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sexta-feira, 27 de outubro de 2023

MEMÓRIA DA JUSTIÇA DO AMAPÁ: DR. AURÉLIO TÁVORA BUARQUE


AURÉLIO TÁVORA BUARQUE - Foi o terceiro Promotor Público a integrar a Justiça do Território Federal do Amapá, iniciando suas atividades em Mazagão. Quando a Comarca foi instalada, a 8 de agosto de 1945, ele já residia na sede do Município e, na data em referência, tomou posse em ato que também deu posse ao Juiz de Direito Eduardo de Barros Falcão de Lacerda. Antes, atuara ao lado dos Juizes de Direito José de Ribamar Hall de Moura, Manoel Cacela Neves e Hélio Mendonça de Campos.

      Rígido no seu mister, o Dr. Aurélio Buarque conseguiu neutralizar, os abusos cometidos pelos gerentes das propriedades do Coronel José Júlio Andrade, no Município de Mazagão, principalmente na filial do rio Cajari. Participou intensamente da vida esportiva, social e política de Mazagão. Em várias oportunidades o Promotor Público foi escrivão ad hoc por ocasião de audiências públicas no Fórum de Mazagão.

O Dr. Aurélio Távora Buarque desempenhou o papel de Promotor Público da Comarca de Mazagão em duas oportunidades. A data da primeira posse está contida neste texto. A segunda posse deu-se a 21 de março de 1952, três dias antes da posse do Juiz de Direito Jarbas Amorim Cavalcanti. Quando, a 9 de dezembro de 1953, o Juiz de Direito João Garcia tomou posse, o Dr. Aurélio Buarque ainda estava em Mazagão. Ele deixou a Comarca de Mazagão em 19 de abril de 1955, quando o Dr. Francisco Alfredo Pereira Viana foi substituí-lo. Entretanto, voltou em 1956.

A atuação do Dr. Aurélio Buarque é bastante significativa. Participou dos trabalhos de organização do Diretório Municipal do Partido Social Democrático, em Mazagão, ocupando a primeira secretaria. A primeiro de maio de 1958, elegeu-se suplente do Deputado Federal Amilcar da Silva Pereira, pela legenda do PSD. A mesma chapa concorreu a 3 de outubro de 1958, obtendo a reeleição para um mandato integral de 4 anos, visto que, o primeiro mandato foi tampão, devido o falecimento do Deputado Coaracy Nunes e do Suplente Hildemar Maia. Em 1962, Amilcar Pereira e Aurélio Buarque foram vencidos pelo Coronel Janary Nunes e Dalton Lima. Pouco tempo depois ele deixou a Amapá.

Texto de Edgar Rodrigues

quarta-feira, 3 de agosto de 2022

MEMÓRIAS DE MACAPÁ: O LEÃO AZUL DO BAENÃO É MACAPAENSE

O LEÃO AZUL QUE ESTÁ NO BAENÃO É MACAPAENSE (E “irmão” dos dois que estão nas sede da OAB/AP, em Macapá)

(Foto: Via WhatsApp)

A icônica estátua do Leão Azul no estádio Baenão, em Belém/PA, foi esculpida em Macapá, pelo português Antônio Costa, cuja oficina de trabalho foi erguida no terreno da Loja Maçônica Duque de Caxias, por trás do templo, localizado à Av. Coriolano Jucá, 451 no Centro da capital amapaense. 

Antônio Costa era maçom e fabricava ladrilhos para piso de residências e órgãos públicos de Macapá, nas cores branco e preto. Os pisos originais do Hospital Geral de Macapá, Maternidade de Macapá, Grupos Escolares, Fórum e de outros prédios eram verdadeiros tabuleiro de damas (mosáicos). 

Os dois leões existentes na frente do antigo Fórum, atual sede da OAB/AP foram esculpidos por ele, a  partir de uma forma confeccionada pelo Sr. Jorge Marceneiro (já falecido) que residia no bairro do Trem, na quadra dos Escoteiros do Mar Marcílio Dias.

O historiador Nilson Montoril cita detalhes sobre a confecção e doação do Leão Azul: “ Meu tio paterno Hermano de Araújo Jucá(mazaganense), apaixonado torcedor do Clube do Remo, encomendou ao seu Antônio Costa, um leão para ser doado ao "Clube de Periçá". Uma vez esculpida, a peça foi pintada de azul. Hermano Jucá era sobrinho de Cândido Jucá, um dos organizadores do "Grupo do Remo", que alterou sua denominação. Na época em que a doação do leão macapaense foi concretizada, integrava a diretoria azulina de Antônio Baena o médico Roberto Macedo, meu primo e sobrinho de Hermano Araújo. Para transportar o leão para Belém, tio Hermano recorreu aos préstimos do cunhado Francisco Jucá do Nascimento, que era o comandante do navio Oiapoque, pertencente ao SENAPP (Serviço de Navegação e Administração dos Portos do Pará). O navio fazia a linha Belém/Oiapoque/Belém, com escalas em Curumum, Curralinho, Breves e Macapá. Numa das viagens, ao aportar em Macapá, o Comandante Nascimento aproveitou a estada para visitar seus parentes, entre eles Hermano Jucá. Ao pedir ao tio Chiquinho Jucá, que levasse o leão para Belém, tio Hermano engoliu em seco a resposta: " levo sim, mas o bicho deve ir enjaulado e acorrentado, acomodado no porão. Não posso deixar os tripulantes e os passageiros correrem risco algum". O Comandante Jucá era torcedor do Paysandu e não iria perder a oportunidade de fazer gozação com o primo. Na volta do navio Oiapoque, o caixote com o leão já estava na cabeça do trapiche Eliezer Levy, pronto para embarcar. Uma outra gozação foi feita ao tio Hermano: " Diz ao pessoal do Remo, que vá receber o caixote na Bacia, senão mando jogá-lo no Guajará". O leão azul nascido em Macapá, continua soberano e ornando o Estádio Evandro Almeida. Ele é cópia fiel dos leões da sede da OAB/AP, em Macapá.”

O monumento permanece no lugar de sempre, no escanteio do gol que fica para a travessa 25 de setembro.

Via Facebook 

sexta-feira, 22 de julho de 2022

MEMÓRIA HISTÓRICA DO AMAPÁ: DESBRAVADOR WALTER PEREIRA DO CARMO

Transcrevemos hoje para os leitores do blog Porta-Retrato – Macapá, matéria do Jornal Diário do Amapá, na Coluna NOTA 10 – publicada em 14/6/2015, que destaca com detalhes a bravura do pioneiro Walter Pereira do Carmo, no Amapá.

Walter do Carmo: a bravura de um pioneiro

Desbravar. Essa foi a essência do espírito de Walter do Carmo. Irrequieto, foi além – abriu praticamente todas as estradas que hoje o Amapá possui. Na área urbana, construiu escolas e clubes, entre outras obras. E ainda foi um exemplo de probidade. Eis a marca de um pioneiro.

Nascido em Prainha, no município de Monte Alegre, no estado do Pará, Walter Pereira do Carmo conhecia o recém criado território federal do Amapá por vir com os pais visitar parentes em Mazagão Velho. Aos 17 anos, já funcionário público com formação técnica em agrimensura, começou, sem saber, a traçar seu caminho para o Amapá. Dizem que sua vinda definitiva se deu ao cumprir uma missão da antiga Comissão de Rodagem do Pará, que depois seria transformada no DEER (Departamento Estadual de Estradas de Rodagem). A missão era, justamente, entregar o projeto da BR 156. Aí foi o começo do saudoso Walter do Carmo. Depois de marcante trajetória, ele morreu no dia 14 de junho de 2014.

Era o decisivo ano de 1951, e Walter, com 21 anos, foi convidado pelo então governador Janary Nunes para ficar no Amapá. Aceitou e começou a trabalhar como encarregado dos Serviços de Melhoramentos, Cortes e Aterros da Rodovia BR 15, atual BR 156. Construiu o ramal do Aporema com 14 quilômetros de extensão.

No dia 13 de outubro de 1951 iniciou a implantação pioneira do trecho Base Aérea de Amapá-Calçoene, numa extensão de 76 quilômetros.

Em 1952, durante o inverno, operou nas medições de volume das águas do rio Araguari, na Cachoeira do Paredão, onde seria construída a Hidrelétrica Coaracy Nunes. No dia 17 de setembro, concretizou a ligação do trecho Base Aérea de Amapá-Calçoene e imediatamente iniciou a construção do trecho Calçoene-Lourenço. Nesse mesmo ano efetuou os estudos para a ligação rodoviária Ferreira Gomes-Cachoeira do Paredão e iniciou o desmatamento para a construção do Porto de Santana.

De 1953 a 1955 concluiu o trecho Calçoene Lourenço, com 116 quilômetros. Construiu os ramais de Cachoeira Grande e Juncal e o campo de pouso de Calçoene. 

Na cidade de Amapá conheceu Helita Ferreira dos Santos, filha de um pecuarista, com quem casou seis meses depois, sendo o governador Janary Nunes um dos padrinhos. Dessa união nasceram sete filhos, Margareth, Walter Júnior, Waldenawer (Keky), Mariângela, Wank, Márcia e Walber.

Em 1956 executou para o governo do Amapá várias expedições de pesquisas minerais, destacando-se a prospecção de xisto betuminoso na região do rio Cajari, e bauxita e magnetita nas regiões do Jari, Tartarugal Grande, Tartarugalzinho e rio Cassiporé.

Em 1958 surgiu a oportunidade que mudaria o rumo de sua vida e dos amapaenses. 

Pauxy Nunes, irmão de Janary, assumiu o governo e priorizou a continuação da abertura da rodovia em direção ao Oiapoque, que passava em aldeias indígenas. 

O medo de enfrentar os índios, que tinham pouco contato com a civilização, dificultava a contratação de empresa. Sem dinheiro, mas muita vontade de começar o serviço, fundou a Construtora Comercial Carmo Ltda..

“Se aqui chegamos, muito mais longe iremos”

(Walter do Carmo, ao chegar em Oiapoque)

Em 1965 as máquinas pesadas, nunca antes vistas por aqui, chegaram via marítima, e o serviço começou. A estrada era aberta até Amapá, e a missão era chegar até à fronteira. Foram meses embrenhado nas matas com homens e equipamentos, abrindo o caminho que até então era percorrido por poucos. Entre Macapá e Amapá, já chefe de família, Walter do Carmo viveu todas as particularidades de um desbravador, quando o mundo oferecia poucos recursos para aventura, como a abraçada pelo então empreiteiro.

Nesse mesmo ano construiu o ramal Cupixi-rio Vila Nova, com 30 quilômetros de extensão e o campo de pouso da localidade de Gaivota, no rio Vila Nova. Construiu ainda a rodovia Macapá-Macacoari com 150 quilômetros de extensão.

“Nunca fui rico, apenas tinha crédito na praça”

(Walter do Carmo)

De 1966 a 1970 construiu o Ginásio Paulo Conrado, a Escola José de Alencar, um pavilhão do IETA, (Instituto de Educação do Amapá), Escola Princesa Isabel, Biblioteca Pública, hoje Biblioteca Elcy Lacerda, 17 casas para funcionários do governo, dois pavilhões do Grupo Escolar Alexandre Vaz Tavares, o Fórum da Justiça Federal, inaugurado pelo presidente Costa e Silva, 21 pontes de madeira sobre pilares de concreto ao longo da BR 156, no trecho Lourenço-Oiapoque, e melhoramentos em 200 quilômetros de caminho de serviço da rodovia e centenas de reformas em prédios públicos.

No dia 24 dezembro de 1970, em um pequeno Jeep, Walter do Carmo, na companhia de Zé Grande e do mestre Ouvídio, escoltados por uma Toyota dirigida por Vicente Cabraia, conseguiram chegar até ao Oiapoque

E após 16 anos, como foi acertado com Janary Nunes, a BR 156, que liga Macapá à fronteira, foi entregue ao então governador Ivanhoé Martins.

De 1971 a 1972 executou serviços de terraplanagem com equipamentos pesados no trecho Calçoene-Lourenço e consolidou o caminho de serviço no trecho Lourenço-Oiapoque, restaurou os ramais do Apuema e Tucunaré e fez o revestimento e obras de artes no trecho Ferreira Gomes-Amapá- Calçoene.

De 1973 a 1975 iniciou e desenvolveu a implantação básica da BR 156 no sentido Norte-Sul, trecho Oiapoque-rio Cassiporé, implantando toda a infraestrutura, incluindo porto para desembarque de equipamentos pesados, fábrica de manilhas de concreto armado; campo de pouso no km 64. 

Participou da construção dos primeiros seis quilômetros da rodovia Perimetral Norte em colaboração com a Construtora Mendes Júnior e hospedou na Fazenda Nossa Senhora do Carmo (105) toda a equipe responsável pela implantação da rodovia e a comitiva do presidente Emílio Garrastazu Medici, incluindo os ministros Mário Andreazza e Costa Cavalcante.

Em 1975, o governo do Amapá decidiu modificar o traçado da rodovia, abandonando 250 quilômetros já construídos. O contrato foi com a Construtora Carmo.

Além da BR 156, Walter do Carmo foi o responsável por levar o progresso para outros cantos do território. Foi ele quem abriu os ramais para que veículos entrassem mais facilmente nos municípios de Amapá e Calçoene, Base Aérea do Amapá e para a localidade Lourenço. Construiu ainda campos de pouso em Tartarugalzinho, Calçoene e Cunani.

Tudo corria bem até que o contrato com o governo foi rescindido na administração de Artur Azevedo Hening, em 1975, ignorando uma das cláusulas que previa o translado do maquinário para a capital. As máquinas utilizadas na construção da BR 156 ficaram abandonadas ao longo do primeiro traçado da estrada e jamais recuperadas. Pela quebra do acordo contratual foi movida uma ação contra o território, que foi vencida pelo empresário muitos anos depois, quando a Construtora Comercial Carmo Ltda. já estava fechada. O dinheiro serviu para pagamento de indenizações trabalhistas e multas do INSS.

Construtor, pioneiro, desbravador e aviador

Nos anos 70 Walter do Carmo construiu os clubes mais bem frequentados, Círculo Militar, Macapá e Amapá Clube. Além de desbravador e construtor, Walter gravou seu nome na história do Amapá como pioneiro, palavra que levava ao pé da letra. Foi um dos fundadores do Lions Clube, Maçonaria, Igreja Messiânica e sua paixão: o Aeroclube.

Realizou um sonho de infância em seus anos de ouro, quando se tornou aviador. Ao conhecer o boliviano capitão Belarmino Bravo, juntou seu desejo e espírito empreendedor à paixão do visitante, e juntos formaram a primeira turma de pilotos “brevetados” da cidade, e fundaram o Aeroclube de Macapá, em 1956. 

Na turma estava Hamilton Silva, que morreu em 1958, no acidente de avião em que também faleceram o deputado Coaracy Nunes e seu suplente Hildemar Maia. Diziam na época que estava prevista a ida de Walter do Carmo nessa viagem.

“Prefiro dormir sem ceia do que acordar com dívida” (Walter do Carmo)

Em 1985 o governador Jorge Nova da Costa, acreditando no potencial de Walter do Carmo, deixou sob sua responsabilidade o asfaltamento de 50 quilômetros da BR 156. Ele foi buscar no Paraná a empresa CR Almeida para o serviço. No ano de 2003 o governador Waldez Góes o nomeou assessor especial, como conselheiro da gestão, cargo com que sobreviveu até 2010. Ao morrer, dia 14 de junho de 2014, recebia apenas a pensão do INSS.

A ação de milhões ajuizada pelos associados e familiares do Aeroclube, por ter o governo do Amapá instalado órgãos públicos, hoje Centro Administrativo, na avenida FAB, sem desapropriar a área, ainda corre na Justiça do Amapá. Além dos sete filhos com Helita, entre eles o Keky, médico recém formado falecido há 28 anos, Walter deixou mais dois filhos, Walmir e João Vitor.

Texto da jornalista Marileia Maciel

O pioneiro Walter do Carmo, faleceu em Macapá, em 14 de junho de 2014, aos 84 anos.

Fonte: Memorial Amapá

Fotos: Acervo família Carmo

Via Facebook

quinta-feira, 21 de julho de 2022

PATRIMÔNIO HISTÓRICO: FORTALEZA DE SÃO JOSÉ DE MACAPÁ

 A cisterna da Fortaleza

Reservatório de águas pluviais na praça principal da fortaleza - Foto: Tito Garcez

(*) Por Franck Coutinho.

Existe no centro da Fortaleza de São José de Macapá, uma cisterna de armazenamento de água potável, esse sistema foi arquitetado pelo engenheiro militar, Enrico Antônio Galluzzi. Ela foi construída por artífices que estavam a serviço da coroa portuguesa no Brasil, o que chama a atenção nessa construção é o estilo na qual foi construído, faz lembrar o tento do antigo panteão de Roma, Itália, esses detalhes só podem ser observados de dentro da cisterna.

Sabíamos da existência de material especial de construção que veio da Europa para a construção dessa cisterna, mais precisamente os tijolos que foram usados nela, lembrando que os demais tijolos da Fortaleza, foram confeccionados em Belém e a grande parte na Vila de São José do Macapá.  Se observa nos tijolos da cisterna duas marcas de tijolaria, sendo a Cacoalinho (Portugal) e Claytons Patent (Inglaterra).

Dentro existem dutos de água (encanamentos), construídos em pedra de cantaria, que levava água trazida do Rio das Amazonas para dentro da Fortaleza. Com o passar dos séculos, esses dutos entupiram com o barro do Amazonas.
Foto: Cortesia do GT Obdias Araújo]

Esta foto sem data, mostra uma reforma no Sistema de Captação Pluvial da Fortaleza de  Macapá, em cuja estrutura, ficam evidentes as  canaletas convergentes que levam as águas da chuva para a cisterna ao centro do Pavilhão e de lá são drenadas para o Rio Amazonas. (João Lázaro)

Existe uma lenda urbana que se propagou em Macapá, os antigos habitantes da cidade diziam que esse poço serviu para afogar escravos e índios rebeldes, no entanto não há nenhuma evidência histórica desses supostos fatos. Realmente se trata de uma das muitas urbanas da Fortaleza de São José de Macapá, a finalidade era o abastecimento de água para a guarnição militar dessa fortificação militar.

As fotos são do meu arquivo pessoal, registradas no ano de 2016, após a remoção do barro da cisterna, os tijolos da Cacoalinho e Claytons Patent vieram à tona novamente.  Essa é a uma das muitas partes da história do Amapá, Brasil que nunca foi ensinada nas escolas e universidades do estado do Amapá.

(*) Franck Coutinho, professor de história e historiador

Fotos: Franck Coutinho (arquivo pessoal)

Via Facebook

sábado, 4 de junho de 2022

MEMÓRIAS DA CIDADE DE MACAPÁ: TRAPICHE “ELIÉZER LEVY”

O VELHO TRAPICHE “ELIÉZER LEVY”

Por Alcinéa Cavalcante

O velho Trapiche Eliézer Levy, de muitas histórias, causos e lendas.

Nele atracavam embarcações de bandeiras de vários países e os gringos aproveitavam para tomar um sorvete, servido em taça de inox pelo famoso garçom Inácio, no Macapá Hotel.

Era desse trapiche que saíam os navios com destino a Belém. No final das férias iam lotados de universitários que voltavam para as faculdades (não havia ensino superior no Amapá).

Nas tardes de domingo o velho trapiche era a passarela da juventude. Depois da sessão da tarde nos cines João XXIII e Macapá os jovens iam como em procissão passear ali. Era um passeio obrigatório.

À noite era comum ver na ponta do trapiche um pescador solitário. Um pescador de peixes, ou de estrelas, ou de poesia ou de raios da lua.

A foto é do tempo em que ainda existia a tão cantada em verso e prosa “Pedra do Guindaste” de muitas lendas. Uns diziam que meia noite a pedra se transformava num navio de ouro maciço enfeitado com diamantes e esmeraldas. Outros contavam que era uma princesa encantada. E tinha gente que jurava ter visto “com esses olhos que a terra há de comer” a pedra se transformar em princesa quando o relógio marcava meia-noite em ponto.

Um dia colocaram a imagem de São José, padroeiro de Macapá, em cima da pedra. Pouco tempo depois um navio chocou-se com ela destruindo-a. 
No lugar foi construído um pedestal de concreto para São José, colocado de costas para a cidade, mas abençoando todos que aqui chegam pelo majestoso rio Amazonas.

A imagem do santo padroeiro é uma obra de arte do escultor português Antônio Pereira da Costa. Ele também esculpiu os bustos de Tiradentes (na Polícia Militar) e Coaracy Nunes (no aeroporto) e os leões do Fórum de Macapá (atual sede da OAB).

ATUALIZAÇÃO: 

Espaço na cabeceira do trapiche será expandido — Foto: PMM/Divulgação

De acordo com a Secretaria de Obras e Infraestrutura Urbana foi elaborado um novo projeto arquitetônico que prevê 4 pontos de observação inspirados nos baluartes da Fortaleza de São José de Macapá; o Trapiche Eliézer Levy, na orla do Rio Amazonas, passará por um processo de revitalização e ampliação.

O ponto turístico que foi fechado para reforma há pelo menos 6 anos, voltou a ser aberto em 2018 mas novamente foi interditado.

O governo do Amapá passou a responsabilidade do local para a prefeitura de Macapá em julho de 2021, por meio de um termo de concessão, com a autorização para o uso do espaço por 20 anos.

Trapiche Eliézer Levy, na orla de Macapá, no Amapá — Foto: Maksuel Martins/GEA/Divulgação

A obra integra o projeto Orla Viva, que prevê a revitalização de toda a frente da cidade.

Com o projeto será feita a reforma de toda a base já existente e do restaurante que fica na cabeceira, mas haverá novidades como a ampliação do deck, instalação de iluminação em "led" e píer que permitirá que pequenas embarcações atraquem.

Trapiche Eliézer Levi será reformado com arquitetura inspirada nos baluartes da Fortaleza de São José de Macapá — Foto: PMM/Divulgação

Será um espaço livre para feiras e eventos culturais.

Com a iniciativa, será possível reavivar a memória da população, que vê no trapiche a representação de parte da cultura e da história macapaense. (G1)

quarta-feira, 4 de novembro de 2020

MEMÓRIAS DA CIDADE DE MACAPÁ > PRAÇA DA MATRIZ

Publicamos hoje mais um artigo do historiador Nilson Montoril, sobre as Memórias de Macapá, com ilustrações de fotos históricas de nossos arquivos:

Recordações da minha infância – Praça da Matriz

Por Nilson Montoril

Em fevereiro de 1758, ao ser feito o delineamento da área onde seria implantada a Vila de Macapá, dois amplos espaços retangulares foram traçados e identificados como Largo de São Sebastião e Largo de São João. 

Devido à edificação da Igreja Matriz de São José, com o passar do tempo, o Largo de São Sebastião ficou conhecido como Largo da Matriz e assim permaneceu até 1924, ocasião em que recebeu como patrono o Capitão do Exército, Augusto Assis de Vasconcelos. 

Em torno do Largo da Matriz despontou o centro histórico de Macapá compreendendo prédios públicos da administração municipal e residências diversas.


Entre os primeiros figuraram a sede do Senado da Câmara, a Cadeia Pública, a Escola São José, a Casa Paroquial e o templo religioso cujo patrono é o santo carpinteiro. Os imóveis em questão ocuparam terrenos à Rua São José, a única via pública de Macapá, que manteve sua designação original. Casas de comércio, oficinas e portas de prestadores de serviços contornaram o referido largo. Os principais acontecimentos ocorriam no centro da vila e depois cidade de Macapá. Em 1943, quando foi criado o Território Federal do Amapá, a decadência de Macapá era preocupante. A contar de janeiro de 1944, mudanças expressivas começaram a mudar o panorama desolador do burgo. 

Velhos casarões passaram por reformas bem interessantes. As chamadas casas de taipa, feitas de barro foram reparadas com o mesmo material e apresentaram ótimo aspecto. Elas serviram para abrigar órgãos da administração territorial.

No antigo casarão do Senado da Câmara foi instalada a Unidade Mista de Saúde e esse uso se estendeu até a Inauguração do Hospital Geral de Macapá. Posteriormente serviu pra o funcionamento do Palácio do Governo. Em 1970, o prédio estava seriamente avariado e sem condições de ser reformado ou adaptado. 

Na área despontou a Biblioteca Pública de Macapá, cujo aspecto era mais modesto do que vemos atualmente. 

Na Travessa Floriano Peixoto, onde o Padre Júlio Maria de Lombarde fez funcionar o Colégio das Irmãs do Sagrado Coração de Maria passou a funcionar a Divisão de Segurança e Guarda.

Mais adiante, na esquina da travessa em epigrafe, com a Rua Barão do Rio Branco (Cândido Mendes), o Fórum foi revitalizado. 

Entre a Travessa Siqueira Campos (Av. Mário Cruz e o Beco do Sambariri (Passagem Abraham Peres), o governo montou o Serviço de Geografia e Estatística.

Os demais órgãos dividiram espaço com a Prefeitura de Macapá, onde hoje está funcionando o Museu Joaquim Caetano da Silva. Pequenas casas comerciais e residenciais prontificavam nas demais áreas. 

O Largo de São Sebastião foi o ponto vital da Vila de Macapá, que tinha no Senado da Câmara o órgão encarregado da gestão administrativa, da Justiça e de Polícia. 

Pelourinho
O pelourinho, símbolo das franquias municipais ficava próximo ao próprio Senado da Câmara. Em frente ao pelourinho eram lidas as proclamações e alvarás da edilidade macapaense e as oriundas do Grão-Pará e de Lisboa. As correções disciplinares principalmente as que se destinavam aos escravos também ali aconteciam. O Largo da Matriz não era dividido por caminho ou passarela. Por ocasião das festas de devoção, notadamente as consagradas a São José, competições comuns em Portugal eram levadas a efeito.

A mais empolgante era o “Jogo das Argolinhas” disputado por exímios cavaleiros que integravam a guarnição da Fortaleza. Cavalgando bons cavalos, e postando lanças, os competidores deveriam introduzi-las em pequenas argolas dependuradas em linha reta, que ficavam balançando como o pêndulo de um relógio. Os arraiais, com barracas bem ornamentadas e brincadeiras populares encantavam aos participes ao longo do tempo, a área da atual Praça Veiga Cabral foi a mais utilizada por ser plana. A outra ala tinha um declive no sentido da Avenida General Gurjão. 

Em síntese, a Praça da Matriz serviu de pasto para animais, campo de futebol, armação de barracas de arraial, carrossel, barquinhas, roda gigante, circos, desfiles escolares, missa campal, comício político, show de artistas, etc.

Fonte: Diário do Amapá

sexta-feira, 30 de outubro de 2020

Memória da Cidade de Macapá: 307 Anos do Nascimento de GIUSEPPE ANTONIO LANDI – O engenheiro da Matriz de São José

 

Giuseppe Antonio Landi – Foto: Reprodução/Belém Trânsito

Os primeiros traçados da Igreja saíram das mãos do sargento-mor, Manoel Pereira de Abreu, e foram aprovados pelo engenheiro Antônio José Landi, responsável por demarcar as áreas de interesse de Portugal na região Norte do Brasil.

Inaugurada em 6 de março de 1761, a Igreja Matriz de São José de Macapá é o mais antigo monumento da capital do estado e foi construída graças ao empenho do Frei Miguel de Bulhões, pertencente à Companhia de Jesus, cuja Congregação iniciou a catequese no país, destacadamente, na Amazônia.

Biografia

Filho do médico e professor universitário Carlo Antonio Landi e de Teresa di Bartolomeo Guglielmini, Giuseppe nasceu em Bolonha, em 30 de outubro de 1713, pelas seis e meia da manhã. Foi batizado na Catedral de São Pedro. Era o segundo filho de um total de oito.

Desenhador, arquiteto, gravador, geógrafo e astrônomo. Conhecido em Portugal e no Brasil como Antônio José Landi, forma-se em arquitetura e perspectiva na Academia Clementina, em Bolonha na década de 1730, e conquista o segundo e o primeiro lugares do festejado Prêmio Marsigli, em 1732 e 1737, respectivamente. Sua atuação no Brasil como astrônomo, desenhador de mapas e de história natural, além de arquiteto, faz supor que Landi tenha frequentado também o Instituto de Ciências de Bolonha, algo usual entre os alunos da academia. Por indicação de seu mestre Ferdinando Galli Bibiena, Landi ingressa na academia em 1737, mas só é nomeado professor de arquitetura em 1743 e membro da instituição em 1747. Em Bolonha, sua obra mais conhecida é a Raccolta di Alcune Facciate di Palazzi e Cortili de più Riguardevoli di Bologna, 1743, primeira coleção de edifícios de sua cidade publicada. Seu envolvimento com a construção da nova Igreja do Convento de Santo Agostinho de Cesena é excepcional porque nesse período, ao contrário do que ocorre no Brasil, Landi dedica-se especialmente à gravura.

É convidado a integrar como desenhador de história natural a Comissão de Demarcação de Fronteiras entre Portugal e a Espanha na América do Sul instituída, em 1750, pelo Tratado de Madri. Apesar da boa inserção no círculo de artistas ligados à Academia Clementina, seja pela oportunidade de servir a um rei com fama de mecenas, seja pelo desejo de conhecer o novo continente, seja pela carência de oportunidades em Bolonha, Landi aceita o convite e desembarca em Lisboa em agosto daquele ano. Em virtude da morte de dom João V, a comissão só parte para a colônia sul-americana em 1753, tendo como objetivos traçar a fronteira leste-oeste ao norte e levantar as características geográficas, físicas e astronômicas da Amazônia. Landi auxilia o astrônomo e matemático italiano João Ângelo Brunelli em observações astronômicas realizadas em Belém, atuando como desenhador de história natural entre 1754 e 1761. Sua participação na comissão é reconhecida pelo governador do Pará, Francisco Xavier de Mendonça Furtado, principal responsável por sua atuação como arquiteto e por sua permanência na colônia, depois da suspensão do Tratado de Madri, em 1761. Publica o livro Descrizione di varie Piante, Frutti, Animali/ Passeri, Pesci, Biscie, Rasine e Altre Simili/ Cose Che Si Ritrovano in Questa Cappitania del Grand Parà, le Qualli Tutte Antonio Landi dedica a sua Ecclsa. Il Sig. Luiggi Pinto de Souza/ Cavaglier de Malta, e Governatore del Mato Grosso/ il quale com soma fática e diligenzza investigo/ moltissime cose appartenenti allá storia naturale, e delle quali si potrà formare um grosso/ volume in vantaggio della Republica Letteraria (ca. 1773), reunindo as anotações feitas nas diversas expedições que realiza pelos rios Amazonas, Negro e Marié. Em 1784, parte em nova expedição para Barcelos, Amazonas, como desenhador de mapas da segunda Comissão de Demarcação de Fronteiras, instituída a partir do Tratado de Santo Idelfonso, 1777.

Como arquiteto e artista realiza esculturas retabulares, pinturas de quadratura, projetos e obras, dos quais se destacam a Igreja de Santana, 1762/1782; o Palácio dos Governadores, 1759/1772; e a Capela de São João Batista, 1769/1772 em Belém. Além dessas atividades, Landi se envolve com o comércio de cacau, o cultivo de cana-de-açúcar, a transplantação de espécies estrangeiras, como a manga, a jaca e a tâmara, e a produção de tijolos, telhas, louças vidradas e aguardente, tornando-se membro da Companhia Geral do Grão-Pará e Maranhão.

Recebe o título de arquiteto régio, em 1774. Em 2003, é realizado o seminário Landi e o Século XVII na Amazônia e, no ano seguinte, é inaugurada uma placa comemorativa na casa do arquiteto em Bolonha.

Fontes consultadas:

Historiador Nilson Montoril,

Wikipédia

ANTONIO Landi. In: ENCICLOPÉDIA Itaú Cultural de Arte e Cultura Brasileiras. São Paulo: Itaú Cultural, 2020. Disponível em: <http://enciclopedia.itaucultural.org.br/pessoa206974/antonio-landi>. Acesso em: 30 de Out. 2020. Verbete da Enciclopédia. ISBN: 978-85-7979-060-7

MEMÓRIAS DO LARGO DOS INOCENTES - FORMIGUEIRO – PARTE 13 – DONA MILICA: LAVADEIRA PIONEIRA QUE ENGOMOU O LARGO DOS INOCENTES COM ALEGRIA E FÉ

No coração do Largo dos Inocentes , um dos bairros mais antigos e pulsantes de Macapá , viveu uma senhora que transformou o suor do trabalho...