sábado, 23 de março de 2013

Arlindo Eduardo Correia: O Último dos Coronéis


O pioneiro, Arlindo Eduardo Correia, chegou à cidade de Amapá, em 1921, já com a patente de Coronel da Guarda Nacional, levando em mãos uma carta de apresentação feita pelo Capitão Polidoro Rodrigues Coelho, endereçada ao Coronel João Franklin Távora, fazendeiro de centenas de cabeças de gado e chefe político do Município.

       Arlindo Eduardo Correia nasceu na cidade de Caucaia (antiga Souza) CE, em 13 de outubro de 1889. Cidadão trabalhador e cheio de vontade de vencer, solicitou a Franklin Távora que o apresentasse às autoridades do lugar, onde negociou a compra de um pedaço de terras na localidade Cruzeiro, dedicando-se ao plantio de cana de açúcar, verduras, legumes e árvores frutíferas. Um ano depois residia numa casa por ele construída, administrando o primeiro engenho de açúcar no Município. Em 1922 conheceu Romilda Gomes e com ela se casou no dia 15 de julho de 1923 e viveram juntos 53 anos, até que a morte os separou. Arlindo Correia investiu seus lucros na compra de terras no lugar Igarapé Novo e lá foi colocando as reses que adquiria. Chamou sua gente do Ceará e foi assentando nos "tesos"(1) existentes nos lagos da área de sua propriedade, dando a cada chefe de família algumas vacas e um touro para tomarem conta. Esses "retiros" foram prosperando, para satisfação de Arlindo Correia, que implantara o método de trabalho em parceria, doando, anualmente, um percentual por bezerros nascidos. A forma de tratar as pessoas, fossem familiares, empregados ou da comunidade, transformou-o num líder, passando a tomar parte nas decisões administrativas e políticas do Município. A sua participação na revolta contra as arbitrariedades praticadas pelo Juiz de Direito Dr. Leprout Brício e pelo Intendente Dr. Renato Savanah, foi decisiva.         O Coronel Arlindo reuniu com o Capitão Farias, Major Távora, Noé Andrade, o tabelião Ancelmo e decidiram escrever ao Coronel João Franklim Távora, já residindo em Belém, solicitando sua interferência junto ao Governador para solucionar o problema. Enquanto isso, a situação piorava em razão da denúncia feita por Ancelmo Vieira, publicada nos jornais "A Gazeta" e ''Província do Pará" contra as violências praticadas na qual dizia: "Esses senhores por serem contrários à política do Governador foram deportados para o Amapá e a reação deles é contra o povo que nada tem com isso. São uns doentes mentais". O Intendente mandou prender a ferros Ancelmo e Noé Andrade por reagir contra a prisão, desrespeitaram a família de Ancelmo. A resposta de Franklin Távora foi lacônica: "Não há interesse do Governador em trazer esses senhores para Belém. Só quero ver se não existem homens no Amapá ... “. Desta forma o Coronel Arlindo convocou todos os líderes em sua residência e decidiram tirar da prisão os senhores Noé Andrade e Ancelmo e, no dia 17 de dezembro de 1926, o Capitão Farias, fazendeiro; Martinho José Barreto, criador; João Anastácio dos Santos, dentista; Agripino Murta, ex-cabo do Exército; Júlio Pontes, criador, e diversos pequenos criadores e seus caseiros chegam à cidade, se dividem em grupos e, conforme o plano traçado, cercam as residências das autoridades enquanto Arlindo e seus caseiros invadem a cadeia e soltam os dois injustiçados Noé e Ancelmo e, no lugar deles, são colocados o Intendente, o Juiz, o Chefe de Polícia e o Tabelião Américo. O fazendeiro Noé Andrade recebeu a missão de levar ao Governador, através de carta assinada por Arlindo comunicando os fatos, alertando que qualquer reação armada do governo resultaria em sentença de morte dos prisioneiros e de centenas de amapaenses. O navio D. Pedro II chegou no Amapá no dia 9 de fevereiro e foi obrigado a lançar âncora abaixo do "encruzo". O comandante foi autorizado a desembarcar os representantes do governo, no total de cinco pessoas, entre os quais estavam Dr. Francisco Monteiro, major Nalasco e o tenente Machado.
     Após o encontro desses senhores com os líderes revolucionários, foram aceitas as propostas destes e embarcados os prisioneiros e familiares para Belém, assumindo a Intendência o Dr. Francisco Monteiro, o major Nolasco a Delegacia de Polícia e o tenente Machado passou a exercer as funções de tabelião. Os fazendeiros Coronel Arlindo Correia e o Capitão Farias comentaram desconfiados a facilidade com que foram aceitas as condições dos revoltosos. Isso tinha cheiro de traição, disse Arlindo a seu amigo Agripino Murta. As novas autoridades se aproximaram da população e começaram a adquirir confiança.
        Mesmo assim, quando Arlindo recebeu o convite do intendente para participar dos festejos do "Divino Espírito Santo", desculpou-se e mandou uma rês para o leilão. O Coronel soube que tinha chegado ao Amapá um grupo de homens da Polícia Militar do Pará e estava sempre desconfiado. O que Arlindo e Farias temiam, aconteceu.
     Durante a animação da festa regada de refrescos, bolos, "pinga" e a competição nos lances dos objetos leiloados, Dr. Francisco, Major Nolasco e Ten. Machado percorriam sorridentes, cumprimentando as famílias e, sem qualquer vislumbre de suspeita, convidavam para um licor e uma pequena ceia na casa do Major. Quando houve a demora de retorno ao arraial, para surpresa de todos, estavam os líderes aprisionados. Houve a tentativa de reação, mas o plano fora bem urdido. Precisavam dar uma lição nesses amapaenses de narizes arrebitados.         Agripino Murta conseguiu fugir, partindo em direção à casa do Coronel Arlindo, sugerindo que fugisse imediatamente, porque as autoridades consideravam-no o principal lider. Arlindo juntou seus homens de confiança, deu instruções para a guarda de sua família e a defesa da fazenda e partiu em direção ao Lourenço, acompanhado de seus empregados Lauriano de Moraes e Manoel Paulo. No dia 27 de maio de 1927, chega às terras do Coronel uma patrulha composta de 12 soldados, 7 cabos, 1 sargento, 1 tenente e 3 elementos da cidade considerados traidores. Não encontrando Arlindo, prenderam a sua esposa Dona Ronilda e suas filhas de criação Josefa da Silva Ferreira e Maria Gomes da Silva em um quarto, enquanto os soldados vasculhavam toda a casa em busca de riquezas e destruíram móveis e objetos de uso pessoal. A depredação continuou com a matança de reses, espancamento dos empregados e destruição de cercas. Após essa devastação, partiram no rastro do fugitivo. Não foi possível prendê-lo porque seus arrugos, liderados por Agripino, já se encontravam em Calçoene com um grupo de 26 homens e a francesa de Caiena Madame Olivia e sua empregada, que acompanharam o lider revolucionário até Lourenço, instalando-se no lugar denominado Lataia.
   Enquanto isso acontecia, os Tenentes-Coronéis Zacarias Limeira e Otavio Accioly Ramos, este exercendo o cargo de Intendente de Macapá, se juntaram a Franklim Távora e outros membros importantes da Guarda Nacional de Macapá e Belém, exigindo do Governador Camilo Salgado e, no mês de outubro de 1927, conseguiram terminar com as perseguições. Arlindo enviou Lauriano com instruções para Dona Romilda e iniciou a recuperação da fazenda e somente retomou no início do mês de dezembro, quando visitou a casa de todos os seus amigos que participaram de sua odisseia com valentia e lealdade, entre esses Lauriano Morais, Leovegildo Costa, os irmãos Raimundo e Francisco Camelo, Teodósio da Silva, Manoel Caxias, Domingos de Abreu e o velho Palmerim.
      Levou para residir na sua casa a francesa madame Olívia e sua empregada que lá permaneceu até seus últimos dias. Após cumprir todos esses compromissos, iniciou melhoria dos casos dos vaqueiros, dividiu em retiros e chamou os seus amigos Laureano, Leovegildo, Raimundo Camelo, Chico Camelo, Domingos de Abreu e Teodósio e entregou a cada um deles 10 vacas, 1 touro, 2 éguas, porcos, carneiros e aves para administrarem. Seu prestígio atravessou as fronteiras do Amapá e até mesmo o título de Coronel ele não perdeu quando o Presidente Marechal Hermes da Fonseca extinguiu a Guarda Nacional. Arlindo Correia a foi nomeado Prefeito de Amapá no período de 1930 a 1932, pelo Governador Coronel Magalhães Barata, tendo Agripino Murta como Secretário.
     Em 1950, visitando suas terras auríferas no Lataia, descobriu o filão "Escada de Ouro", entregando a administração a seu sobrinho Moacir Gadelha. Com a criação do Território do Amapá foi reconhecido como líder pelo Governador Janary Nunes, que levava a Arlindo todas as decisões tomadas que envolvessem o Amapá. A personalidade séria do Coronel Arlindo Eduardo Correia impunha respeito. Não era temido, era admirado. O casarão do Igarapé Novo, com Dona Romilda, seus filhos Edilson, Laércio, Maria das Dores, Delfina, EIson, Edson, Maria do Espírito Santo e Áurea, os caseiros, madame Olívia recebiam a todos que ali chegavam de braços abertos. Os prefeitos do Amapá tinham em Arlindo um conselheiro, e o Governador Janary, o deputado Coaracy, os Promotores João Telles e Hildemar Maia, os Juízes Uriel Sales, Jarbas Cavalcante e Aurélio Buarque dedicavam a maior estima ao "último dos coronéis". Em 1944, trouxe do Ceará o seu primo Francisco Francine Cavalcante que passou a colaborar na administração da fazenda. Adquiriu uma casa em Macapá para acomodação dos netos estudantes, de 2 filhas que já trabalhavam e para se hospedar quando vinha tratar de negócios.           
       Arlindo Correia faleceu no dia 5 de julho de 1986, com 97 anos, cercado da esposa, filhos, netos, bisnetos e centenas de amigos que foram dar o adeus a um dos mais ilustres personagens do Amapá: O último dos coronéis.

Fonte: Livro "Personagens Ilustres do Amapá,  Vol. 1" de Coaracy Sobreira Barbosa - Edição de 1997.
(1)  Parte elevada do terreno que, numa superfície inundada, fica acima do nível das águas

Um comentário:

  1. Agradeço por relembrar a vida do meu avô. Foi alegria e muita... muita saudade que li, e reli o relato postado. Sou grata por este momento.
    Att.,
    Shirlene Correia (filha do Elson Correia)

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