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terça-feira, 7 de junho de 2022

MEMÓRIA DA ELETRICIDADE AMAPAENSE: SEGUNDA USINA DE FORÇA E LUZ DE MACAPÁ (CORREÇÃO E ATUALIZAÇÃO)

O historiador Nilson Montoril de Araújo, publicou em sua página na Rede Social,  uma observação de grande valia para a Memória da Eletricidade do Amapá. 

FOTO REVELADA INVERTIDA

Por Nilson Montoril

A fotografia da 2ª Usina de Força e Luz, que tomei emprestada do João Lázaro, teve sua configuração alterada no momento em que foi revelada. Esse cenário eu conheci muito bem. Ao lado da Usina ficava a Garagem Territorial e, a exemplo dos outros meninos da Matriz, eu gostava de ver os mecânicos do governo consertando os carros que apresentavam defeito. A Garagem ficava do lado direito da Usina, na área que aparece tomada pelos "refrigeradores dos motores". Na verdade, a estrutura de madeira que aparece à direita da foto ficava no lado esquerdo, bem perto da cerca do quintal do casal Duca Serra e Antonica Picanço. No cimo da estrutura, que parecia uma torre feita de gamelas, havia um cano, uma espécie de ladrão, por onde o excesso de água era jogado fora. A molecada tomava banho com essa água. Tempo bom, porque eu jogava bola no campo dois da Praça Veiga Cabral e depois corria pra Usina, a fim de tomar um refrescante banho. No dizer do sertanejo: "pra que coisa mais melhor." Naquele tempo, em todos os órgãos públicos hasteavam a Bandeira do Brasil, como podemos ver na fotografia.
Via Facebook
_____________________
NOTA DO EDITOR:
Agradecemos a colaboração do Nilson por nos dar a oportunidade de corrigir uma falha histórica e evitar assim a informação equivocada sobre a Memória do Amapá!
A foto já foi colocada na posição correta. 
(João Lázaro)

terça-feira, 3 de maio de 2022

O embaixador do bairro do Trem: Belarmino Paraense de Barros

Por Nilson Montoril (*)

Dentre os auxiliares do Governador Janary Nunes que tiveram papel marcante na implantação do Território Federal do Amapá, merece especial referência o belenense Belarmino Paraense de Barros. 

Este cidadão, formado em Guarda Livro pela Fênix Caixeiral Paraense, veio para Macapá atendendo convite formulado pelo governador, seu superior hierárquico na Companhia Independente de Metralhadoras Anti Aérea estabelecida em Val-de-Cãns.

Na época, Belarmino havia dado baixa do Exército como Sargento e dono de um prontuário notável. Entre 1º de março de 1940, ano de sua formatura, até 21 de julho de 1941, data que marca seu ingresso no Exército, o jovem contabilista trabalhou fazendo a escrituração contábil de diversas firmas comerciais de Belém. Estava com vinte anos de idade quando sentou praça para prestar o serviço militar obrigatório.

Mesmo não mantendo contatos frequentes com a tropa, Belarmino exercia boa liderança na corporação, devido sua dedicação aos esportes. Sempre estava metido no grupo que organizava as competições esportivas. A 22 de janeiro de 1943, passou a ocupar o posto de Cabo, sendo promovido ao posto de Sargento em 1944. No dia 29 de outubro de 1945, chegava a Macapá. 

Na capital do Amapá, Belarmino reencontrou vários companheiros de caserna, entre eles o seu comandante. Seu primeiro cargo no governo territorial foi de contador do Serviço de Administração Geral, órgão que coordenava as atividades de pessoal, finanças, material, conservação, limpeza, etc. Depois passou a exercer a chefia da Seção de Municipalidade, percorrendo frequentemente as sedes dos municípios de Mazagão, Oiapoque e Amapá para proceder as inspeções contáveis das comunas e analisar as tomadas de contas. Agiu da mesma forma no que se refere ao balaço de material permanente dos demais órgãos do governo. 

A 18 de abril de 1951, foi convocado para desempenhar uma missão bastante desafiadora: gerenciar a Olaria Territorial. 

Deveria elevar a produção de tijolos, telhas, manilhas para esgoto, cerâmicas, azulejos e outros materiais necessários às obras públicas que estavam sendo realizadas em Macapá.

Na fase de implantação da Olaria o superintendente foi o senhor Nicanor Gentil, primo do governador. O deslocamento deste cidadão para outra atividade motivou a nomeação de Belarmino. O governador sabia que seu comandado dos tempos da Companhia de Metralhadoras Antiaérea tinha liderança e lábia suficiente para motivar os trabalhadores, levando-os a atingir as metas necessárias.

A Olaria Territorial vinha se recuperando de um incêndio que destruiu parte de sua estrutura. Ao assumir o cargo de Superintendente da Olaria Territorial, Belarmino Paraense de Barros já era sobejamente conhecido e benquisto pelo operariado. Ele representava para o Bairro do Trem o mesmo que Julião Ramos simbolizava para o Laguinho.

A eficiente gestão de Belarmino se estendeu até o dia 13 de julho de 1961, correspondendo a um ano e dois meses. 

Na mesma data ele retomou suas funções de contador no Serviço de Administração Geral. Neste órgão, em dezembro de 1962, alcançou o cargo de Diretor, nomeado pelo Governador Raul Montero Valdez.Em 1963, no período de 30 de janeiro a 11 de abril, Belarmino foi o titular da Secretaria Geral do Território Federal do Amapá.

O ocupante deste cargo era uma espécie de vice-governador, cuja nomeação era feita pelo Presidente da República. Em 1964 ele voltou a merecer a mesma distinção.

Com o golpe militar de 1964, deflagrado dia 31 de março, Belarmino foi colocado sob suspeição de ter praticado improbidades administrativas. Mesmo sem a ocorrência de um julgamento feito nas conformidades da lei, ele foi exonerado a bem do serviço público. Mais tarde, foi inocentado e recuperou seu cargo de servidor público embora com aposentadoria compulsória. Mudou-se para Belém no dia 6 de outubro de 1964.

O clima político em Macapá não lhe era favorável e muitas pessoas que ele tanto ajudou, inclusive tornando-as servidores públicos federais evitavam falar com ele temendo represálias por parte dos governantes. Na capital das mangueiras criou a firma Planamazon Ltda, através da qual elaborava projetos agropecuários e industriais. Também prestava assessoramento técnica, econômica, contábil e de engenharia. Belarmino Paraense de Barros era natural de Belém, onde nasceu a 26 de junho de 1921. Seus pais eram Amélio Brasil Barros e Benvinda das Neves Barros. Sua passagem por Macapá revestiu-se de muitos méritos. Integrou o Rotary Club de Macapá, sendo um dos seus membros mais atuantes.

 A primeira residência de Belarmino, em Macapá, demorava na Avenida Pedro Baião de Abreu, lado esquerdo, entre as ruas Rua Tiradentes e General Rondon. A casa ficava ao lado de uma velha fábrica de sabão. Posteriormente a família mudou-se para outro prédio que seu Belarmino mandou construir na esquina, de frente para a então rua José Serafim Gomes Coelho(Tiradentes). Na época, aquele trecho era identificado como bairro da Fortaleza.

(*) Historiador, professor, radialista e blogueiro amapaense. Artigo publicado, originalmente no Jornal Diário do Amapá, edição do dia 09/10/2021.

domingo, 27 de junho de 2021

MEMÓRIA DA CIDADE: A CASA MATERNAL DE MACAPÁ

                                                                         Foto: Google   

Para poder desenvolver a contento suas atividades, com foco na Campanha de Redenção da Criança e Assistência às Gestantes e Parturientes, a Legião Brasileira de Assistência, através do governo do Território Federal do Amapá, aplicou uma verba pública que lhe foi assegurada pelo governo federal, para erguer, na cidade de Macapá, os Postos de Puericultura Iracema Carvão  Nunes,(Centro) e Hildemar Pimentel Maia (Trem).  Por ressentir-se de um local apropriado para abrigar crianças carentes de tratamento, advindas do interior, a LBA reivindicou ao governo federal, a construção de um imóvel erguido próximo a Rádio Difusora de Macapá, que funcionaria como casa maternal. O pedido foi atendido, mas o propósito do uso adequado não ocorreu. O prédio acabou sendo utilizado como Palácio do Governo, a partir de marco de 1961, quando o governador Joaquim Francisco de Moura Cavalcante (2/3/1961 a 2/9/1961), constatou a precariedade das instalações do velho Senado da Câmara, edificado em  taipa de mão, ao lado direito da Igreja São José. Na desejada Casa Maternal atuaram seis governadores

   1 – Joaquim Francisco de Moura Cavalcante (agrônomo), substituído em decorrência da renúncia do Presidente da República, Jânio da Silva Quadros.

  2 – Mário Medeiros Barbosa, (médico), que geriu o Amapá entre 2/9 a 12/10/1961.

  3 – Raul Montero Valdez, (advogado) de 12/10/1961 a 26/11/1962.

  4 – Terêncio Furtado de Mendonça Porto, (coronel do Exército de 26/11/1962 a 7/5/1964.

  5 - Luiz Mendes da Silva, (general do Exército), de 7/5/1964 a 10/4/1967.

  6 – Ivanhoé Gonçalves Martins, (general do Exército), em cuja gestão, a partir do dia 10/4/1967, foi iniciada e concluída a construção do primeiro Palácio do Setentrião, imediatamente ocupado.

        Ainda em 1967, o imóvel, originalmente destinado ao atendimento de crianças, gestantes e parturientes, também abrigou o gabinete do Prefeito Municipal de Macapá, Porto Carrero.

       Em 1973, no referido prédio, técnicos da Divisão Escolar e Cultural elaboraram o Primeiro Plano Quadrienal da Educação do Território Federal do Amapá.

        Atualmente, está instalado no imóvel, o Centro de Estudo Supletivo Professor Paulo Melo, sucedâneo do Centro de Estudo Supletivo Emilio Médici. A nova designação vigora a partir de 14/4/2009, por força de lei estadual.

    Macapá, 21 de junho de 2021.

       Nilson Montoril de Araújo

Fonte: Facebook

quarta-feira, 4 de novembro de 2020

MEMÓRIAS DA CIDADE DE MACAPÁ > PRAÇA DA MATRIZ

Publicamos hoje mais um artigo do historiador Nilson Montoril, sobre as Memórias de Macapá, com ilustrações de fotos históricas de nossos arquivos:

Recordações da minha infância – Praça da Matriz

Por Nilson Montoril

Em fevereiro de 1758, ao ser feito o delineamento da área onde seria implantada a Vila de Macapá, dois amplos espaços retangulares foram traçados e identificados como Largo de São Sebastião e Largo de São João. 

Devido à edificação da Igreja Matriz de São José, com o passar do tempo, o Largo de São Sebastião ficou conhecido como Largo da Matriz e assim permaneceu até 1924, ocasião em que recebeu como patrono o Capitão do Exército, Augusto Assis de Vasconcelos. 

Em torno do Largo da Matriz despontou o centro histórico de Macapá compreendendo prédios públicos da administração municipal e residências diversas.


Entre os primeiros figuraram a sede do Senado da Câmara, a Cadeia Pública, a Escola São José, a Casa Paroquial e o templo religioso cujo patrono é o santo carpinteiro. Os imóveis em questão ocuparam terrenos à Rua São José, a única via pública de Macapá, que manteve sua designação original. Casas de comércio, oficinas e portas de prestadores de serviços contornaram o referido largo. Os principais acontecimentos ocorriam no centro da vila e depois cidade de Macapá. Em 1943, quando foi criado o Território Federal do Amapá, a decadência de Macapá era preocupante. A contar de janeiro de 1944, mudanças expressivas começaram a mudar o panorama desolador do burgo. 

Velhos casarões passaram por reformas bem interessantes. As chamadas casas de taipa, feitas de barro foram reparadas com o mesmo material e apresentaram ótimo aspecto. Elas serviram para abrigar órgãos da administração territorial.

No antigo casarão do Senado da Câmara foi instalada a Unidade Mista de Saúde e esse uso se estendeu até a Inauguração do Hospital Geral de Macapá. Posteriormente serviu pra o funcionamento do Palácio do Governo. Em 1970, o prédio estava seriamente avariado e sem condições de ser reformado ou adaptado. 

Na área despontou a Biblioteca Pública de Macapá, cujo aspecto era mais modesto do que vemos atualmente. 

Na Travessa Floriano Peixoto, onde o Padre Júlio Maria de Lombarde fez funcionar o Colégio das Irmãs do Sagrado Coração de Maria passou a funcionar a Divisão de Segurança e Guarda.

Mais adiante, na esquina da travessa em epigrafe, com a Rua Barão do Rio Branco (Cândido Mendes), o Fórum foi revitalizado. 

Entre a Travessa Siqueira Campos (Av. Mário Cruz e o Beco do Sambariri (Passagem Abraham Peres), o governo montou o Serviço de Geografia e Estatística.

Os demais órgãos dividiram espaço com a Prefeitura de Macapá, onde hoje está funcionando o Museu Joaquim Caetano da Silva. Pequenas casas comerciais e residenciais prontificavam nas demais áreas. 

O Largo de São Sebastião foi o ponto vital da Vila de Macapá, que tinha no Senado da Câmara o órgão encarregado da gestão administrativa, da Justiça e de Polícia. 

Pelourinho
O pelourinho, símbolo das franquias municipais ficava próximo ao próprio Senado da Câmara. Em frente ao pelourinho eram lidas as proclamações e alvarás da edilidade macapaense e as oriundas do Grão-Pará e de Lisboa. As correções disciplinares principalmente as que se destinavam aos escravos também ali aconteciam. O Largo da Matriz não era dividido por caminho ou passarela. Por ocasião das festas de devoção, notadamente as consagradas a São José, competições comuns em Portugal eram levadas a efeito.

A mais empolgante era o “Jogo das Argolinhas” disputado por exímios cavaleiros que integravam a guarnição da Fortaleza. Cavalgando bons cavalos, e postando lanças, os competidores deveriam introduzi-las em pequenas argolas dependuradas em linha reta, que ficavam balançando como o pêndulo de um relógio. Os arraiais, com barracas bem ornamentadas e brincadeiras populares encantavam aos participes ao longo do tempo, a área da atual Praça Veiga Cabral foi a mais utilizada por ser plana. A outra ala tinha um declive no sentido da Avenida General Gurjão. 

Em síntese, a Praça da Matriz serviu de pasto para animais, campo de futebol, armação de barracas de arraial, carrossel, barquinhas, roda gigante, circos, desfiles escolares, missa campal, comício político, show de artistas, etc.

Fonte: Diário do Amapá

segunda-feira, 2 de novembro de 2020

MEMÓRIAS DA CIDADE DE MACAPÁ

 O Historiador Nilson Montoril, tem publicado no Jornal Diário do Amapá, uma série de artigos em que ele conta suas Recordações de Infância, em Macapá.

Por terem uma enorme importância histórica, resolvemos transcreve-las no Blog Porta-Retrato, ilustrando com fotos históricas de nossos arquivos:

Recordações de minha infância (I)

Por Nilson Montoril

Há momentos em minha vida, que fico lembrando da minha infância e do meu convívio com moradores da Avenida General Gurjão, no centro de Macapá. Gerado na cidade de Mazaganópolis, onde meu pai Francisco Torquato de Araújo era prefeito, ali vivi de maio de 1944 a abril de 1946, ocasião em que meu genitor decidiu solicitar exoneração do cargo e foi cuidar dos seus empreendimentos comerciais na região das Ilhas do Pará. Fixamos morada no “Reduto do Rio Furo Seco, cuja foz fica na margem esquerda do canal norte do rio Amazonas em frente a entrada do rio Mutuacá, mais conhecido como Mazagão Velho. Em dezembro de 1948, eu estava caminhando para completar 4 anos de idade, quando meu pai comprou um imóvel bem construído pelo empreiteiro João Pernambuco e decidiu transferir a família para Macapá. Ainda hoje tenho duas irmãs que residem na via pública acima mencionada, nº 171, entre as Ruas São José e a Tiradentes.

O cenário era muito diferente dos dias atuais. Quase todas as casas eram erigidas em taipa de mão, posicionadas nas duas laterais da General Gurjão. Umas ocupavam terrenos longos. Outras quase não tinham quintal. 

No trecho citado diversos imóveis estavam abandonados, quase em ruínas. Quando comecei a ter noção das coisas da vida, ainda entrei em alguns deles, sem pensar o quanto deve ter sido penoso seus ocupantes baterem em retirada. Nem todos os residentes da Avenida General Gurjão eram de Macapá, mas estavam bem confortáveis no seio da comunidade macapaense. 

A partir da Rua Cândido Mendes, no sentido do Cemitério Nossa Senhora da Conceição, relembro da casa do senhor Luiz Pires da Costa, proprietário da “Casa das Cordas”, cidadão português egresso de Manaus, que casou em Macapá com Lina de Matos, integrante de tradicionalíssima família local.

O casal havia morado bem perto da margem direita do rio Amazonas, ocupando área que o governo territorial do Amapá desapropriou para melhorar o aspecto da frente da cidade e construir o Macapá Hotel. 


Depois da Casa das Cordas existiam quatro residências geminadas feitas em taipa. 

Uma delas abrigou por muito tempo a Escola Municipal de Macapá. Onde estão eretos os prédios da Embratel e uma residência pertencente à Companhia de Eletricidade do Amapá, existiu uma espécie de pracinha, sendo possível trafegar por ela, entre as avenidas General Gurjão e Cora de Carvalho. Isso, antes da criação do Território Federal do Amapá. Com a implantação da nova unidade federada, o governo utilizou o amplo espaço para edificar a Garagem Territorial e a Usina de Força e Luz. 

A partir da usina recordo o aspecto da humilde habitação do casal Adão e Eva, vizinhos dos macapaenses Emanuel Serra e Silva e Antônia Picanço e Silva, conhecidos como Duca Serra ou Minduca e Antonica. Minduca era pequeno comerciante e já havia trabalhado no Serviço Especial de Saúde Pública-SESP, como “mata mosquito”. Vinha a seguir o “Café Moeda”, local preferido pelos funcionários da Garagem Territorial e da Usina de Força e Luz. Seu proprietário era o senhor Antônio Pinheiro Sampaio, rotulado como “Seu Moeda” e casado com Antônia Silva Sampaio. Passando um terreno sem construção alguma vinha a “Pensão Sempre Viva”, gerenciada pela Madame Nenem Veríssimo e por sua filha Maria do Carmo.

A pensão integrava um bloco de casas geminadas composto por três unidades, às duas últimas pertencentes à Dona América Tavares e ao casal Herádito de Azevedo Coutinho (Ditinho) e Raimunda Coutinho (Dica). A Rua São José separava esse conjunto de uma edificação muito antiga, feita em taipa de pilão, com paredes bem grossas. Ali tinha funcionado a Cadeia Pública da Vila e da Cidade paraense de Macapá. Sua ocupante era Dona Mariinha tendo como coabitantes o barbeiro Jorge Modesto e sua esposa Nilza, seu Jayme e dona Benedita (Biló). Diziam que o local era mal assombrado e que as almas dos que morreram no poço seco escavado em uma das celas gemiam e arrastavam correntes. Tudo fantasia. Rente a Cadeia morava João Barca e Raimunda Coutinho (Dica) compadres de meus pais Francisco Torquato e Olga Montoril.

Fonte: Jornal Diário do Amapá

Leia também:

Recordações de minha infância (II)

quinta-feira, 19 de setembro de 2019

Foto Memória de Macapá: Família Banhos de Araújo

Nossa Foto Memória de hoje, reproduz imagens da Família Banhos de Araújo.
A senhora mais idosa dentre as pessoas que aparecem nessa foto histórica, era a matriarca Honorina Banhos de Araújo, mãe dos pioneiros Walter e José Moacyr Banhos de Araújo. Ao seu lado, sentada no sofá, vemos a senhora Vitorina Gualberto da Rocha (vestido de bolinhas) era a mãe de Terezinha Gualberto Rocha de Araújo, esposa do senhor Walter Banhos. O casal teve 14 filhos, identificados a partir da esquerda da foto: Em pé: Ana Celi, Walter, Ana Izabel, Ana Soré, Mário Luiz, Ana Regina, Ana Tereza e Ana Maria. No sofá: Marco Antônio, Ana Débora (amparada pelo pai Walter Banhos), Ana Rita(de vestido branco),Ana Betânia (no colo de Vitorina), Ana Cristina(com a mão esquerda no queixo)e Ana Rosa. Dona Vitorina foi casada com Eduardo Moreira da Rocha e criou, além de seus filhos, a neta Zaide Soledade Silva. 
Foto, do acervo de Nilson Montoril, cedida ao historiador  por Socorro Silva, filha da saudosa professora Zaide Soledade (in memoriam).

quarta-feira, 4 de julho de 2018

Fotos Memória de Macapá: Os Pioneiros da arte da costura no Amapá

A “Alfaiataria São José”, instalada em Macapá pelo senhor Pedro Ribeiro à Rua 24 de Outubro, na frente de Macapá, foi um marco importante na história da cidade.
Pedro Ribeiro era contramestre da “Alfaiataria Pinto”, em Belém e tinha decidido tentar a sorte no comércio de borracha. Com a produção da borracha em baixa, ele preferiu retomar sua antiga profissão. Casou com Carmosina Reis Cavalcante, filha do Oficial do Registro Civil da Comarca de Macapá, Cesário dos Reis Cavalcante e da senhora Odete Reis. Carmosina estava viúva do senhor Cícero Lemos e tinha os filhos Altair Cavalcante de Lemos, Altamiro Cavalcante de Lemos e Maria das Graças Cavalcante de Lemos. Dos três, apenas o Altamiro aprendeu a costurar.
Esta fotografia é uma das mais antigas da Macapá paraense, batida por volta de 1901. 
Em meados da década de 1920, o prédio que aparece em primeiro plano, feito em taipa de mão, 
abrigou o Cartório de Registro Civil da Comarca de Macapá e a residência do 
Tabelião Cesário dos Reis Cavalcante. 
Na década de 1930, a Alfaiataria São José foi instalada em uma das suas dependências. 
Com a anuência do senhor Cesário Reis, a alfaiataria ocupou um dos cômodos de sua residência. Trabalhavam na alfaiataria o senhor Pedro Ribeiro, sua esposa Carmosina e o garoto Vadoca.  
Vadoca, cujo nome de batismo é Vicente Valdomiro Ribeiro, na época, com apenas oito anos de idade, esbanjava curiosidade e vontade de aprender a profissão que ainda preserva. Nascido e criado na Rua 24 de Outubro, que o povo preferia rotular como Rua da Praia, Vadoca estava sempre perto de sua genitora para ajudá-la nas tarefas de carregar água, rachar lenha, fazer recados e compras. Dificilmente ultrapassava a área da então Praça Capitão Augusto Assis de Vasconcelos (Veiga Cabral) devido à rivalidade que os moleques da Matriz e do Formigueiro devotavam aos pirralhos que residiam na frente da cidade. Só ia à Igreja São José acompanhado dos pais ou de parentes. Vadoca veio ao mundo no dia 7 de setembro de 1932, na casa dos pais, Celso de Atayde Ribeiro e Esmerlinda de Carvalho Ribeiro. Sua genitora era natural do Maruanum e residia na casa da Professora Cora Rolla de Carvalho, sua parenta, quando conheceu Celso Ribeiro. Antes de ingressar na “Alfaiataria São José”, o menino Vadoca realizava deveres domésticos e vendia pasteis feitos pela irmã Angelina e jogava futebol com bola de meia e de sernambi. Angelina era casada com Miguel Gantus e morava no início da Rua do Abieiro.
Só quando estava mais “taludinho” é que passou a jogar com bola de verdade no campo do Cumau Esporte Clube, o time alviverde da Cidade, cujo campo correspondia a uma área entre as Travessas Floriano Peixoto (Presidente Vargas) e Braz de Aguiar (Coriolano Jucá), onde depois foram edificados os prédios dos Correios e da antiga Lojas Pernambucanas. Posteriormente defendeu as cores do Inca, São José, Macapá e Trem. Em 1955, com 23 anos de idade, Vadoca casou com Odineia dos Santos Ribeiro. Continuou jogando futebol por mais quatro anos, deixando de fazê-lo em 1959, porque precisava trabalhar em tempo integral para sustentar condignamente a família. O casal gerou nove filhos, seis mulheres e três homens.       
Antes de 1943, ano em que foi criado o Território Federal do Amapá, a cidade de Macapá tinha alfaiates e costureiras de primeira linha. A alfaiataria do senhor Ataíde ficava na Travessa Castelo Branco (Rua Tiradentes) no espaço onde depois funcionou   o Cartório Jucá.
Seu Ataide José de Lima(Barbudo), era acreano onde nasceu em 08 de abril de 1920; chegou a Macapá em 1943. Residiu inicialmente, na Presidente Vargas em frente à casa onde morava a família Zagury, depois em uma travessa que ficava entre São José e Cândido Mendes, ao lado onde residia o Sr. José Trajano Neto, depois mudou-se para a rua São José esquina com a Cora de Carvalho, onde hoje funciona uma agência do  Banco do Brasil.  Alguns anos depois passou a morar atrás do Hospital São Camilo. Depois que se submeteu à uma cirurgia em Belém em 1962, ele abriu um bar, pois ficou impossibilitado de trabalhar na profissão de alfaiate. Seu Ataíde também era espírita e, nos anos 80 e 90, sempre atendia às pessoas num barracão localizado à Rua Mendonça Furtado, entre as ruas Hamilton Silva e Manoel Eudóxio  Pereira. Depois por motivos de saúde, passou atender só na residência dele.
Seu Ataíde era casado com a paraibana Benedita Alves de Almeida,  com quem teve 7 filhos.
Ataíde José de Lima (Barbudo), faleceu em Macapá no dia 08 de março de 1999 e seu corpo está sepultado no Cemitério de São José, no bairro Santa Rita.
Na Avenida General Gurjão (bairro Alto) atuava o Nelson e no Largo do Formigueiro (atrás da igreja Matriz)  o Lameira. 
Lembro também do Seu Luiz (foto), alfaiate que por muitos anos morou, com a família, na Av. Feliciano Coelho, onde antes funcionou o banheiro público do bairro do Trem e depois foi transformado em  rinhadeiro, palco de concorridas brigas de galo, que reuniam muitos aficionados desse esporte, (uma tradição antiga, que tinha juiz e apostadores), que desde 1998, está proibido no Brasil, sendo considerado crime ambiental. A família do Seu Luiz, continua morando no local, no mesmo prédio agora cedido pela Prefeitura Municipal de Macapá.
Depois da instalação do Governo do Território do Amapá, a 25 de janeiro de 1944, a migração de jovens para Macapá foi marcante. O governo precisava de mão-de-obra para a construção de prédios públicos e para diversas atividades que estavam sendo implementadas. Entre os que buscavam emprego estava Herundino do Espírito Santo, conceituado alfaiate e bom futebolista. Ela conhecia o Pedro Ribeiro e não perdeu tempo em procurá-lo.
Herundino nasceu em Belém dia 23 de julho de 1919, filho de Serafim Ferreira do Espírito Santo e Raimunda Jacinta do Espírito Santo. Fez o curso Complementar no Colégio Dr. Freitas e começou a trabalhar em oficina de alfaiataria onde aprendeu a profissão. Chegou em Macapá em 2 de novembro de 1945, ingressando na antiga Guarda Territorial quando assumiu a alfaiataria da instituição, aprontando o fardamento dos policiais e, nas horas vagas costurava para pessoas da sociedade, inclusive para o Capitão Janary Gentil Nunes, primeiro Governador do TFA. Foi atleta do Esporte Clube Macapá e atleta fundador do Trem Desportivo Clube. Casou-se com D. Joana Silva do Espírito Santo e com ela teve oito filhos. Aceito na “Alfaiataria São José”, Herundino colocou em prática sua larga experiência no corte e confecção de roupas masculinas em casimira. A alfaiataria de Pedro Ribeiro também contou com os préstimos de Hermínio Costa, Antônio, Zé Arigó, Maria e Antônia. Com essa equipe, Pedro Ribeiro atendeu a todas as encomendas que a Indústria e Comércio de Minérios S.A lhe fez. A encomenda da ICOMI compreendia o vestuário que os empregados da empresa usavam. O Antônio também se desligou da equipe de Pedro Ribeiro e seguiu o mesmo caminho traçado por Herundino. O Hermínio Costa, irmão do Hélio Costa, o grande centro-avante do Paysandú, passou a trabalhar na Escola Industrial de Macapá, onde, desde março de 1953, atuava o famoso irmão futebolista. O Formiga e o Passarinho I também fizeram parte da alfaiataria da Guarda Territorial. Todos eles, no período de folga, continuaram realizando atividades particulares em alfaiatarias de amigos. O Herundino montou a “Zaz Traz”, uma alfaiataria estabelecida no Largo da Matriz.
Segundo o Vadoca, a equipe de Pedro Ribeiro era muito boa e o trabalho realizado para a ICOMI agradou plenamente. Nessa fase o Vadoca costurava numa máquina Pfaff de fabricação alemã e aprontava quatro calças por dia. À época, as grandes lojas das capitais brasileiras e cidades mais desenvolvidas não vendiam confecções, só tecidos e armarinhos e isso favorecia os alfaiates. Em Macapá a situação não era diferente. O sujeito comprava a fazenda e a levava ao alfaiate para que ele tirasse suas medidas e fizesse a roupa que desejava. A maioria das lojas comerciais de Macapá vendia secos e molhados. Vadoca trabalhou na “Alfaiataria São José” até 1956, ano em que faleceu Pedro Ribeiro. A alfaiataria já não funcionava na Rua da Praia, mas na Avenida Presidente Vargas ao lado da casa da Dona Carmem (Carmita) Mendes, filha do Coronel da Guarda Nacional Manuel Theodoro Mendes, que comandou a guarnição da Fortaleza de Macapá e foi Intendente Municipal. Vadoca conta que o Pedro Ribeiro tinha um calo no dedo mínimo do pé direito, que o incomodava bastante. Ele costumava cortar a parte dura do calo com uma velha lâmina de barbear, fato que redundou em ferimento que infeccionou. Sem dar a devida atenção ao problema de saúde que a lesão lhe causava, Pedro Ribeiro foi acometido de tétano.
Em 1956, o Governador do Amapá era o médico Amílcar da Silva Pereira, freguês do alfaiate. Ao constatar que o estado de saúde de Pedro Ribeiro era grave, o Dr. Amílcar Pereira o mandou para o Hospital dos Servidores Públicos, no Rio de Janeiro. O estágio do tétano estava tão avançado que a perna do alfaiate precisou ser cortada quase no tronco da coxa. De volta a Macapá, usando uma prótese, Pedro Ribeiro apenas cortava pano, mas não tinha como fazer roupa. Faleceu pouco tempo depois da cirurgia, ainda em 1956. Vadoca ficou gerenciando a alfaiataria por alguns dias, entregando-a a senhora Odineia Ribeiro, com quem Pedro Ribeiro havia casado depois de ficar viúvo de Carmosina Cavalcante. Casado há um ano, Vadoca sentiu que era o momento de trabalhar por conta própria e assim procedeu. Seu primeiro auxiliar foi o Chunda, bom costureiro, mas problemático por causa da bebida. Certa vez, com a cuca cheia de cachaça, o Chunda esqueceu o ferro elétrico ligado sobre a mesa de passar roupa e faltou pouco para a alfaiataria do Vadoca virar cinza. O Chunda também trabalhou com o senhor Ataíde e anos mais tarde foi residir em Laranjal do Jarí, onde pereceu afogado. Vadoca domina como poucos a arte da costura. Faz paletó, blazer, jaquetão, camisa, bermuda, calça  e outros tipos de roupa. Trabalhou muito tempo com o linho caruá, linho tubarão (difícil de cortar), casimira aurora (que não pode ser lavada), tropical (caro e bonito), tricolina (apropriada para camisa), chita (usada prioritariamente para camisão de dormir), seda (tecido preferido pelos festeiros e malandros para camisa de manga comprida porque a navalha não lhe causa danos), brim, tergal (que não perde o vinco), etc. Aliás, o Vadoca trabalha com qualquer tipo de fazenda. Nas décadas de 1940, 1950 e 1960, as fazendas de linho dominavam a preferência dos homens. Por ocasião da festa de São José o macapaense da gema não deixava de mandar fazer calça e camisa para ir à missa, acompanhar a procissão e frequentar o arraial. As autoridades territoriais só usavam ternos de linho muito bem engomados por ocasião das solenidades mais expressivas da cidade. Nas lojas que vendiam fazendas em Macapá, todos os apetrechos necessários à costura eram encontrados. O fecho, que hoje é chamado de zíper só era empregado nas roupas das mulheres. Braguilha da calça de homem só levava botões, todos brancos.
Vadoca nunca quis ser funcionário público, preferindo viver da sua profissão. Começou a pagar a previdência em 1952, como autônomo e sempre primou pelo pagamento das contribuições em dia. Beirando os 86 anos de idade, Vadoca faz expediente em dois turnos, de segunda-feira a sábado na sua frequentadissima alfaiataria, na esquina da Rua Jovino Albuquerque Dinoá com a Avenida Antônio Albuquerque Coelho de Carvalho, bairro central. É um ponto de encontro de novos e velhos fregueses. Ali, Vadoca conta e ouve histórias interessantes sobre todos os assuntos. Em uma das paredes há dezenas de fotografias que comprovam sua condição de jogador de futebol e junto a amigos. Chama a atenção de todos, um espelho cuja moldura faz lembrar o famoso espelho mágico que a madrasta da Branca de Neve usava para saber qual era a mulher mais bela da terra. O espelho que o Vadoca conserva na alfaiataria pertenceu à sua genitora e tem mais de oitenta anos de uso. O alfaiate mais antigo de Macapá ainda confecciona e reforma roupas de acordo com o gosto do freguês. A primeira máquina Singer que ele comprou foi usada de 1956 a 1996. Ainda funcionando bem, foi doada a um amigo. A máquina atual, também da marca Singer, foi adquirida em 1996. Há uma máquina Singer elétrica que ele só utiliza para fazer o arremate de algumas partes da roupa que fabrica. Por recomendação médica, Vadoca deve continuar pedalando sua máquina de costura enquanto o vigor físico das pernas permitir.
(Foto: Reprodução / TV Amapá - print de tela)
Um outro profissional de Macapá, ainda em atividade, é Teodolono Sandim da Silva, de 63 anos, que começou em 1968 como alfaiate da Guarda Territorial do Amapá, e guarda até hoje, os antigos instrumentos de trabalho. (Fonte: TV Amapá)
Texto de Nilson Montoril, atualizado e adaptado ao blog Porta-Retrato, com a devida anuência do autor.
( Fonte: Blog Arambaé - Nilson Montoril
Nota do Editor: Santino Inajosa, também alfaiate da Guarda Territorial, é outro personagem da arte da costura, que não pode ficar fora desse registro. O jornalista Ernani Marinho lembra que a alfaiataria de Santino ficava próximo à Casa Leão do Norte, na antiga Av Amazonas, e depois na Candido Mendes, ao lado da Imprensa Oficial, hoje SuperFácil. A amiga Sarah Zagury, confirma que Seu Santino e Dona Carmosina, esposa dele,  eram amigos de Dona Clemência e Isaac Zagury, pais dela. Grato pela contribuição! João Lázaro.
(Última atualização em 05/jul/2018, às 11h45m)

sábado, 31 de março de 2018

Memória da Cidade de Macapá: Você sabe o que significa Beirol?

Articulista Nilson Montoril de Araújo – professor, historiador, radialista, blogueiro e atual Presidente da Academia Amapaense de Letras – em um artigo recém-publicado no Jornal Diário do Amapá, conta com riqueza de detalhes, o verdadeiro significado da palavra beirol.
“Três tipos de falésias existiram em Macapá, na margem esquerda do Rio Amazonas. 
Imagem: Reprodução / Arquivo Histórico do Amapá
Imagens: Reprodução / Google
Imagens: Reprodução / Google
Imagens: Reprodução / Google
Imagens: Reprodução/"Blog Canto da Amazônia"
As falésias da Fortaleza de São José se destacaram mais, tendo entre 5 a 6 metros de altura. À esquerda da imponente fortificação, um pouco além do Igarapé do Igapó tinha início outro trecho, que correspondia ao perímetro entre a área da antiga Rua da Praia, até o torrão cortado pela Rua Cândido Mendes de Almeida. Nessa parte elevada foram edificados o Fórum de Macapá, atual OAB, Residência Governamental, Posto de Puericultura Iracema Carvão Nunes, Casa Maternal, Rádio Difusora de Macapá, Laboratório de Análises Clínicas, Escola José de Alencar e várias residências. Em termos de vias públicas, podemos enquadrar o trecho entre as Avenidas Padre Júlio Maria de Lombarde e Matheus de Azevedo Coutinho. À esquerda da Fortaleza, a partir do ponto onde foi aberta a Avenida Ataíde Teive, até o prédio do Sesc/Araxá, ainda podemos ver sinais evidentes da terceira falésia, notando o quanto ela é alta.
A toda esta extensão de terra, os militares da Fortaleza chamavam de beirol. A designação é bem interessante e não aparece nos dicionários brasileiros. A rigor, nem em Portugal a palavra é empregada. Então, qual a origem do vocábulo? Existiu em Portugal, uma casa de detenção denominada “Prezidio de Beirollas”, certamente erguido em área de falésias à beira mar. Beirollas passou a ser escrito como beirola, significando beirada ou beira, correspondendo a uma espécie de paredão de terra. Originaram-se de beirola as palavras beiranita, beiranito, beiredo, beiró, beirô, beiroa e beirão, que é o feminino de beirola e quer dizer habitante da beira.
Consta que por ocasião dos exercícios de tiro com canhões instalados no baluarte Madre de Deus, os artilheiros das forças aquarteladas na Fortaleza usavam como alvo, uma parte do paredão ou beirol, na área onde surgiu a comunidade de Mucajá. O nome beirol voltou a ser mencionado após a instalação do Território Federal do Amapá, haja vista que a área do atual bairro macapaense foi escolhida para ser concedida às pessoas interessadas em desenvolver atividades próprias do setor primário. Os lotes, com cerca de 500m de frente por 500 de fundo, deveriam abrigar projetos de criação de aves, suínos, bovinos e produção de verduras e frutos. Infelizmente, alguns dos contemplados com lotes não permaneceram o tempo necessário para tocarem seus projetos. 
Imagens: Reproduções / G1-AP, Google e Blog Porta-Retrato
Apenas dois detentores de lotes levaram em frente suas iniciativas; Cláudio Carvalho do Nascimento e Antônio Barbosa, o dono da Vacaria(vide fotos acima). Atualmente, apenas o primeiro permanece residindo no lote recebido. Ali, ele criou gado e desenvolveu outras importantes atividades. Sua propriedade ficava bem isolada do centro de Macapá e boa parte do terreno era alagada. Nem o trecho da estrada Macapá/Fazendinha passava em frente de sua casa. Aos poucos, o Beirol foi sendo ocupado por novos moradores de Macapá, que não conseguiram terreno do Trem. 
Imagem: Reprodução / IBGE
Em 1949, o Beirol sediou uma Colônia Prisional, o primeiro presídio da cidade. Antes dele, os presos com penas mais drásticas iam cumpri-las em Belém, no Presídio São José. Os demais ficavam na Fortaleza. Os apenados do Beirol criavam aves, suínos e plantavam árvores frutíferas, principalmente caju. 
Por causa disso, o presídio era identificado como Cajual. Num espaço hoje ocupado pela Igreja de São Pedro e um posto de saúde do Lions Clube, foi construído um forno crematório.
A rodovia Macapá Fazendinha, perímetro da atual Jovino Dinoá, começava na Avenida Feliciano Coelho e passava entre o Presídio e o forno crematório. No segundo semestre de 1949, quando o governo amapaense decidiu construir um estádio de futebol, nos termos exigidos pela Confederação Brasileira de Desportos e Fifa, uma área próxima à Colônia Prisional São Pedro foi escolhida, mas descartada por ser julgada distante do centro de Macapá. O Estádio Territorial, depois Municipal, e mais tarde Glicério Marques, despontou um pouco além da Favela. Na área litorânea do bairro Santa Inês, originalmente chamada Vacaria, as águas do Amazonas lavavam o terreno baixo inundável. O aparecimento do Araxá foi obra de Pauxy Gentil Nunes, que ali fixou um rudimentar balneário para uso nos fins de semana. O acesso era feito pela estrada Macapá/Fazendinha, da mesma forma que hoje prevalece, através da Rua Jovino Albuquerque Dinoá.”(Nilson Montoril)
Texto de Nilson Montoril publicado originalmente na edição do dia 10 de março de 2018, no Jornal Diário do Amapá.

MEMÓRIAS DO LARGO DOS INOCENTES - FORMIGUEIRO – PARTE 13 – DONA MILICA: LAVADEIRA PIONEIRA QUE ENGOMOU O LARGO DOS INOCENTES COM ALEGRIA E FÉ

No coração do Largo dos Inocentes , um dos bairros mais antigos e pulsantes de Macapá , viveu uma senhora que transformou o suor do trabalho...