Um texto memorável de Milton Barbosa
Milton Sapiranga Barbosa, um amigo de longa data e meu contemporâneo na cidade de Macapá, está na faixa dos 80 anos. Em 1968, trabalhei com o Sapiranga no Jornal “A Voz Católica”, enquanto aguardávamos o início das transmissões da Rádio Educadora São José. Logo após, nos reencontramos na emissora católica do Amapá.
Milton, assim como eu, também passou pela Rádio Difusora de Macapá. O “Sapiranga” é uma verdadeira lenda de Macapá.
Imagine um tucuju que tem um profundo conhecimento sobre sua região de origem, sobretudo sobre a Macapá do passado. Sapiranga está familiarizado com todos os protagonistas dessa história. Principalmente os habitantes da Favela, Laguinho, Trem, Centro, Bairro Alto e Baixada da Olaria; ele tem conhecimento de tudo e está por
dentro da trajetória de cada pessoa.
No que diz respeito ao esporte, é indiscutivelmente um especialista.
É isso mesmo, este é o nosso Sapiranga!
E não é por acaso que ele, devido à sua habilidade e entendimento aprofundado, foi nomeado Consultor de Questões Memoráveis no blog Porta-Retrato.
E, vale ressaltar: tem desempenhado com excelência e compromisso esse papel.
Ao Milton, um forte abraço repleto de recordações desse estimado “senhor Tucuju”!
Trago um texto dele, sobre um TEMA MEMORÁVEL, DA “CIDADE DO MEIO DO MUNDO”, que fala sobre...
Seu Antônio, brasileiro, sim, senhor!
Milton Sapiranga Barbosa
O bairro da
Favela foi pródigo de figuras inesquecíveis. Tinha a Tia Guilherma, que os mais
velhos, para meter medo na molecada diziam que se transformava em uma grande porca
para comer criancinhas choronas e desobedientes. Seu Nestor, apelidado de
“pardal”, em referência ao personagem de histórias em quadrinhos que vivia
inventando. Tinha o Licatéro, Kitut, Eleuzípio Bem Bem e o seu Raimundão
“paraquedista”, os dois últimos já homenageados em crônicas anteriores.
Hoje quero
falar do Seu Antônio, que por muitos anos trabalhou na cozinha do Hospital
Geral de Macapá, tendo como companheiros, seu Alicio, Holanda, Acapú e meu tio,
por parte de pai, conhecido como Manoel Delapada (não me perguntem porque
Delapada, pois até hoje não sei).
Naquele tempo dava gosto provar a comida feita pelas mãos desses cinco cozinheiros, que se vivos fossem, hoje seriam chamados de chefs.
Seu Antônio,
quando de folga, gostava de tomar umas doses da branquinha e era então que
revelava duas qualidades que nunca vi, até hoje, em outro ser vivente.
Tão logo
saia do Bar Popular ou da Mercearia do Cacú, arrancava uma folha de mangueira,
dobrava-a ao meio e saia tocando, com uma nitidez incrível, o Hino Nacional Brasileiro,
daí ter ganho o apelido de Antônio Brasileiro. Essa era uma de suas
habilidades, a outra, que achava ser a mais espetacular, era o equilíbrio que
demonstrava quando andava sobre a calçada de meio fio, cuja largura não alcançava
um palmo. Sempre tocando o Hino Nacional na folhinha de mangueira, ele andava
um quarteirão de avenida sem cair, mesmo estando mais pra lá do que pra cá. Só
quando pisava no chão batido é que dava umas cambaleadas, demonstrando que
havia tomado umas e outras.
Sempre que
ele passava tocando o hino nacional usando como instrumento uma folha de
mangueira e andando na calçada de meio fio sem cair, era seguido e aplaudido
por uma leva de moleques.
Crianças e
adultos adoravam seu Antônio, brasileiro, sim senhor, pois era educado,
respeitador, não dizia palavrões e nem tirava gracinhas com as mulheres. Seu
Antônio, viveu por muitos anos em Macapá, mudando-se depois com a família para
o Rio de Janeiro. Seu Antônio Brasileiro já nos deixou, mas ainda vive entre
minhas boas lembranças da infância feliz, vivida no meu querido Bairro da
Favela.
Fonte: Blog da Alcinéa Cavalcante
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