A Foto Memória de hoje,
relembra a figura de um Pioneiro da Segurança Pública.
(*)Por Reinaldo Coelho
“Raimundo Moura do
Nascimento, o Gatão, filho de Benedito Ferreira do Nascimento (mestre de obra e
marceneiro, falecido) e Josefina Moura do Nascimento (dona de casa, falecida),
nascido em 26 de dezembro de 1932, no município paraense de Chaves e que se
vivo fosse estaria completando 84 anos de idade.
O casal Benedito e Josefina foi para Macapá em 1939, quando o nosso pioneiro tinha sete anos de idade
fugindo da Malária e da Febre Amarela, que matavam a rodo na década de 30 crianças e adultos, nos municípios ribeirinhos amazônicos. O casal que tinha
gerado três filhos, duas meninas e um menino, já havia perdido as duas
primogênitas em mortes seguidas, e com medo da perda do caçula, procuraram
Macapá, onde poderiam encontrar recursos para tratar a criança que já
apresentava sinais de ter contraído a doença.
Lá chegando, a família Nascimento
se estabeleceu na antiga Rua da Praia, hoje a Orla de Macapá, local onde o
referido marceneiro e carpinteiro começaria a trabalhar com sua profissão junto
aos empresários locais, caso dos Zagury e Alcolumbre.
Nesse mesmo tempo, Dona Nenê, como era conhecida a matriarca da família, lavava roupa pra fora, e o garoto Raimundo Moura era o entregador, além da sua venda de hortaliças de quintal que a vizinhança adquiria por consideração à mãe batalhadora. Infância vivida como qualquer garoto, porém tinha as rédeas severamente controladas pela genitora.
Com a
transformação do Amapá em Território Federal, e o crescimento do emprego, através
da construção de escolas e outras obras estruturais, mestre Benedito passou a
trabalhar em várias obras do novo governo que estava estruturando a cidade para
receber os servidores do governo. Mestre Benedito foi responsável da construção
do telhado da residência governamental, Hospital Geral de Macapá, Maternidade
de Macapá, entre outras, e Dona Nenê passou a lavar as roupas dos diretores, do primeiro escalão do governo, e do próprio governador Janary Nunes. Enquanto
isso o jovem Raimundo Moura frequentava a escola (Barão do Rio Branco) e o
Grupo Escoteiro Veiga Cabral fundado em 1945.
Foi membro da Associação de
Escoteiros do Amapá (primeiro nome do grupo Veiga Cabral) e que tinha como sede
a Praça Veiga Cabral. O nome foi dado em homenagem ao herói Francisco Xavier da
Veiga Cabral. Apenas um dos fundadores do grupo continua vivo, o senhor
Raimundo Barata, que atualmente mora em Belém, aos 88 anos de idade.
Nesse
grupo de escoteiros era onde os jovens colocavam toda sua energia juvenil e
onde recebiam orientação de civismo dos chefes escoteiros Clodoaldo Nascimento,Humberto Dias, Glycério de Sousa Marques, entre outros.
Raimundo Moura, ganhou o
apelido de “Gato” num acampamento de escoteiros, por ter se saído bem, em uma
disputa esportiva, ao realizar com êxito um salto de considerável altura, um
mortal difícil, caindo em pé. O apelido, mesmo após seu falecimento, continua
sendo sua referência, pois poucos o conhecem por Raimundo Moura, mas sim pelo
famoso apelido de Gatão e recorrente.
Mulherengo e um exímio pé de valsa, além
de cantor mediano e bom de copo, Gatão escreveu sua história na boemia
amapaense como conquistador e “brigão”, e sua fama percorreu o Amapá. Quando
chegava nos bares e boates de “má fama” os frequentadores e proprietários, a
macharada, se inquietavam e as mulheres se arrepiavam, pois além do apelido se
encaixar na habilidade, se confirmava pela postura garbosa do jovem mancebo.
Posição
que se confirmou com a conquista da jovem Zoraide Coelho do Nascimento, com
quem se casou e teve um casal de filhos, além de ter adotado os outros cinco de
outro relacionamento. Gatão tinha na época 17 anos e Zoraide 18, o que
necessitava ter a autorização dos pais para concretizarem o matrimonio, e com a
interferência do então promotor público, Hildemar Maia, que foi padrinho do casamento.
Após o casório, Raimundo e Zoraide foram para Belém do Pará, onde Gatão serviu
o “Tiro de Guerra”, período em que gerou a primogênita do casal, Maria das
Graças Coelho do Nascimento.
Nessa época o Decreto Lei n° 5.839, de 21 de
setembro de 1943, estabeleceu a criação de uma Guarda Territorial, de caráter
civil, para os Territórios onde a mão de obra fosse escassa. A Guarda
Territorial, ou saudosamente chamada GT, abrigava jovens que mesclavam suas
missões de segurança pública e de construção civil.
Ao retornar a Macapá, com o
cumprimento do serviço militar, Moura foi engajado na recém-criada Guarda Territorial
do Amapá, pois o Território crescia na razão direta em que surgia a necessidade
de aprimoramento da GT. Havia carência de uma força que se voltasse
especificamente à Segurança Pública.
Mais um marco diferencial de Gatão, devido
a sua habilidade e o interesse pelo serviço mecânico e de direção de automóvel,
quando foi criada a Guarda de Motocicleta e ele então assumiu o comando do
Grupamento Motorizado que prestava ‘guarda’ às visitas oficiais e de
autoridades do Território, os “batedores”, que eram a atração maior nos
desfiles da semana da Pátria e do Território. E mais, “cartaz” com as mulheres,
pois acompanhou as comitivas dos Presidentes do Brasil que visitaram o Amapá.
O
serviço de policiamento passou a ser realizado pela Guarda Territorial, apoiando
as delegacias, com armamento e pessoal de apoio. Os delegados eram Oficiais,
enquanto que os comissários eram inspetores da Guarda. Em 1945 todas as sedes
dos municípios foram dotadas de um Delegado, um Escrivão, além de guardas.
Mas
Raimundo Moura do Nascimento também atuou no setor privado, foi “motorista de
praça”, motorista de carros basculantes de alto porte, na construção da barragem
Hidrelétrica de Paredão, depois denominada Hidroelétrica “Coaracy Nunes”, com
treinamentos em Minas Gerais pela Techint Engenharia e Construção, isso em
1961. Essa experiência lhe garantiu, após a aposentadoria, retornar à
hidroelétrica como Chefe da Segurança por dois anos na década de 90.
Regressando na década de 80 às atividades policiais, com a extinção da Guarda
Territorial, transformada em Polícia Militar, e sendo servidor público federal,
pode optar e escolheu a Polícia Civil, pelo contagiante faro investigativo.
Como policial civil ocupou provisoriamente a titularidade de diversas
delegacias do interior, como o ‘Beiradão’, formado por palafitas em longo
trecho das margens do rio Jari (conhecida como a maior favela fluvial do
mundo), com todas as mazelas sociais, agravadas pela violência e pela
prostituição, onde hoje é o município de Laranjal do Jari.
Também trabalhou na
Delegacia de Oiapoque, exercendo a titularidade da delegacia local, por falta
de delegado. Última delegacia em que trabalhou foi a de Porto Grande, onde se
aposentou e morou por mais de 15 anos, constituindo sua terceira família,
passando a morar em Ferreira Gomes, local em que faleceu e foi sepultado.
Os
guardas territoriais sempre souberam demonstrar, ao longo dos anos, o valor do
pioneirismo, diante das dificuldades apresentadas ao advento da criação do
Amapá, através da união, com destemor, ordem e galhardia, marcando sobremaneira
as tradições da organização policial que eles serviram e dignificaram.
Raimundo
Moura do Nascimento deixou essa vida amando a todos com sofreguidão. Seu legado
a este mundo foram seus 21 filhos, sendo cinco do coração; amou muitas mulheres, tanto
que teve três casamentos. Porém, uma nunca saiu de seu coração, Zoraide Coelho
do Nascimento, a quem amou até o fim de seus dias. Mesmo divorciados,
continuaram amigos para sempre. Esse amor era estendido aos locais onde viveu,
tanto que escolheu Porto Grande para guardar seu corpo, destruído pela bebida,
pois era dependente do álcool e fumante inveterado, o que lhe rendeu três
infartos e um AVC, causa de sua morte, em 2000.
Existem muitas histórias do
famoso Gatão, destacadas nos ‘causos’ contados por amigos da boemia.
Raimundo Moura do Nascimento,
um homem que amou o mundo e as mulheres. Exerceu seu papel de agente de
segurança pública com responsabilidade, capacidade e altruísmo. Deixou essa
vida ciente de seus erros e acertos e que fez o melhor para ter seu nome
honrado e respeitado.”
(*) Reinaldo Coelho - Diretor de
Jornalismo do Jornal Tribuna Amapaense, e um dos filhos do biografado.
Texto publicado, originalmente, na Edição n° 555, de 06 a 12 de maio de 2017, do jornal Tribuna Amapaense.
A referida matéria - com a anuência prévia do autor - foi devidamente atualizada e adaptada, especialmente para o Porta-Retrato.
Fonte:
Jornal Tribuna Amapaense
(Última atualização dia 08/05/2017)