barcellos assistiu ao vídeo com a Canção do Amapá. Ao final,
levantou-se e aplaudiu. Decisão tomada.
Em 23 de
abril de 1984, o Decreto nº 008 tornou oficial o Hino do Amapá, com letra de
Joaquim Gomes Diniz, melodia do maestro Oscar Santos e a dedicação sensível de
Fernando Canto, que acreditava que símbolos também são pontes entre o povo e
sua história.
Voz que
virou legado
Hoje, a
Canção do Amapá ecoa em cerimônias, escolas e praças. Cada vez que suas notas
se espalham, parece que uma janela se abre para aquele momento em que o Estado
encontrou sua própria identidade sonora.
A crônica
original que inspirou esta postagem foi escrita como homenagem, um ano após a
partida de Fernando Canto. Poeta, jornalista, músico e guardião da memória
coletiva, ele deixou o silêncio apenas para se tornar melodia permanente.
Aqui, onde o
rio encontra o céu e a história encontra a canção, seu nome segue navegando.
Não só na lembrança, mas na própria alma do Amapá.
Fonte
original: texto publicado no Facebook por Walter Jr., Presidente do Instituto
Memorial Amapá, em 29/10/2025, em homenagem à Fernando Canto, falecido em 29 de
outubro de 2024.
Nos últimos anos, a Prefeitura de
Macapá vem realizando um importante trabalho de revitalização dos espaços
históricos e culturais da cidade.
Entre as ações mais simbólicas está a
recuperação da Praça do Largo dos Inocentes - Formigueiro, um lugar que guarda
séculos de memória e identidade amapaense. O projeto incluiu a instalação de tótens informativos que homenageiam personalidades que deixaram marcas profundas
na formação social e cultural da capital.
Personalidades homenageadas nos totens informativos:
Benedicto Antônio Tavares (1868–1941)
Francisca Luzia da Silva – Mãe Luzia (1854–1954)
Maria Lopes da Silva – Maria Joana (1893–1970)
Maria Rosa Tavares de Almeida – Micota (1896–1986)
Raimunda Tavares da Silva – Tia Mundica (1925–1996)
Maria de Lourdes Serra Penafort (1927–1989)
Ursula Evangelista da Costa Cecílio – Tia Ursinha (1915–2005)
José Maria Chaves – Zé Maria Sapateiro (1924–2019)
Adélia Tavares de Araújo – Tia Guita (1916–1997)
Lucimar Araújo Tavares – Tia Luci (1920–2013)
Militina Epifania da Silva – Milica
Aristarco Figueiredo Brito (1942–)
Tereza da Conceição Serra e Silva (1860–1940)
Janiva de Menezes Nery – Dona Nini (1924–)
Aurilo Borges de Oliveira (1917–1976)
José Rosa Tavares (1924–)
Francisco Castro Inajosa – Mestre Chico (1911–1945)
Maria Germinina de Mendonça Almeida (1942)
Cacilda da Cruz Pimentel (1910-1974)
José Duarte Azevedo – Zé Mariano (1902-1986)
Professora Zaide Soledade (1934 – 2015)
Antônio Munhoz Lopes (1932 – 2017)
Esses totens, dispostos ao longo da
praça, não apenas embelezam o espaço público, mas também resgatam histórias de
vida que, por muito tempo, permaneceram guardadas na lembrança oral do povo. É
como se o Largo, renovado e pulsante, se transformasse em um verdadeiro
museu a céu aberto, onde cada nome, cada rosto e cada palavra nos reconectam
com o passado.
É nesse contexto que o Porta-Retrato
– Macapá, espaço dedicado à preservação das memórias da cidade, abre hoje
suas páginas para recordar uma dessas figuras inesquecíveis: Tia Guíta, mulher
de fé, poesia e sabor.
Tia Guíta: Doces Lembranças
Nas margens antigas do rio e nas ruas
de chão batido da velha Macapá, vive ainda a lembrança de uma mulher cuja
presença iluminava as festas, as cozinhas e as rodas de tradição.
Adélia
Tavares de Araújo, mais conhecida como Tia Guíta (1916–1997), foi uma das
figuras mais queridas e emblemáticas da cultura amapaense.
Nascida na Rua da Praia, coração
pulsante da antiga cidade, Tia Guíta cresceu em meio ao cheiro do peixe fresco,
ao som dos tambores do marabaixo e ao murmúrio do rio Amazonas. Cozinheira de
talento e alma generosa, era procurada por muitos que desejavam saborear seus
quitutes — e, sobretudo, o inesquecível mingau de mucajá, receita que
atravessou o tempo como símbolo de afeto e identidade.
A vida a levou também ao garimpo do Lourenço,
onde aprendeu o francês crioulo com trabalhadores vindos de várias partes. Essa
habilidade rara lhe abriu portas: as autoridades do antigo Território
Federal do Amapá frequentemente a chamavam para traduzir conversas e
documentos, reconhecendo nela uma mulher de sabedoria e sensibilidade.
Devota fervorosa de São José,
santo padroeiro de Macapá, Tia Guíta não se limitava à cozinha
nem ao trabalho. Era também dançarina e poetisa, presença marcante nas rodas de
Marabaixo e Batuque, onde o corpo e a palavra se uniam para
celebrar a vida, a fé e a ancestralidade negra amapaense. Sua voz, firme e
doce, ecoava nas festas como quem reza dançando e dança rezando.
Hoje, o nome de Tia Guíta está
gravado na história e no coração de Macapá. Sua memória repousa entre o
sagrado e o cotidiano — na fé de São José, no ritmo do tambor, no sabor
do mucajá e na poesia simples que nasce das margens do rio. Lembrá-la é honrar
todas as mulheres que, com trabalho, arte e devoção, ajudaram a construir a
alma dessa cidade amazônica.
Dona Amélia Tavares de Araújo, irmã de Dona Venina Tavares de Araújo, foi esposa do renomado desportista Wenceslau do Espírito Santo, conhecido como o lendário “16”, múltiplo campeão pelo Amapá Clube. Foi mãe de Norberto Tavares de Araújo Neto, que também seguiu os passos do pai, atuando como atacante no Amapá Clube e na Sociedade Esportiva e Recreativa São José.
Fontes: – Totem informativo instalado na Praça do Largo dos Inocentes - Formigueiro, projeto de revitalização da Prefeitura
Municipal de Macapá, 2025.
– Pesquisa e texto original da
Professora Mestra Mariana Gonçalves.
– Registro fotográfico de
@paulotarsobarros.
Texto integrante do acervo histórico
do blog Porta-Retrato – Macapá.
quinta-feira, 16 de outubro de 2025
A foto lembrança de hoje foi registrada na Praça da Matriz —
atualmente conhecida como Praça Veiga Cabral — há muitos anos, ainda no início
do Território Federal do Amapá, embora sem uma data precisa. Ao fundo,
destaca-se a esquina entre a Avenida Presidente Vargas e a Rua Cândido Mendes,
onde se vê a fachada original do antigo Armazém Macapá, hoje completamente
modificada. Nas décadas de 1970 e 1980, esse prédio abrigou a Farmácia Modelo,
de propriedade do Sr. Bitencourt.
No imóvel ao fundo, vivia Dona Carmita Machado, enquanto na
esquina oposta morava o Sr. Joãozinho Picanço (João Batista de Azevedo
Picanço), pai de Heitor, Noca e Naide Picanço.
Há momentos que o tempo não apaga — ficam guardados na alma,
nítidos como se tivessem acontecido ontem. O Carnaval de 1985 foi um desses
capítulos especiais da minha trajetória.
Naquele ano, o disco de Sambas de Enredo de Macapá foi
gravado nos Estúdios Havaí, no Rio de Janeiro, reunindo cantores
amapaenses e músicos cariocas sob a direção artística do talentoso Dominguinhos
do Estácio.
Tive a honra
de integrar a comissão responsável pela produção, atuando como auxiliar de
Dominguinhos, que havia sido contratado pela Prefeitura de Macapá
para coordenar todo o projeto. Foram dias intensos de aprendizado, convivência
e encantamento com o universo da gravação profissional — um verdadeiro mergulho
na arte do som.
Na primeira
imagem, apareço sentado à mesa de gravação. Nesse momento, ouvíamos as matrizes
já gravadas e editadas do disco de Sambas de Enredo de Macapá — a etapa
final antes da prensagem. Um instante de escuta atenta, emoção e dever
cumprido.
Na segunda
imagem, registro outro momento marcante dessa experiência. O técnico de som,
com toda a paciência e generosidade, me explicava o funcionamento dos
equipamentos de gravação, mixagem e edição das músicas. Foi um aprendizado
valioso, que levo comigo até hoje, não apenas pelo conhecimento técnico, mas
pela beleza do encontro humano e pela partilha de saberes.
Essas duas
imagens, guardadas com carinho no meu acervo de memórias, me transportam de
volta àquele estúdio, ao som das fitas girando e às vozes que ecoavam com tanta
emoção. Foram dias que moldaram não apenas um disco, mas também parte da minha
história e do amor que carrego pela música e pela cultura do Amapá.
O Porta-Retrato tem o prazer de compartilhar com seus
leitores uma relíquia do futebol amapaense: uma raríssima fotografia de uma das
primeiras formações do Esporte Clube Macapá, o mais antigo clube em atividade
no Amapá e um dos mais tradicionais da região Norte.
Imagem: Recorte de jornal (Reprodução)
Na imagem acima, vemos a representação do E.C. Macapá
alinhada para uma partida histórica. A legenda original identifica, da esquerda
para a direita, os seguintes integrantes:
Alcolumbre (técnico), Souza, Edílson, Herundino, Zolirio, Louro, Pintor,
Zeca Banhos, Brito, Nonato, Ubiracy Picanço e Walter Nery.
Breve História do Esporte Clube Macapá
Fundado em 18 de julho de 1944, o Esporte Clube Macapá nasceu
no coração da então pequena cidade de Macapá, ainda no período do Território
Federal do Amapá, quando o futebol local começava a se organizar.
Formado por jovens entusiastas e desportistas apaixonados, o
time vestia as cores azul e branca, que rapidamente se tornaram símbolo de
orgulho e identidade.
Com o passar dos anos, o Macapá se consolidou como um dos
clubes mais respeitados da região, participando ativamente do crescimento do
esporte amapaense e protagonizando partidas memoráveis contra seus grandes
rivais.
Linha do Tempo do Esporte Clube Macapá
📍 1944 – Fundação oficial do clube, que passa a disputar partidas
amistosas e torneios amadores.
📍 1945–1950 – O Macapá se destaca nos primeiros campeonatos locais,
tornando-se referência técnica no futebol do Território do Amapá.
📍 1952 – Conquista o primeiro título do Campeonato Amapaense, entrando
para a história como um dos pioneiros do futebol local.
📍 Década de 1960 – Início da lendária rivalidade com o Trem Desportivo
Clube, dando origem ao clássico mais tradicional do estado: o Clássico do Pão
com Ovo.
📍 1970–1980 – Consolidação como potência estadual, revelando craques e
ampliando sua torcida.
📍 1990–2000 – O clube mantém viva sua tradição, investindo em novas
gerações e fortalecendo as categorias de base.
📍 2010 em diante – O Macapá segue como símbolo de resistência e memória
esportiva, representando a paixão do povo amapaense pelo futebol.
O Orgulho Azul da Cidade
Mais do que um clube, o E.C. Macapá representa uma história
viva do povo amapaense — uma história de superação, de amor ao esporte e de
identidade cultural.
Cada uniforme azul que entrou em campo ajudou a construir um
capítulo dessa trajetória que mistura emoção, rivalidade e paixão pela bola.
Fonte: Acervo histórico compartilhado por Sabá Ataíde,
colaborador do Porta-Retrato.
Imagem: Uma das primeiras formações do Esporte Clube Macapá (Recorte de Jornal)
A lembrança de hoje é um registro especial do acervo do amigo Floriano Lima: uma imagem rara da Área Portuária de Santana, capturada entre o final dos anos 1960 e o início da década de 1970. Esta fotografia retrata um momento marcante na história da ICOMI no Amapá, fortalecendo a memória do desenvolvimento industrial e portuário da região.