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sábado, 25 de maio de 2024

PEDRO MAFRA DA SILVA > UM PIONEIRO DO MERCADO CENTRAL

Nosso biografado de hoje é um nordestino que, como muitos outros, aportou no Amapá por vislumbrar novos horizontes nos ares amazônicos. Com esta narrativa, queremos prestar uma justa homenagem póstuma, à memória deste potiguar que muito contribuiu com seu modesto trabalho, em prol do território federal recém criado pela histórica caneta de Getúlio Vargas, em 1943.

Falamos de PEDRO MAFRA DA SILVA - Mafrita para os mais próximos - nascido dia 10 de setembro de 1926, na cidade de Vera Cruz, Rio Grande do Norte. Apesar de seu completo desconhecimento da escrita e da leitura, era exímio conhecedor das operações matemáticas. Depois de uma desilusão amorosa em sua terra natal, aos 24 anos de idade, decidiu se aventurar em terras Tucujus e embarcou em um navio com aproximadamente 120 homens que viriam trabalhar na plantação de seringueira na cidade de Mazagão. O pioneiro Miguel Pinheiro Borges foi o responsável pela condução da jornada, que visava alcançar melhores condições de vida. No início dos anos 1950, já estabelecido na cidade amazônica, enfrentou um surto de malária que resultou na morte de 90 trabalhadores do empreendimento muitos deles, seus amigos conterrâneos. Diante de inesperada situação, Pedro Mafra foi obrigado a trocar de ramo, optando por exercer a atividade profissional de açougueiro no recém criado Mercado Central de Macapá, na época, o principal ponto de compras das famílias amapaenses. Por um período também trabalhou como marchante, distribuindo carne para os açougues da cidade. Em 1958, Pedro Mafra conhece Rachel Uchôa, sobrinha do saudoso pioneiro Binga Uchôa, com quem se une em matrimônio. Em 1959 nasce sua primeira filha, a professora Lúcia Uchôa, logo em seguida chegam os gêmeos, Zozimar Uchôa (Tibá) e Zozimir Uchôa ( Tibi). O casamento do casal teve mais 11 frutos: Lucidete, Lucineide, Josivaldo, Josielson, Laurilane, Lorilene, Pedro, Wellington, Wendel, Wolney e Bertoni

No esporte, seu coração era dividido por dois times futebol: Fluminense e Paysandu. Chegou até a ganhar diploma de torcedor sofredor pelos amigos remistas. Em Macapá, Mafrita possuía uma vasta lista de amigos. 

A amizade mais duradoura ultrapassou décadas, Pedro Mafra e o professor José Figueiredo de Souza, o Savino, eram amigos inseparáveis. Eles diziam que estavam juntos nas primeiras manifestações carnavalescas que deram início à “Banda”, hoje já consolidado o maior bloco de sujos do norte do país. 

Após anos de trabalho nos boxes do mercado central, tendo como companheiros alguns mostrados na foto acima, Pedro Mafra decidiu abrir seu próprio açougue. Ele trabalhou no Bairro Jesus de Nazaré, em um mercadinho de nome “Três Poderes”, localizado na Av. Ernestino Borges, esquina com Rua Leopoldo Machado; teve ainda um segundo açougue, de nome Três Poderes II, localizado na Hamilton Silva com Presidente Vargas, no Bairro Santa Rita e em seus mais recentes dias como açougueiro, trabalhou por muitos anos em um açougue no Mercado Santa Tereza, localizado na Av. Ernestino Borges com a Rua Eliezer Levy, no Bairro do Laguinho. Já na década de 80, Mafra passou a fazer parte do quadro de funcionários da Câmara Municipal de Macapá, onde atuou como segurança. Ele construiu uma residência no número 1197 na Avenida José Antônio Siqueira, no bairro Jesus de Nazaré, entre as ruas Jovino Dinoá e Leopoldo Machado, onde viveu até o último dia da sua vida. Sua esposa, Dona Rachel, faleceu em outubro de 1994. No dia 04 de maio do ano de 2000, após passar mal em casa, Pedro Mafra foi levado às pressas para o hospital de emergências, mas depois de várias tentativas de reanimação, veio a óbito em decorrência de um infarto do miocárdio. O corpo de Pedro Mafra foi velado na capela Santa Rita e sepultado no cemitério São José em Macapá, no bairro de Santa Rita.

Nota do Editor: Agradecimentos ao Bertoni Uchoa filho do biografado, por nos fornecer informações e fotos para montagem e ilustração desta biografia! (João Lázaro)  

quarta-feira, 15 de setembro de 2021

MEMÓRIAS DA CIDADE DE MACAPÁ: AMAPÁ – 78 ANOS MERCADO CENTRAL – 68 ANOS

Crônica de Humberto Moreira

Como não poderia deixar de ser fui ao Bar du Pedro tomar uma cervejinha em comemoração ao aniversário da Cidade que me viu nascer. Vi por lá uma ótima movimentação de pessoas, principalmente de jovens. A juventude precisa se inteirar da história deste lugar para poder ter orgulho do que ele representa para todos nós.

O Mercado Central é um local icônico da cidade. Antes da proliferação dos supermercados, quando só havia um açougue em cada bairro, era no Mercado que a cidade se encontrava para adquirir o alimento diário. Hoje quem tem condições faz estoque, mas naquela época as compras eram feitas todo santo dia. Na companhia de minha avó ou do meu pai (aos fins de semana) lá ia eu carregando uma sacola de pano onde eram colocados os gêneros comprados nos talhos daquele prédio. A cidade era menor e as pessoas quase sempre se encontravam durante as compras. Por causa do costume diário dava para saber os nomes de açougueiros famosos como: Joselito, Zeca Filomeno, Navegante entre outros, que trabalhavam na venda da carne verde que vinha do matadouro municipal em Fazendinha. Os Japoneses que traziam a verdura para a comercialização também eram bastante conhecidos. Os Fukuoka, Fujishima, Kawakami plantavam uma variedade muito grande de legumes. É correto dizer que nossa população cabocla nunca foi muito de comer hortaliças, mas durante muito tempo as famílias japonesas tentaram mudar essa tradição. Infelizmente não conseguiram e os que permaneceram aqui buscaram outros meios de vida.

Nascido no bairro do Trem eu tinha uma relação bem próxima com o Mercado porque minha avó morou por muitos anos na curva que liga a Feliciano Coelho com a Tiradentes. Janary Nunes deu a ela a casa que servira, antes do advento do frigorífico, de local para salgar a carne que sobrava do abate diário. O imóvel foi residência da família por muitos anos e continua sendo patrimônio de parentes. De lá para a Doca da Fortaleza era um pulo. Para um garoto de oito anos era muito fácil descer pela Pedro Baião até a esquina da Casa Califórnia, na São José. Por ali também funcionava a escola do professor Alzir Maia, uma das poucas escolas particulares da cidade. De lá era só seguir em frente e entrar no Mercado. Pela parte da tarde era chegada a hora da víscera. A partir das 03hs da tarde o caminhão do matadouro chegava trazendo coração, fígado, rim e bucho devidamente limpos para serem vendidos à população. A procura era grande pois os preços eram acessíveis às famílias de menor poder aquisitivo. Minha mãe me escalava uma vez por semana para ir ao mercado para comprar fígado ou coração e outros miúdos. Logo após às 13hs eu corria para a fila que se formava na lateral do prédio. Interessante que se marcava a vaga com uma pedra dentro do paneiro e ninguém mudava. Enquanto o caminhão não chegava dava para ir até a prainha por detrás da Fortaleza, para um banho refrescante. No Mercado também havia os fiscais da Delegacia de Economia Popular que estavam de olho nos preços praticados pelos talhos e açougues. Gente como Capa Branca e Praxedes ficavam de olho. Além do Bar Du Pedro, tradicional reduto da Boemia macapaense até hoje, havia também no mercado a Farmácia do Seu Bruno, a Barbearia e uma lojinha de venda de produtos de Umbanda que liberava no ar um cheio de defumação, que ficava queimando sob o balcão. No lado de dentro funcionava o Café do Seu Alberto, onde algumas vezes, já adulto, tomei o café da manhã na companhia do Bebeto Nandes. A gente havia emendado junto com Mário Lucien ou Rudnei Monteiro depois de tocar um baile com os Milionários e descíamos para o Mercado. O pai do Bebeto nos recebia sempre muito bem. Na administração esteve por muitos anos o Seu Marituba. Raimundo Pessoa Borges ficava num deck elevado, de onde observava tudo que acontecia. Ex-jogador do Amapá Clube, Marituba foi também durante anos juiz de futebol da antiga Federação Amapaense de Desportos. Depois dele veio o Laxinha, figura conhecida no bairro por sua ligação com o Trem Desportivo Clube.

E foram tempos maravilhosos em que a cidade era, sem dúvida, mais aconchegante. Nunca perdi minha ligação com o Mercado Central e seus personagens. Olhando agora de dentro do Bar du Pedro as lembranças desfilam na minha saudade. Para fechar vou citar aqui alguns nomes inesquecíveis que são a própria história do bairro:

Belarmino Paraense de Barros, José Malcher, Walter Banhos, Zeca Banhos, Chico Salles, Zé Crioulo, Celso Mariano, Miguel Pinheiro Borges, Durval Mello, Romeu Harb, Abdalla e Stephan Houat, Aziz Gamachi, Nely de Matos, Eurico Vilhena, Franquinho, Zê Valente, Walber Damasceno, Nonato Leal, Seu João do Brunswick, Inspetor Eli Ramalho, Seu Abalen, Seu Anaice, Professor Onualdes Feijão, Vadoca, Turíbio Guimarães, Professor Ricardone, Elza Franco, Dona Doninha... e muitos, muitos outros como o português da saboaria, cujo nome se perdeu nas brumas da minha memória.

Fonte: Facebook (reprodução)

sábado, 11 de outubro de 2014

Foto Memória: O Pioneiro Durval Alves de Melo

Texto: Édi Prado
Em 1987 fui o primeiro editor do Jornal do Dia. E criei a sessão pioneira visando resgatar o pioneirismo dos prédios e pessoas. Todo domingo publicava uma página retratando e registrando os fatos da cidade. A página ganhou importância e as portas foram se abrindo para entrevistar essas pessoas.
Chegar para conversar com o “seo” Durval foi um desafio. Era tido como durão, sem meias palavras e não ria nunca. Era alto, compleição física de domador de búfalo e usava óculos grosso com aro de tartaruga. Ele estava avisado que iria naquele dia e naquela hora. Nem pensar em atrasar um segundo. Ele tinha um parentesco com meu pai. Me identifiquei e ele foi logo perguntando: o que é que tu quer saber? Fala logo que tenho muita coisa para fazer. E foi assim. Mas foi dócil e suave nas respostas e eu todo suado.
O pioneiro Durval Alves de Melo nasceu na cidade de Afuá/PA, em 03 de dezembro em 1924. Saiu da terra natal em 18 de março de 1944.
Contou que seus pais morreram cedo e que foi levado para Belém pela madrinha para trabalhar como carregador de carga. Mas não era este o sonho dele. Não achava muita vantagem nesta profissão. Não vislumbrava um futuro decente. Sem alternativa, fugiu da casa dela.
Na capital paraense, Durval trabalhou na estrada de ferro, depois no Departamento de Limpeza Pública de Belém. E foi lá que ouviu falar de Macapá. Diziam que estavam precisando de mão de obra e o governo estava contratando muita gente.
Ele não tinha o dinheiro para a viagem. Decidiu que tinha que ir para este lugar e resolveu pedir ajuda a um cidadão de nome Tibúrcio Ribeiro de Andrade, dono do barco que fazia linha para Macapá.  Depois de responder algumas perguntas, lhe concedeu uma passagem. Mas só de ida.
Ao chegar ao trapiche Eliezer Levy, encontrou um ancião sentado num banco debaixo de umas mangueiras, bem em frente à cidade. Enquanto conversava com o idoso, ficava olhando os operários que trabalhavam na construção do Macapá Hotel. E nessa conversa descobriu que o cidadão era conterrâneo de Afuá.
Essa coincidência lhe rendeu o convite para se alojar na casa dele até encontrar emprego e um lugar para morar. Um lugar para morar e alimento, já era tudo que precisava naquele instante. Depois ficou sabendo que havia um barraco do governo, uma espécie de albergue, onde ficavam os "imigrantes".
Conseguiu logo um trabalho. O Governador Janary Nunes estava contratando. Falava com orgulho por ter ajudado a construir o Macapá Hotel. Lá ele descascou cebola, batata, e depois passou a ser uma espécie de apontador, que distribuía tarefas, pela facilidade com que dominava os serviços.
Depois foi padeiro, cavou valas para a encanação do primeiro Poço do Mato, o primeiro de Macapá que atenderia a população da pequena cidade. Devido ao porte físico, foi convidado pelo governador para exercer a função na Guarda Territorial onde permaneceu durante sete anos.
Foi um dos primeiros e temidos "guardas", que formaram o primeiro grupo que patrulhava a cidade. Durval dizia que sempre teve ambição por dias melhores. Não tinha vocação para ser empregado. Na folga saia vendendo mercadorias à prestação.
‘Seo’ Durval fez questão de registrar a atuação dele no Garimpo do Vila Nova na Companhia Ramas Exploration, que explorava ferro e outros minérios. E com uma certa economia resolveu deixar a Guarda Territorial. Tinha uma poupança de cem Contos de Réis. Com esse dinheiro, montou o "Urca Bar" na esquina da Av. Feliciano Coelho com a rua Eliezer Levy, no bairro do Trem, iniciando as atividades etílicas e um espaço de encontro noturno.
Depois o badalado C l i p Bar, o barzinho famoso em frente ao Mercado Central. Um ponto perfeito: Parada de ônibus, local dos “carros de praça”, como era chamado o táxi, carreteiros, trabalhadores de um modo geral, bêbados, marreteiros, policiais, um referencial da época.
Era um empreendedor nato. Inaugurou o King Bar, um misto de mercearia/bar, no Igarapé das Mulheres. Foi quando resolveu alçar o grande voo: Comprar o Bar Society. O mais chic e frequentado pela elite. Lá funcionava o bar e restaurante.
Inaugurou também um novo e atraente ponto de encontro da cidade. E nesse embalo foi representante e distribuidor exclusivo das cervejarias Antarctica, Brahma e dos refrigerantes Garoto, Pepsi, Teem e Mirinda.
Em 1987, ano desta entrevista, ‘Seo” Durval já contabilizava duas fazendolas. Uma com 800 cabeças de gado bovino e outra com 800 cabeças de búfalos, além da Casa do Pecuarista, hoje sob a administração dos filhos, também pioneira para atender aos pecuaristas.
Durval Melo, orgulhava-se de ser pioneiro no Amapá, onde dizia que com o fruto do trabalho e da disciplina, investiu tudo na terra que ele adotou como a dele.
Durval Melo, casou-se com Dona Sulamita Fernandes de Melo, em 5 de maio de 1951, com quem gerou seis filhos, sendo quatro homens e duas mulheres.
O Pioneiro Durval Alves de Melo faleceu dia 25 de maio de 2001 e Dona Sulamita faleceu em 1º de agosto de 2011. Ambos estão sepultados em Macapá, no Cemitério Nossa Senhora da Conceição, no Centro da Cidade.
INFORMAÇÃO HISTÓRICA - O Clip Bar foi um pequeno quiosque instalado em frente ao Mercado Central, em Macapá, onde tomava-se café e conversava-se bastante na cidade. Geralmente era frequentado por jornalistas, professores, empresários além da população, antes de ir para o trabalho, e depois das 18 horas, no retorno.
Foi montado pelo empresário Durval Alves de Melo em 25 de março de 1950.
(...)
Em 1967, o governo militar do Amapá resolveu extinguir o local, em razão “da frequência de vários baderneiros que atentavam contra a segurança nacional”. (Edgar Rodrigues) Fonte: blog "Coisas do Amapá"

MEMÓRIAS DO LARGO DOS INOCENTES - FORMIGUEIRO – PARTE 13 – DONA MILICA: LAVADEIRA PIONEIRA QUE ENGOMOU O LARGO DOS INOCENTES COM ALEGRIA E FÉ

No coração do Largo dos Inocentes , um dos bairros mais antigos e pulsantes de Macapá , viveu uma senhora que transformou o suor do trabalho...