GIGANTES DA COMUNICAÇÃO TUCUJU
Contador: Humberto Moreira
O Sapiranga
Macapá ainda era somente a capital de um longínquo
Território Federal, criado por Getúlio Vargas na década de 1940. A
administração, comandada pelo Capitão Janary Nunes, começava a implantação de
ferramentas que beneficiariam a população crescente, composta quase sempre de
funcionários públicos e suas famílias. Dentre esses mecanismos estavam os
colégios construídos pelo governo. Um deles era a Escola Industrial atuando no
modelo semi-internato, que recebia jovens da capital e do interior nos diversos
cursos profissionalizantes. Lá os alunos escolhiam entre Fundição, Gráfica,
Eletricista, Alfaiataria, Tornearia etc. A Escola era o sonho de muito aluno
que almejava entrar no mercado de trabalho conhecendo uma profissão.
Do curso de serviços gráficos saíram muito jovens que
participariam do trabalho de divulgação do Diário Oficial do Território.
Orientados por profissionais vindos do Estado do Pará (principalmente), esse
grupo passou a atuar também nas oficinas de publicações impressas como a Voz
Católica e outros jornais que circulavam na Macapá de então.
E foi na gráfica da Voz Católica que conheci aquele sujeito
magérrimo, bem falante e bem informado, que exercia lá a função de tipógrafo.
Eu via quase sempre no Estádio Glicério Marques. Naquela época os jornais eram
compostos de forma manual e antes da impressão o texto era entregue ao tal
tipógrafo, que fazia a composição da página letra por letra para que depois
houvesse a prensagem. Era um processo complicado que hoje se resume em alguns
minutos de trabalho num computador.
Esse meu amigo era do antigo bairro da Favela. Seu nome era Milton Barbosa, mais conhecido por Sapiranga, apelido que ganhou dos seus colegas na Casa dos Padres.
O Sapiranga batia uma bola legal e chegou a ir a São Luiz do
Maranhão numa seleção que disputou um Brasileiro de Futebol de Salão. Ele
também ensaiou uma participação no campeonato amapaense de futebol vestindo a
camisa do Amapá Clube. Não deu muito certo.
A prelazia de Macapá havia comprado uma máquina chamada
Linotipo, para compor a Voz Católica de forma automática, dispensando o uso do
tipógrafo.
Identificado com o mundo futebolístico o nosso Milton, que
torcia também pelo Fluminense, passou da Gráfica para a iniciante Rádio
Educadora. Lá começou sua longa carreira de radialista. E foi de lá que ele
saiu para integrar a Equipe de Esportes da Rádio Difusora, onde eu já estava
havia algum tempo.
A ida do Milton Barbosa para a RDM foi como cair a sopa no
mel. A gente ama o futebol até hoje. Gostávamos muito de pescarias,
intermináveis disputas de bilharito e muito bate papo. Nossa vidinha girava em
torno dos jogos do Campeonato Amapaense, Copão da Amazônia e alguns jogos
amistosos com o time da rádio em lugares como Maruanum, Ambé e Serra do Navio.
Não deu outra. Viramos compadres. Dei o meu Saulo, caçula do
primeiro casamento, pra ele batizar tendo a Crioula (já falecida) como
madrinha.
A gente estava em Boa Vista RR quando a Radiobrás instalou
aqui a Rádio Nacional substituindo a Difusora. Aliás recebi um Fax informando
que, daquele dia em diante, seria Rádio Nacional de Macapá. Falei pro meu
compadre que perigava a gente ficar fora do quadro da nova emissora. Voltamos
de Roraima com o coração na mão. Mas quando chegamos fomos chamados pela
administração para assinar contrato. Creio que se a gente não estivesse
transmitindo o Copão teria sobrado. E trabalhamos juntos no jornalismo cotidiano,
no rádio esportivo e até na administração da emissora, já que assumi por um
período a gerência da casa.
Eu saí antes dele. A Radiobrás ficou no Amapá por 10 anos,
mas eu saí um ano antes da Nacional ser devolvida. Veio o concurso para o
governo do Estado e eu fui um dos primeiros aprovados na categoria de Agente de
Comunicação Social. Lá fui eu de volta para a RDM e o Sapiranga estava lá.
Continuamos nossa longa amizade.
A vida avança e a idade faz suas cobranças. Meu compadre
velho de guerra adoeceu e teve que se afastar do rádio. O nosso Sapiranga foi
acolhido por uma filha no município de Santana, onde fincou raízes e começou um
longo tratamento. Confesso que não o vejo há mais de uma década. Contaram-me
que ele esteve na festa de aniversário do Glicério Marques e perguntou por mim.
Infelizmente não pude comparecer. Mas quero deixar aqui o meu agradecimento
pela substancial ajuda que recebi desse ser humano fantástico chamado Milton
Barbosa. Mesmo estando tanto tempo longe lembro de tudo que desenvolvemos na
radiofonia amapaense, através deste veículo fascinante que é o Rádio. Saiba que
o seu nome é uma bandeira da comunicação deste Estado. Sei que Deus é justo. E
se ele tiver uma rádio lá em cima e me for dado o privilégio de escolher a
minha equipe, você será um dos primeiros a ser chamado. UM ABRAÇO MEU COMPADRE.
Via Facebook